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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Mandioca é uma raiz da feição dos inhames e batatas, e tem a grandura conforme a bondade da terra, e a criação que tem. Há casta de mandioca cuja rama é delgada e da cor como ramos de sabugueiro, e fofos por dentro; a folha é de feição e da brandura da da parra, mas tem a cor do verde mais escura; os pés dessas folhas são compridos e vermelhos, como os das mesmas das parreiras. Planta-se a mandioca em covas redondas como melões, muito bem cavadas, e em cada cova se metem três quatro pauzinhos da rama, de palmo cada um, e não entram pela terra mais que dois dedos, os quais paus quebram à mão, ou os cortam com faca ao tempo que os plantam, porque em fresco deitam leite pelo corte, de onde nascem e se geram as raízes; e fazem-se essas plantadas mui ordenadas seis palmos de uma cova à outra. Arrebenta a rama desta mandioca dos nós destes pauzinhos aos três dias até os oito, segundo a fresquidão do tempo, os quais ramos são muito tenros e muito cheios de nós, que se fazem ao pé de cada folha, por onde quebram muito; quando a planta rebenta é por esses nós, e quando os olhos nascem deles são como de parreira. A grandura da raiz e da rama da mandioca é conforme a terra em que a plantam, e a criação que tem; mas, ordinariamente, é a rama mais alta que um homem, e a partes cobre um homem a cavalo; mas há uma casta, que de natureza dá pequenos ramos, a qual plantam em lugares sujeitos aos tempos tormentosos, porque a não arranque e quebre o vento. Há casta de mandioca que, se a deixam criar, dá raízes de cinco e seis palmos de comprido, e tão grossas como a perna de um homem; querem-se as roças da mandioca limpas de erva, até que tenha disposição para criar boa raiz.

Há uma casta de mandioca, que se diz manipocamirim, e outra que chamam manaibuçu, que se quer comesta de ano e meio por diante; e há outras castas, que chamam taiaçu e ma-naibaru, que se querem comestas de um ano por diante, e duram estas raízes debaixo da terra sem apodrecerem três, quatro anos.

Há outras castas, que se dizem manaitinga e parati, que se começam a comer de oito meses por diante, e se passa de ano apodrecem muito; esta mandioca manaitinga e parati se quer plantada em terras fracas e de areia.

Planta-se a mandioca em todo o ano, não sendo no inverno, e quer mais tempo seco que invernoso, se o inverno é grande apodrece a raiz da mandioca nos lugares baixos. Lança a rama da mandioca na entrada do verão umas flores brancas como de jasmins, que não têm nenhum cheiro, e por onde quer que quebram a folha lança leite, a qual folha o gentio come cozida em tempo de necessidade, com pimenta da terra. A formiga faz muito dano à mandioca, e se lhe come a folha, mais de uma vez, fá-la secar; a qual como é comesta dela, nunca dá boa raiz, e para se defenderem as roças desta praga da formiga, buscam-lhe os formigueiros, de onde as arrancam com enxadas e as queimam; outros costumam, às tardes, antes que se recolham, pisarem a terra dos olhos dos formigueiros com picões muito bem, para que de noite, em que elas dão os seus assaltos, se detenham em tornar a furar a terra para saírem fora, e lançam-lhe de redor folhas de árvores que elas comem, e das da mandioca velha, com o que, quando saem acima se embaraçam até pela manhã, que se recolhem aos formigueiros; e se as formigas vêm de fora das roças a comer a elas, lançam-lhes dessa folha no caminho, antes que entram na roça, o qual caminho fazem muito limpo, por onde vão e vêm à vontade, e cortam-lhe a erva com o dente, e desviam-na do caminho. Nesse trabalho andam os lavradores até que a mandioca é de seis meses, que cobre bem a terra com a rama, que então não lhe faz a formiga nojo, porque acha sempre pelo chão as folhas que caem de cima, com o que se contentam, e nas terras novas não há formiga que faça nojo a nada.

C A P Í T U L O XXXVIII

Que trata das raízes da mandioca e do para que servem.

(continua...)

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