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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Não; estou calmo, falo com a frieza da razão. A mulher é vaidosa sempre, quer ser amada, admirada por sua beleza e por seus vestidos. Quer para seu marido um homem em alta posição para elevar-se ela também; quer estar de alto, coberta de sedas e de brilhantes, deslumbrando os homens e sendo invejada pelas outras mulheres. No casamento isto é tudo, e o amor é quase nada. E a mulher, que isto consegue, lá vai... incensada... feliz... deslumbradora... invejada... ainda que seu marido seja um ente abjeto e estúpido; que abjeto!... que estúpido!... não há abjeção nem estupidez onde há riqueza. Os altos funcionários, que nunca estão em casa para receber o artista de mérito, o velho soldado, e o honrado servidor do país, o estão sempre para ir ajudar a descer da carruagem o milionário analfabeto. Que queríeis que fizesse a mulher?... esqueceu a missão do céu; ornou-se com os prejuízos e as douradas vilezas da terra... embora... o mundo bate palmas!...

– Isso não é falso; mas é exagerado, respondeu tristemente a velha Irias.

– Oh! não... é a própria verdade, mal pintada ainda. Perguntai a todos os que sofrem, perguntai a vós mesma. A sociedade não tem pejo!... hoje despreza um moço humilde, sem educação, que vive em miséria, e que para viver se sujeita a trabalhar como um escravo, e que por isso mesmo é indignamente ridicularizado; bem... amanhã esse moço, que compreendeu a época em que nasceu, enxergou... descobriu um meio que lhe oferece imensos... incalculáveis lucros; mas esse meio, sim, é que é desonesto; é que desdoura, é que rebaixa o homem diante da moral e da própria consciência... que importa?... o moço aproveitou-o... foi feliz. E depois de amanhã, senhora, quando o moço sai no seu belo carro, os grandes da terra, os nobres, os ministros e todos enfim o saúdam respeitosos, e vão depois festejá-lo...

curvar-se diante dele!... isto é mentira ou verdade?...

A velha guardou silêncio.

– Não se zomba senão do pobre; não se ridiculariza senão a ele. Dizei, por que é que sois o alvo de uma zombaria desprezível?... por que foi que vos lançaram uma alcunha insultuosa?... por que é que quando passais, a gente que vos vê sorri, e vos maltrata, lançando sobre vós um epíteto afrontoso?..

– Porque eu sou uma triste mulher velha, respondeu Irias.

– Não, senhora; é somente porque vós sois uma triste mulher pobre.

– Embora... embora; isso porém não me tira do meu pensar: a “Bela Órfã” te ama.

– Pois bem, ficai-vos com o vosso pensar.

– E eu hei de provar-te que tu te enganas com ela; e serás tu o primeiro que me virás confessar a injustiça que lhe estás fazendo.

– Será difícil.

– Freqüenta com mais assiduidade o “Céu cor-de-rosa”...

Cândido, que já se achava mais sossegado, tornou-se de novo rubro de despeito e vergonha.

– Eu não irei lá nunca mais... exclamou.

– Nunca mais?...

– E se lá tornasse merecia que me lançassem longe da porta como a um cão.

– Cândido!...

– Eu não irei lá nunca mais! repetiu com veemência o mancebo.

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E estava cumprindo à risca o seu propósito; dois serões haviam tido lugar depois da noite dos anos de Celina, e Cândido tinha faltado a ambos.

No começo da noite que se seguiu à do segundo serão, achava-se Cândido descansando no sótão do “Purgatório-trigueiro”, quando a velha escrava de Irias lhe anunciou o sr. Anacleto.

CAPÍTULO XXIV

A MOÇA E O VELHO

O VIVER da “Bela Órfã” estava sofrendo notáveis modificações.

Desde que Cândido deixara de aparecer no “Céu cor-de-rosa”, tornou-se mais constante e profunda a melancolia da moça.

De ordinário escondida no seu quarto, Celina comparava seus curtos dias de um amor nascente, com aqueles que estava passando de ansiedade e de dúvida, e conseqüentemente misturava saudades com lágrimas.

Os pesares desta ordem são mil vezes mais fortes e cruéis na mulher do que no homem, porque a sociedade impõe à mulher o dever de calar, e o homem pode sem corar desabafar-se contando-os, derramando-os na alma de um amigo. Ela portanto concentra a sua dor, revolve-se nela, devora-a em silêncio, o que dói mais certamente.

Sucedia isso a Celina. Apesar da amizade com que sua tia a tratava, não podia a moça esquecer-se da diferença de idade que havia entre ela e Mariana, e por isso, ainda quando pretendesse confiar a alguém os seus pesares, não se animaria nunca a escolher a viúva para confidente.

Em resultado a “Bela Órfã” fugia de tudo e de todos para viver com seu segredo, para pensar somente nesse amor que tão sem sentir lhe nascera no peito.

Todos os seus antigos e mais preferidos entretenimentos estavam esquecidos. O piano não mais se abria, as músicas descansavam, os livros tinham sido aborrecidos; porque também às vezes a pobrezinha, pretendendo vencer-se, tomava um romance, lia uma página inteira, e no fim dela, conhecia que lhe era preciso ler outra vez, porque sua atenção se distraíra, mas a leitura se repetia uma e dez vezes e o resultado era sempre o mesmo. Lia apenas com os olhos... com o pensamento não podia.

(continua...)

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