Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Mas por que se esconde ele... por que se furta tão misteriosamente a nossos olhos?!... Era essa uma pergunta à qual nenhum dos três se achava em estado de responder, por isso contentaram-se com guardar triste e profundo silêncio.
Enquanto isto se passava na sala, Raquel, ouvindo o suspiro que estremecera nos lábios de sua pobre amiga, foi outra vez de manso sentar-se junto dela; de novo tomou entre as suas uma das mãos de Honorina, que, ao doce contato, fez um movimento e abriu os olhos. Raquel estremeceu como se temesse haver cometido uma grande falta; Honorina talvez a compreendeu, pois que sossegou-a com o meigo sorrir de seus lábios.
— Honorina, tu estás muito melhor, não é assim?... perguntou Raquel.
— Sim, Raquel... agora só falta a cabeça... que me anda à roda... e me pesa muito...
— Está bem... não fales mais: isso há de passar... dorme, Honorina.
Honorina, parecendo obedecer ao conselho de sua amiga, fechou os olhos; mas bem depressa os abriu de novo, e uma ligeira nuvem cor-de-rosa se espalhou em suas faces.
— Raquel, disse ela com voz comovida e trêmula, Raquel... perdoa-me, porém sossegame...
— Que queres, pois, Honorina? fala.
— Tu viste?... perguntou ela, enrubescendo ainda mais.
— Quem, Honorina?
— O homem que me salvou?...
Aquela pergunta deveria ter feito mal a Raquel, porque ela se tornou de repente mais pálida do que há pouco estava Honorina, e foi quase gemendo que respondeu:
— Era... ele.
Honorina, como se acabasse de experimentar a influência de um choque elétrico, estremeceu toda, e com viva expressão de agradecimento levou a mão de sua amiga até os lábios.
— Dorme agora, Honorina.
Dir-se-ia que a moça cedera ao encanto da voz de Raquel; pois pareceu imediatamente adormecida. Momentos depois Ema e Lúcia entraram de novo no quarto.
— Como vai ela?... perguntou Ema.
— Esteve um momento acordada... queixou-se ainda da cabeça; mas tornou a adormecer sossegadamente.
— Pobre menina! disse a velha.
Honorina tinha os olhos fechados; porém, estava ouvindo tudo com a curiosidade própria de um enfermo.
— E ele?... perguntou Raquel; sabe-se alguma notícia?
— Tristes novas, minha senhora, respondeu Lúcia.
— Pobre homem! disse Ema, deixou suas pisadas marcadas com seu sangue! nós suspeitávamos que ele havia ficado ferido; porém, assim... oh!... é bem triste!
Ouviu-se então um longo gemido... longo... arrancado do coração; Honorina tinha compreendido tudo.
O resto da noite foi cruel e terrível. A dor de Honorina transbordou.
Durante a noite o pensamento é mais arrojado e mais livre; e de ordinário o coração acompanha o pensamento, e ambos se deixam ver em seus vôos, tais como são.
Honorina nem mesmo tratou de esconder o pesar e a aflição que lhe causava aquela fatal nova; parecia ter orgulho de ostentar ambos; parecia querer dizer a todos — eu sofro... eu choro por ele!
Inventou-se e repetiu-se mil vezes uma história para abrandar a dor da interessante moça: jurou-se-lhe que um homem, a quem nenhum de seus amigos conhecia, mas que a tinha salvado, pouco depois se embarcara para a corte; que ele estava ferido sim, porém levemente; que sua vida não corria risco; que tudo ia bem... tudo o melhor possível.
Raquel, sem desamparar um só momento a sua amiga do coração, velou toda a noite por ela e pelo segredo do seu amor; animou-a... fechou-lhe a boca mil vezes, mil vezes deu uma falsa interpretação a seus gemidos para encobrir a verdadeira causa deles; e, finalmente, rendeu graças ao céu ao vê-la adormecer em seus braços ao romper da aurora.
Às dez horas do dia, Honorina despertou melhor e mais sossegada. Então ela se lembrou da terrível noite que se tinha passado... ouviu a relação da catástrofe... e conheceu que em tudo quanto lhe diziam do homem que a tinha salvado, só eram verdadeiras duas coisas: que ele se havia ferido ao salvá-la, e que nada se sabia do seu destino. Mas agora, já razoável; agora, com todo o seu pudor de virgem despertado, esforçou-se ela por sepultar sua dor no fundo do coração, ou por derramá-la somente no seio de Raquel, de cujos lábios ouvia palavras de amizade, que lhe acendiam na alma a esperança.
E, pois, com a dor no coração e a esperança na alma, Honorina, embora abatida e melancólica, mostrava ir restabelecer-se depressa; e assim esvaíram-se prontamente todos os receios que pela sua vida puderam ter seus parentes e seus amigos.
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Ao declinar da tarde desse dia as duas amigas tiveram de separar-se: bem quisera Raquel demorar-se mais; porém, seu pai, a quem sempre sobravam sérios negócios, já se tinha deixado ficar em Niterói um dia inteiro, só em atenção à filha do seu amigo.
No instante da despedida, Honorina e Raquel achavam-se a sós; haviam acabado de trocar um beijo, estavam ainda apertadas em estreito abraço, quando a primeira murmurou com voz trêmula:
— Raquel, minha amiga! eu não devo, nem quero ter segredos para ti...
— O que há, pois, Honorina?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.