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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Agora sente-se aqui. Aqui justamente, neste banquinho. Bem; vejamos juntos estes desenhos.

Gregório ficara muito encostado ao divã em que estava Olímpia. Esta abriu o álbum sobre os joelhos e passou a primeira folha.

— Sabe quem fez isto? perguntou sorrindo.

Gregório inclinou-se mais para ver.

— Fui eu, explicou Olímpia. Não está bem feito?...

— Está muito bonito, disse o rapaz, prestando pouca atenção ao desenho.

— E este?... Que tal acha? continuou ela, voltando a folha.

— É, respondeu Gregório, quase sem olhar para a página.

— Olhe para cá! repreendeu Olímpia, segurando-lhe a cabeça e obrigando-o a olhar para o álbum.

Gregório riu-se.

— Chegue-se mais! acrescentou ela ainda em ar de repreensão. Parece-me

tolo!...

— A senhora está hoje muito amável!...

— Faça-se engraçado! Pensa que não sou capaz de puxar-lhe as orelhas!...

E terminou esta frase, segurando amorosamente a cabeça do rapaz e puxando-a para junto dos lábios.

Gregório retirou a cabeça de suas mãos e ergueu-se.

— Não! não! balbuciava ele a desprender-se-lhe dos braços.

— Você é um idiota! exclamou Olímpia, repelindo-o com raiva. E afastou-se da sala muito apressada.

Nessa ocasião acabava o comendador a sua sesta no gabinete e preparavase para apresentar-se, como sempre, de colarinho limpo, barba feita e cabelo bem escovado.

Ele não era homem capaz de aparecer mal a ninguém.

A filha nunca o vira em mangas de camisa. Apurava-se muito na roupa; tratava cuidadosamente dos dentes, que os tinha magníficos; e trazia freqüentemente, na algibeira do seu colete de seda preta, um canivetinho com que às vezes se entretinha a brunir as unhas.

Jacó era o seu braço direito. Era o Jacó quem lhe fazia a barba, quem o vestia, quem lhe cuidava dos sapatos, quem lhe metia os botões na camisa. Ninguém mais fazia isso a gosto do comendador.

Ainda em vida da mãe de Olímpia, já o desvelado doméstico invadia todas essas atribuições e gozava do valimento do amo. Foi ele, até, entre os íntimos do comendador, quem tomou parte mais ativa no segundo casamento deste. O comendador consultara a opinião do criado.

Jacó achava a noiva um pouco moça demais para o amo. O comendador já não estava criança!...

O pai de Olímpia opunha então a circunstância de que tinha filhos, de que precisava de uma senhora que lhe tomasse conta da casa e dirigisse a educação das crianças.

— Ora, replicava o velho criado; a Sinházinha não está tão pequena que precise de madrasta!... (Esta Sinhâzinha, a que se referia o bom Jacó, era Olímpia). E o nhonhô, acrescentava ele, sai do colégio apenas duas vezes por ano...

Mas, apesar de tudo, o comendador contraiu novo matrimônio, do qual lhe resultaram aquelas duas malogradas gêmeas de que já tratamos. Não foi feliz nas segundas núpcias: o criado tinha razão quase inteira. Ao casar, o comendador não estava totalmente velho, mas caminhava muito de perto para isso. A velhice às vezes é uma janela que se abre de repente, e por onde fogem no mesmo instante os últimos raios da mocidade.

A segunda mulher do comendador orçava então pelos vinte anos e era rapariga muito bem constituída de corpo. Sem ser bonita, ostentava esse encanto inestimável da saúde e da força, que tem para o homem as mesmas qualidades atrativas que a brilhante clorofila das flores, segundo Darwin, tem para os insetos voláteis.

Pelos seus olhos vivos e travessos, pelo moreno quente das suas faces coradas e viçosas, pelos seus lábios carnudos e vermelhos, pelo vigor da sua larga respiração e pela sedutora frescura dos seus dentes, a segunda mulher do comendador estava a pedir um marido mais esperto e mais senhor de si; de sorte que, por ocasião de escancarar-se a janela de que há pouco falamos, se escaparam logo, de envolta com os últimos raios da mocidade do infeliz marido, as estopinhas da fidelidade conjugal, cujos votos a esposa do comendador principiava a romper com toda a força dos seus ricos vinte anos.

Uma janela aberta e que se não pode fechar, é um perigo constante para a casa a que pertence, principalmente se nesta houver uma flor, porque os insetos andam soltos lá por fora.

O primeiro inseto que entrou pela janela foi o Portela, aquele morigerado e belo moço do comércio, convidado por Henriqueta e Leão Vermelho para servir de padrinho de batismo à nossa Clorinda, e o qual, mais tarde, vimos transformado em comendador, a conversar em companhia do Adelino Fontoura e do Duque-Estrada em casa da afilhada.

Portela estava por esse tempo no vigor dos anos; teria quando muito vinte e cinco, porque justamente na mesma época batizara ele a filha natural de Leão Vermelho.

Vejamos agora quais foram as circunstâncias que o aproximaram da mulher do comendador Ferreira, porque elas se ligam às futuras cenas desta narrativa.

(continua...)

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