Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Outra vez perdão, senhora; mas eu sei de um que seria capaz de praticar a mesma ação que ele praticou.
— Capaz de, em uma noite tempestuosa, atirar-se ao mar borrascoso para salvar uma moça, que não é sua irmã, nem sua amiga?... perguntou Ema sacudindo a cabeça em sinal de dúvida.
— Sim, senhora, respondeu Lúcia com a firmeza da convicção; capaz talvez de mais ainda.
— E quem é esse?...
— Eu tenho medo de desgostar a senhora.
— Não! dize, dize.
— Esse, disse Lúcia enxugando duas grossas lágrimas; esse não está conosco... está bem longe daqui... é o homem que bebeu o leite de meus peitos... é seu neto...
— Mãe Lúcia, não me fales dele!
— Aquele, senhora, que foi capaz de arrojar-se às chamas para salvar uma moça que não era sua irmã, nem sua amiga, atirava-se também pelo mesmo motivo ao mar, embora o visse tempestuoso.
— Há uma diferença, mãe Lúcia; o homem, que se lançou ao mar para salvar Honorina, fê-lo, porque era um bravo; e Lauro arrojou-se às chamas porque não passa de um louco.
— Está bem... basta, senhora! disse Lúcia chorando amargamente.
Sem tomar parte no diálogo, que entretinham as duas, sem talvez muita atenção prestarlhe, Raquel guardava triste silêncio. Sossegada a respeito do estado de Honorina, ela parecia ter em seu espírito alguma outra consideração que a fazia sofrer: na vida dessa moça, que até então tinha corrido toda em fios cor-de-rosa, aparecia, enfim, uma nuvem de abafado padecer; em sua alma, que brilhara sempre com a luz viva do prazer, desenhava-se já a sombra de um desgosto. Raquel, tendo os olhos embebidos no rosto da sua amiga da infância, às vezes deixava pendurarse em seus longos cílios uma grossa lágrima escapada insensivelmente de seus belos olhos, como gota de orvalho caída do céu; qual será a causa dessa lágrima?... será porventura exprimida de dentro do coração?... será seu destino ir nas asas de algum terno pensamento a outrem, que ali não esteja?...
Quase ao mesmo tempo em que Ema e Lúcia punham termo às suas observações sobre o salvador de Honorina, Hugo entrou no quarto pé por pé.
— Minha mãe, como vai ela?...
— Dorme tranqüilamente.
— Graças a Deus! disse Hugo.
E, chegando-se para o leito em que descansava sua filha, ele... pobre e amante pai, que se culpava de todas as desgraças daquela fatal noite, foi, como o faziam as três senhoras, beber ao pé dos lábios de Honorina o ar de seu bafo, como um favônio de esperança e de vida; e depois, temendo muito acordá-la daquele sono reparador, outra vez com seu sagrado amor de pai, com as faces cobertas de lágrimas, beijou com ternura e fervor as belas madeixas de Honorina, que úmidas caíam pela almofada.
— E ele?... disseram ao mesmo tempo Ema e Lúcia, ao ver que Hugo se desprendia do leito da filha.
— Não... não... não façam bulha, balbuciou o extremoso pai com um receio infantil desenhado no rosto; não a despertem... venham para fora, que eu falarei então.
Ema e Lúcia logo se ergueram, saíram do quarto com Hugo, e dirigiram-se para a sala; Raquel, que não menos curiosa se mostrava pela sorte do salvador de sua amiga, encaminhou-se depois de vê-los desaparecer, como quem pretendia ir furtivamente escutá-los; porém, antes de chegar à porta, voltou de novo ao lugar que ocupava, pois um brando suspiro tinha estremecido nos lábios de Honorina.
Apenas chegados à sala, Hugo atirou-se, soluçando fortemente sobre o canapé, e com uma como delirante demonstração de prazer ele exclamou repetidas vezes:
— Está salva!... está salva!... minha filha está salva!...
Era o amor de pai! o amor de pai, que por toda a parte transpirava nele... pelos soluços que o sufocavam... pelas lágrimas que de seus olhos corriam, pelo riso que em seus lábios brincava. O amor dos pais é assim, e é ainda belo, grande, majestoso, como nenhum outro. — Está salva, meu filho, disse Ema; e Deus te há dado esta lição para te emendares. — Sim, sim, minha mãe, contanto que me reste Honorina, eu lhe prometo tudo, minha mãe!... deixaremos esta casa... não veremos mais esta praia... iremos de uma vez para a corte, e lá Honorina estará sempre debaixo dos olhos de minha mãe...
— E ele, senhor?... perguntou Lúcia ansiosa, e ele?...
— Ele?... é verdade: eu tinha vindo para falar dele...
— E então?...
— Nós seguimos os seus passos: à mercê de nossos fachos acompanhamos suas pisadas; oh! era impossível perdê-las de vista... estavam horrivelmente marcadas!... sobre cada uma delas havia gotas de sangue...
— Oh!... desgraçado!... exclamaram as duas.
— Fomos indo assim até que chegamos ao sítio da praia, onde se acham reunidas as faluas; aí toda a esperança de encontrá-lo se perdeu: alguns patrões viram-no embarcar-se, e mandar, a despeito do horrível temporal, abrir as velas e sair...
— Pobre homem! quem sabe se estará ainda vivo?!
— Oh! senhora, exclamou Lúcia, não diga semelhante coisa!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.