Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
O meu leitor anônimo, que tanto me honrou, é quem pode melhor orientar-me, porque, lho digo, consultei a dois velhos respeitáveis dos que me assinalou, outrora jovens estudantes e freqüentadores da loja de brinquedos da Rua do Ouvidor, quina da de Gonçalves Dias, e ambos me responderam pela negativa, e tão decididamente, que me desanimaram o empenho de outras informações.
Ora, o caso é que me achei em apuros de comprometimento. A tal loja de brinquedos devia ser o meu terceiro anexo, e por força maior reconheci-me desanexado!
Mas (vaidade de autor que é tão estulta como todas as outras vaidades deste nosso mundo, planeta de doidos) eu faço, ou fiz de conta que os meus numerosíssimos e enlevadíssimos leitores e principalmente leitoras (ainda mais vaidade no caso) esperavam com interesse e ardor o terceiro anexo, e agora positivamente último capítulo das Memórias da Rua do Ouvidor, obra dantênica, buenarótica, homérica e destinada a atravessar os séculos.
Em tão grande aperto, não quis dar o meu braço a torcer, e viajando eu só de cima para baixo, e de baixo para cima a procurar matéria nova para encher o terceiro anexo, descobri notabilidades que me dariam assunto para escrever ainda uns vinte capítulos.
Mas eu já declarei que a minha obra monumental estava acabada e não quero ir além do terceiro anexo para não comprometer as condições arquitetônicas do edifício que levantei.
Entre dezenas de recordações algumas, cabeludas e outras descabeladas, desta mina inesgotável da Rua do Ouvidor desde meio século e alguns anos tomarei de preferência duas lojas célebres e uma historieta, conto imaginário, ou verdade verdadeira.
Anexo III
Lembrarei em primeiro lugar a mais moderna das duas lojas célebres, aquela que ainda há menos de doze anos ocupava a casa do atual n.º 108, contígua à da Estrela.
Anos depois de 1840 tiveram nessa casa loja de modas duas francesas de meia-idade, irmãs, das quais uma alta e quase magra e a outra notavelmente gorda.
Ou porque fosse a principal sécia da casa ou por aquela distinção física a irmã gorda deu não o nome, mas a alcunha à loja.
Como as duas irmãs se chamavam nem eu sei, nem creio que alguém cuidasse em sabê-lo; o nome da loja era o da família de ambas, estava escrito no portal; mas ninguém o lia.
Loja de madame gorda era a denominação conhecida.
As duas irmãs não podiam agradar por bonitas; eram porém francesas que sabiam atrair fregueses por seus modos afáveis, e que gozavam crédito de modistas de bom-gosto.
A loja de madame gorda foi muito concorrida, e portanto a própria irmã que era magra ia engordando financeiramente.
Estabelecido o Alcazar Lírico depois Teatro Lírico Francês na Rua da Vala (da Uruguaiana atualmente), as principais ninfas alcazarinas foram aos poucos tomando madame gorda por modista, e enfim a célebre Mlle Aimée firmou o reinado da tesoura de madame gorda nas toilettes das alcazarinas florescentes.
Até aí não havia que dizer; as novas freguesas pagavam caro, e gastavam como se fossem pescadoras do Pactolo. Eram poucas, somente as mais famosas, as alcazarinas a quem madame gorda servia, mas cada uma delas valia por dez a despender na loja.
Isso não espantou a antiga e séria freguesia de madame gorda.
Mas em breve Mlle Aimée, e logo a imitá-la as celebridades alcazarinas não se contentaram com a sua exposição às vezes em seminudez na cena escandalosa do Alcazar, que determinou a decadência e a corrupção da arte dramática na capital do Império; elas quiseram ainda pôr-se em exibição repreensível de dia, e madame gorda prestou-se a essa exploração do vício.
As tais alcazarinas, tomando como em prova seus novos e riquíssimos vestidos, fugiam do interior da loja; e era junto às portas desta e em face do público a passar pela rua que madame gorda e madame magra as cercavam, simulando marcar supostos defeitos em sua obra, ora alisando com os dedos os talhes do corpinho, ora fazendo aquelas freguesas de colo nu e nuas espáduas executar longo e moroso movimento de rotação, como bonecas-figurinos de vidraça de cabeleireiro, enquanto elas, as duas irmãs, em fingido e ativo exame indicavam aos observadores curiosos as formas e os contornos dos corpos assim expostos, e o inconfessável prestigio de tanta riqueza de vestidos.
Ora, é claríssimo que não se provam inocentemente vestidos às portas da rua. As pessoas gordas não se abaixam com facilidade; mas madame gorda rebaixou-se muito.
Era demais. A freguesia antiga e séria abandonou a loja de madame gorda. Em breve (para alguns sem dúvida em longo) Mlle Aimée como andorinha que era bateu a linda plumagem (verso de modinha antiga) e foi fazer verão em outras cidades, as suas companheiras, de mim nomeada, caíram aqui no inverno do desprezo merecido, ou fizeram à cidade do Rio de Janeiro o grande favor de ir arranjar primavera e outono, onde melhor lhes pareceu.
História de ciganas nômades.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.