Por Franklin Távora (1878)
Estas palavras levaram, como eletricamente, a exaltação, a vertigem ao animo do marchante já de se ardente. Dou-vos minha palavra que em menos de uma hora havemos de Ter o povo solto pelas ruas em procura de nobres para amarrar, como se foram caranguejos.
A modo de alucinado, Jeronimo correu imediatamente de escadas abaixo, fazendo tinir as moedas dentro do açafate, e dizendo em altas vozes:
- São rosas que me caíram do céu. Cheguem-se a mim, que hão de ver como são bonitas e cheirosas estas flores consoladoras.
XXIII
Jeronimo Paes mostrava Ter quarenta anos. As soalheiras que apanhava em suas freqüentes jornadas para Pedras-de-fogo a comprar gado e para o Recife a recendê-lo, tinham-lhe dado ao moreno do rosto e das mãos o trigueiro carregado que o fazia parecer homem de cor. Trazia o cabelo cortado rente e a barba inteira.
Esta era negra, espessa e algum tanto hirsuta. Em seu rosto liam-se a energia, a firmeza e a tenacidade do tribuno. A fronte, estreita no alto, alargava-se para os olhos, que eram pequenos, mas vivos e avermelhados. O nariz tinha o quer que era do bico da arara.
Jeronimo enviuvara meia dúzia de anos depois de casado. Ficaram-lhe três filhos, a saber Justino, Miguel e Victor, os quais ao tempo desta historia viviam com certa folga de meios, que eqüivalia à abastança, ou melhor à independência. Além destes, já senhores de si, tinha Jeronimo em sua companhia a caçula, por nome Josefa. Em casa chamavam-lhe Zefinha.
Não era ela nem fei nem bonita, nem alta nam baixa, nem muito morena nem muito clara. Era um todo correto, proporcionado e como feito de propósito para existir justamente na burguesia. Tinha os cabelos corridos e acastanhados, os olhos pretos e algum tanto caídos, o sorriso engraçado, mas sem o colorido, sem o reflexo indefinível que acusa louras esperanças, sonhos purpurinos, anelos vagos mas não de todos cegos, férvido sentimento em quem o sorri.
Sua instrução era vulgar, e a falta dos conhecimentos morais, necessários à mulher por honra sua e segurança do lar que possa ser chamada pelo destino a formar mais tarde, ela a supria com o admirável bom senso e imensa brandura de coração, que a tornavam a primeira prenda da família.
A preocupação principal de Jeronimo Paes, depois de ver seus três filhos casados, vivendo cada um do seu negocio, era achar um homem limpo que quisesse casar com Zefinha.
Um Domingo, em que à porta do sitio que tinha nas proximidades do Poço-do-rei, Jeronimo esperava pela filha para ir à missa na Soledade, passou pela frente da casa Antonio Coelho. Como já se conheciam e eram até afreguesados, o marchante tirou conversa com o negociante e o teve preso ao pé de se até que Zefinha apareceu. Seguiram então os três para a vila, e juntos ouviram a sua missa, que teve para o jovem português e a cachopa goianista, particular, posto que vaga delicia.
Zefinha voltou apaixonada. Sentiu durante todo o dia e ainda no seguinte certo bem estar, certa inquietação, certa harmonia, que lhe tiraram a vontade de comer e o sono.
Com o jovem português não se deu o mesmo. De noite já não lhe lembravam outras feições, outros feitiços, que os de d. Damiana, cuja imagem ele trazia permanentemente em seu olhos.
Desse dia por diante começou Jeronimo a aproximar-se mais vezes de Coelho. Primeiro vieram os presentes, depois as visitas, e por fim os convites para almoços ou jantares em sua casa. Dentro em pouco estavam amigos.
Mas ao passo que o marchante não poupava finezas nem esforços para prender definitivamente o negociante, lançava-lhe este outras contas muito diferentes. Gostava de Jeronimo, não desgostava de Zefinha, mas seu ser moral revoava em torno da imagem da jovem senhora de engenho, como em torno de rosa gentil e delicada, revoa, absorvendo-lhe o saudável cheiro, namorado beija-flor. Quando Jeronimo dizia consigo estas palavras: ‘Como não havia de ser feliz Zefinha se casasse com Antonio Coelho!’ monologava este de se para se do seguinte modo: ‘Damiana, Damiana, meu amor, meu bem, minha vida, minha alma, que será de mim dentro em pouco tempo, se sorte propicia não vier arrasar a muralha que nos separa? Ah! eu não posso viver sem ti, delicia cruel de minha existência, doce fatalidade que fizeste de mim escravo e desgraçado!’
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.