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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

Veio-se aproximando ao major um vulto assobiando tranqüilamente o estribilho de uma modinha. Quando se achou em pequena distancia o major deu um salto donde estava e segurou-o.

Um ai franzino se fez ouvir, acompanhado de um:

— Me largue! Que é isto?

O major prestou atenção, não tendo reconhecido a voz do Teotônio, e viu que tinha segurado um pobre corcunda, aleijado, ainda em cima, da perna direita e do braço esquerdo.

— Ora vá-se para o inferno, disse o major; suma-se daqui. Também não sei o que andam fazendo a estas horas pelas ruas estas figuras.

O aleijado safou-se apressadamente livre do susto, e lá foi continuando a assobiar o seu estribilho.

Fez-se depois disto o mais profundo silêncio, e o major não viu mais passar senão os convidados da patuscada, não vendo entre eles o Teotônio.

Então ardeu com o caso; e reunindo os granadeiros disse para Leonardo:

— Ele não saiu...

— Saiu, replicou este; até de jaqueta branca e chapéu de palha: eu o vi tomar ali para a porta onde estava o Sr. major.

— De jaqueta branca e chapéu de palha? perguntou o major.

— Sim, senhor, e de calça preta: não o peguei porque logo vi que não havia de escapar ao Sr. major.

— Ah! patife, patife, resmungou: destas nunca levei... Era o corcunda, o aleijado...

— Ele sabe fazer muito bem de corcunda e de aleijado, disse um dos granadeiros; já o vi uma vez fazer isso, que era mesmo tal e qual...

Era com efeito o Teotônio o aleijado que o major tinha segurado.

O Leonardo ria-se às furtadelas do logro que levara o major.

Não tardou porém muito tempo que lhe não amargasse aquele prazer, vindo o major a saber que tudo aquilo se fizera de combinação com ele.

CAPÍTULO XLIV

DESCOBERTA

É muito antigo dizer-se que há uma coisa ainda pior do que um inimigo, e é um mau amigo. Um dos convidados do Leonardo-Pataca dizia-se muito amigo do Teotônio, e pelo empenho que o Leonardo mostrara em livrá-lo das garras do major, protestara desde logo repartir com ele parte dessa amizade, sem que nenhum dos dois ficasse prejudicado. Poucos instantes depois desse protesto deu logo a primeira prova de que estava disposto a cumpri-lo.

Enquanto se passavam as cenas que acabamos de descrever tinha amanhecido: o major e sua gente punham-se em retirada: ainda se achavam porém nas imediações do lugar onde se Havia feito a tentativa para prender o Teotônio, quando o tal amigo a que nos referimos, que fora um dos últimos a retirar-se, encontrando a patrulha, e vendo que o Teotônio não ia no meio dela, concluiu que os planos haviam surtido bem, e que o major ficara desta vez logrado. Teve por isso um acesso de alegria; e esquecendo a presença do major, correu ao Leonardo, abraçou-o, exclamando com arrebatado ímpeto:

— Bravo! como esta não fazes duas em toda a tua vida; foi limpa; ele há de ficar-te obrigado para sempre, e eu com ele, porque sou seu amigo e teu também!

O Leonardo ficou estático diante de semelhante imprudência. O major, que ia cabisbaixo pensando no logro que acabara de levar, voltou-se repentinamente: a palavra ele, proferida pelo terrível amigo, abriu luz a seus olhos. O Leonardo foi tirado do torpor em que se achava pela voz do major a dizer-lhe compassadamente:

— Recolha-se preso ao quartel.

A esta sentença o Leonardo ergueu do fundo d’alma tudo quanto havia aí de despeito, de rancor, e lançou um olhar sobre o imprudente que a havia provocado, e que ainda muito senhor de si apertava-lhe desapiedadamente a mão, que parecia não estar disposto a largar tão cedo.

Deixemos agora o Leonardo, vítima de sua dedicação, caminhar preso para o quartel, e passemos a outras coisas. Há muito tempo que não falamos em D. Maria e na sua gente. Saibam os leitores que, passada a lua-de-mel, em que tudo foram rosas, o nosso José Manuel pusera, como se costuma dizer, as mangas de fora, e tais coisas fez, que em poucos meses estava tudo em guerra aberta; tinha-se ele com sua mulher Luisinha mudado de casa de D. Maria, e por causa de dote vai, dote vem, herança daqui, herança dali, havia-lhe D. Maria proposto uma ação por tal sorte complicada, que era de desconfiar que não bastassem para ver-lhe o fim os dias que restavam de vida à pobre velha.

Tinha-se José Manuel tornado para Luisinha um verdadeiro marido-dragão, desses que só aquele tempo os conta tão perfeitos, que eram um suplício constante para as mulheres. Depois que se havia mudado de casa de D. Maria, nunca mais Luisinha vira o ar da rua senão às furtadelas, pelas frestas da rótula: então chorava ela aquela liberdade de que gozava outrora; aqueles passeios e aquelas palestras à porta em noite de luar; aqueles domingos de missa na Sé, ao lado de sua tia com o seu rancho de crioulinhas atrás; as visitas que recebiam, e o Leonardo de quem tinha saudades, e tudo aquilo enfim a que não dava nesse tempo muito apreço, mas que agora lhe parecia tão belo e tão agradável. Tendo-se casado com José Manuel, para seguir a vontade de D. Maria, votava a seu marido uma enorme indiferença, que é talvez o pior de todos os ódios.

(continua...)

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