Por José de Alencar (1875)
Tais potentados, nados e crescidos no gôzo e prática de um despotismo sem freio, acostumados a ver todas as cabeças curvarem-se ao seu aceno, e a receberem as demonstrações de um acatamento timorato, que passava de vassalagem e chegava à superstição, não podiam, como bem se compreende, viver em paz senão isolados e tão distantes, que a arrogância de um não afrontasse o outro.
Quando por acaso se encontravam na mesma zona, o choque era infalível e medonho. Ainda hoje está viva no sertão a lembrança das horríveis arnificinas, consequências das lutas acirradas dos Montes e Feitosas, mais tarde dos Ferros e Aços. O rancor sanguinário das dissenções políticas de 1817 e 1824, foram resquícios dessas rivalidades e ódios de família, que mais breves não cederam contudo na crueza e animosidade às dos Guelfos e Gibelinos.
O capitão Marcos Fragoso, ainda moço, arredado havia anos do interior e limado pela vida da cidade, não estava no caso de um dêsses potentados do sertão, e não podia julgar-se com direito e fôrça de entrar em competência com o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, cujo nome era temido desde o Exú até os confins do Piauí.
Assim, quando arrastado pela paixão que nele acendera a formosura de D. Flor, deixara o Recife e viera ao Quixeramobim, sob o pretêsto de visitar sua fazenda do Bargado, mas com o fim único de aproximar-se da donzela, dispôs-se o moço capitão a render a sua homenagem ao senhor daquele sertão, a quem já considerava como sogro. Acreditava, porém, que essa homenagem fosse acolhida de um modo obsequioso e retribuída por uma deferência a que se julgava com título.
Falhou a sua conjetura. O capitão-mór lhe dera em sua casa o mais cortês e suntuoso agasalho; porque nisso não tivera em mente obsequiá-lo e sim fazer ostentação de sua opulência. Desde, porém, que êle, Fragoso, transpusera o limiar e deixara de ser hóspede da Oiticica, o senhor de Quixeramobim não o considerou mais senão como um vizinho que lhe devia todas as honras e bajulações, passando a tratá-lo nessa conformidade.
Se não ocorresse ao capitão-mór a idéia de aproveitar o mancebo para dar à sua filha querida um noivo sofrível, certamente que nem o mandaria visitar por seu ajudante, nem o deixaria passar tranquilo no Bargado, cêrca de um mês; já lhe houvera suscitado algum conflito para ter ensêjo de obrigá-lo a um ato formal de submissão.
Esta sobranceria picou ao vivo o Marcos Fragoso; e se não fosse tão veemente e irresistível a sedução dos encantos de D. Flor, já seu orgulho se teria revoltado contra aquele soberbo desdém. O receio de perder a dama de seus afetos e tornar impossível a aliança que sonhava, pôde tanto nele, que o conteve.
Depois de realizada a sua ambição e de alcançada a posse da noiva, então êle se despicaria dêsse procedimento, obrigando o sogro a tratá-lo de igual a igual; e fazendo-lhe sentir que a honra dessa aliança, não a recebia êle, capitão Marcos Fragoso, filho do coronel do mesmo nome de seu competidor lhe sucedera na importância e tornara-se o potentado de Quixeramobim.
Quando cogitava nestas coisas, e recordava as rivalidades que outrora começavam já a levantar os dois vizinhos um contra o outro, acudiu-lhe a idéia de uma recusa da parte do capitãomór; e se a princípio sua altivez repeliu a possibilidade do fato, refletindo, pareceu-lhe muito próprio o capitão-mór aproveitar-se da oportunidade para abater na pessoa dele o nome e a memória do coronel Fragoso, calcando depois de morto aquele a quem em vida não pudera igualar.
Várias razões haviam de pesar no ânimo do dono da Oiticica para aceitar a sua aliança: o grosso cabedal que ainda possuia êle, Fragoso; a vantagem de ter por vizinho na rica fazenda do Bargado um parente próximo, o que lhe assegurava o tranquilo domínio de todo o Quixeramobim; e finalmente as prendas e mancebo e cavaleiro, que muito valiam para noivo de uma filha mimosa e bem querida.
— Tudo isto, porém, pensava êle, o capitão-mór é homem para desprezar em troca de uma satisfação de seu destemperado orgulho. Portanto cumpre-me tomar as devidas precaições. Tenho suportado e continuarei a suportar suas arrogâncias, por amor da filha; mas albardar todas essas grosserias e ainda por cima a afronta de uma recusa, saindo da emprêsa, além de insultado, escarnecido?… Não; de outra livrem-me os anjos, que desta me saberei guardar.
Efetivamente o capitão já tinha o seu plano feito; tratou de realizá-lo.
Mandou chamar de sua fazenda das Araras, nos Inhamuns, o seu cabo de bandeira, Luiz Onofre, com ordem de trazer-lhe uma boa escolta de gente decidida. O bandeirista havia chegado à marcha forçada três dias antes, conduzindo trinta cabras, dispostos a tudo para ganharem a prometida paga e gozarem do prazer de matar e esfolar.
Essa gente arranchou-se na caserna que o Bargado, como todas as grandes fazendas de então, possuia para aquartelamento dos acostados. Explicou-se a chegada de modo a não despertar suspeita: era a escolta que devia acompanhar o moço capitão à sua fazenda das Araras.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.