Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Comera mal aquele dia, ou antes não comera nada, e velando até alta noite, as exigências dum estômago acostumado a nutrição abundante causavam-lhe uma fraqueza física, cuja origem não percebera a princípio, mas que o lançara num desânimo profundo. Acreditara por momentos que teria de renunciar para sempre a sua querida missão evangélica. Adeus, glória e sonhos dum porvir grandioso! Adeus, ilusões da mente criadora! Adeus, templos colossais, florestas enormes, povos conquistados pela palavra, puras invenções dum espírito reduzido à impotência! Antônio de Morais, o padre sonhador, voltaria à vida pacata, monótona e vegetativa de pároco de aldeia, coberto do ridículo da sua missão falha. Seria restituído às ladainhas, cantadas numa voz fanhosa pelas pretas velhas, de lenço branco à cabeça; à palestra insípida das tardes à porta do coletor; aos longos dias sem ocupação e sem trabalho, em que se embalaria suavemente na maqueira da sala de jantar, para refrescar a calma dum verão equatorial, numa sonolência mórbida, com o corpo fatigado de repouso e o espírito a vagabundear nas regiões escuras de teorias extravagantes e heterodoxas; a preguiça a tolher-lhe os membros e a fecharlhe os olhos para não ver o breviário caído relaxadamente abaixo da rede, de capa para o ar e folhas amarrotadas; e o demônio a insinuar-lhe no peito o ardor da concupiscência no olhar provocador e no sorriso desvergonhado da Luísa Madeirense, a passar e repassar pela cerca divisória, cantarolando a Maria Cachucha e levantando bem alto as saias para as não macular na lama do quintal. E a um canto, os olhinhos maus do professor Fidêncio, a perscrutar-lhe os mais íntimos pensamentos, a adivinhar-lhe as fraquezas sob a aparência severa de padre de S. Sulpício, para as estatelar ao comprido numa coluna do Democrata.

Esses pensamentos aumentavam-lhe o mal-estar ocasionado pela crescente sensação de debilidade.

Levantou-se, riscou um fósforo e depois outro; e à luz rápida e intermitente de fósforos sucessivos, enganou a fome com uma boa cuia de água, precedida dum punhado de farinha que fora buscar ao paneiro da Teresa, a um canto da sala. Sentia-se confortado. As idéias tristes e desanimadoras fugiram à claridade da luz, como assustados morcegos.

Padre Antônio, ao romper do dia, fora ao porto ver se aparecia alguma canoa. Ficara muito tempo passeando à beira do lago, molhando os pés na umidade das canaranas, atento ao menor ruído de remos, alimentando uma vaga esperança de ver romper à boca do furo de Urariá a sua igarité remada pelo João e pelo Pedro, tocados de sincero arrependimento; ou fantasiando um regatão que o ardor do ganho trouxesse àqueles confins da civilização para vender as suas chitas de ramagens e os seus terçados americanos; ou ainda acreditando que o pescador Guilherme, sentindo súbitas saudades da mulher e dos filhos, largara a vida regalada das salgas, o lundu e as cuias de aguardente para regressar ao sítio na sua excelente canoa veloz e segura, experimentada nos tropeços da navegação fluvial. A superfície do lago continuava deserta e lisa, agitada, apenas, de vez em quando, por algum pirarucu que vinha à tona da água respirar a brisa da manhã.

Macário, depois duma noite bem dormida, chegara ao porto fresco e bem disposto, de mãos aos bolsos, assoviando o Vinde espírito de luz. O vigário parecia desacoroçoado. Todavia, como por desencargo de consciência, S. Rev.ma convidouo a examinar de novo a montaria de pesca que na véspera a tia Teresa lhe mostrara, oculta entre as altas canaranas.

— Saberá S. Rev.ma que está de todo imprestável, sentenciou Macário depois. de desdenhosa vistoria.

Padre Antônio não se deu por convencido. Convinha saber se a tia Teresa teria algum breu e um bocado de estopa.

Teresa viera ao porto buscar água. Tinha o breu e a estopa, nem poderia a casa dum pescador estar desprovida daquelas coisas indispensáveis. Voltava já e havia de trazê-las ao senhor padre.

Então padre Antônio de Morais dissera sorrindo que ia fazer-se calafate. Não que se quisesse realmente servir daquela canoinha de criança, mas para matar o tempo e prestar um serviço ao dono da casa, porque, enfim, a montaria ainda podia servir para os curumins se divertirem a pescar de caniço, enquanto não chegava o tempo de irem com o pai às pescarias longínquas.

— Ainda estão muito pequetitos, observou Macário.

— Hão-de crescer. Ande, Macário, largue essa preguiça e ajude-me.

Puxaram a canoa para terra, e colocaram-na sob uma árvore do caminho, a cuja sombra padre Antônio lhe fora calafetando o costado, aberto em diversos lugares pela ação do sol e do tempo. Padre Antônio, parecendo esquecido da contrariedade que sofrera, alegre e risonho, trabalhava brincando com os filhos da Teresa, que a alguns passos de distância assistiam nus e pasmados àquele espetáculo surpreendente dum branco vestido de preto a calafetar a velha montaria.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6667686970...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →