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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Cá está! exclamou Manuel, duas horas depois, chegando a um lugar mais sombrio do caminho.

— Que é? ia perguntar o moço quando deu por sua vez com uma cruz de madeira, muito tosca e arruinada. Ah!

— Foi neste lugar assassinado o José!...

Todos pararam, e o guia apeou-se e foi rezar de joelhos ao cruzeiro.

— Reze pela alma de seu pai, meu amigo. Neste lugar foi ele varado por uma bala.

— E o assassino? perguntou Raimundo depois de um silêncio.

— Algum preto fugido!... até hoje nada se sabe ao certo... mas dizem que nisto andou unha política. . outros atribuem o fato ao diabo. Bobagens! ...

Raimundo apeou-se e indagou se o pai estava enterrado ali.

Manuel, já de pé, respondeu que não. Enterrara-se no cemitério da fazenda, ao lado da mulher. Aquela cruz, explicou ele, era um antigo uso do sertão; servia para mostrar ao viajante o lugar onde fora alguém assassinado e fazê-lo rezar pela alma da vítima, como ali estava praticando aquele homem.

E apontou para o guia, que, terminada a sua oração, levantou-se e foi colher um ramo de murta, que depôs aos pés da cruz.

Raimundo sentia-se comovido. Manuel, de joelhos, cabeça baixa e chapéu pendurado das mãos postas, rezava convictamente. Ao terminar surpreendeu-se por saber que Raimundo não tencionava fazer o mesmo.

— O quê? Pois então o senhor não reza?...

— Não. Vamos?

— Ora! essa cá me fica!... Então qual é a sua religião? Como adora o senhor a Deus?

— Ora, senhor Manuel, deixemo-nos disso; conversemos sobre outra coisa...

— Não! queria só que o senhor me dissesse como adora a Deus!

— Deixe-se disso homem, deixe Deus em paz! Ora para que lhe havia de dar!...

— Mas, nesse caso, o senhor não tem religião!

— Tenho, tenho...

— Pois não parece!... Pelo menos não devia fazer tão pouco caso das rezas, que nos foram ensinadas pelos apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo!...

Raimundo não pôde conter uma risada, e, como o outro se formalizara, acrescentou em tom sério “que não desdenhava da religião, que a julgava até indispensável como elemento regulador da sociedade. Afiançou que admirava a natureza e rendia-lhe o seu culto, procurando estudá-la e conhecê-la nas suas leis e nos seus fenômenos, acompanhando os homens de ciência nas suas investigações, fazendo, enfim, o possível para ser útil aos seus semelhantes, tendo sempre por base a honestidade dos próprios atos”.

Montaram de novo e puseram-se a caminho. Uma cerrada conversa travou-se entre eles a respeito de crenças religiosas; Raimundo mostrava-se indulgente com o companheiro, mas aborrecia-se, intimamente revoltado por ter de aturá-lo. Da religião passaram a tratar de outras coisas, a que o moço ia respondendo por comprazer; afinal veio à baía a escravatura e Manuel tentou defendê-la; o outro perdeu a paciência, exaltou-se e apostrofou contra ela e contra os que a exerciam, com palavras tão duras e tão sinceras, que o negociante se calou, meio enfiado. Entretanto, o guia cavalgava na frente, distraído, cantando para matar o tempo:

“Você diz que amor não dói

No fundo do coração!...

Queira bem e uiva ausente...

Me dirá se dói ou não!...”

Caminharam meia hora em silêncio. O dia declinava, os primeiros sintomas da noite levantavam-se da tenra, como um perfume negro, as aves refugiavam-se no seio embalsamado da floresta; a viração fresca da tarde eriçava os leques das palmeiras, enchendo os ares de um doce murmúrio voluptuoso.

— Tenho pairado tanto, disse por fim Raimundo com certa perplexidade, e todavia não tratei do que mais me interessa ..

— Como assim?...

— Lembra-se o senhor que, outro dia, pedi-lhe uma conferência em seu escritório, e, ou porque o meu amigo se esquecesse, ou porque mesmo não houvesse ocasião, o certo é que não chegamos a falar, e no entanto, o assunto é de suma importância para ambos nós...

— E o que vem a ser?

— E um grande favor, que tenho a pedir-lhe...

Manoel abaixou a cabeça, contrafazendo o embaraço em que se via.

— Trata-se de alguma questão comercial?... perguntou.

— Não senhor; trata-se de minha felicidade...

— E a mão de minha filha que deseja pedir?

— É...

— Então... tenha a bondade de desistir do pedido...

— Por quê?

— Para poupar-me o desgosto de uma recusa...

— Como?!...

— É natural que o senhor se espante, concordo; dou-lhe toda a razão; está no seu direito! O senhor é um homem de bem, é inteligente, tem o seu saber, que ninguém lho tira, e virá sem dúvida a conquistar uma bonita posição, mas...

— Mas... Mas, o que?

— Desculpe-me, se o ofende tal recusa de minha parte, mas creia, ainda mesmo que eu quisesse, não podia fazer-lhe a vontade...

— Está já comprometida talvez... Bem! Nesse caso, esperarei... Resta-me ainda a esperança!...

— Não é isso... E peço-lhe que não insista.

— Não quer separar-se da menina?

— Oh! O senhor maritiza-me!...

— Também não é?... Então que diabo! Terei, sem saber, alguma divida de meu pai, que haja de rebentar por ai, como uma bomba?...

— Que lembrança! Se assim fosse eu seria um criminoso em não o ter nunca prevenido. O que o senhor possui está limpo e seguro! Presto contas quando quiser!...

(continua...)

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