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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Depois de dar o remédio à mãe e acomodá-la para passar a noite, Luzia saiu ao terreiro a passear em roda da casa, a contemplar a lua, que ascendia em pleno esplendor. Interrogou o céu e a terra, silenciosos, impassíveis; espreitou em todas as direções, até aonde a sua vista alcançava, e perscrutou os mais leves rumores que a viração lhe trazia em rajadas violentas. Nada correspondia à sua ansiedade. A solidão lhe recusava alento às débeis esperanças e conforto às mágoas, que os conselhos maternais não conseguiram aplacar de todo. Entretanto, a confidência à mãe idolatrada, fora um transbordamento salutar, e ela experimentava a sensação de desafogo, como se o coração, libertado de cruciante aperto, pudesse pulsar sem se, contentar em estreito âmbito. Ligeiro torpor lhe invadia os membros que ela tentava em vão estimular, distendendo-os em contorções preguiçosas a lhe desenharem, com harmonioso relevo, as linhas vigorosas, exuberantes de graça.

— Não teimes em esperar, filha – observou a mãe – até fora de horas. – Anda, e fecha bem a porta. Eu não descanso enquanto estiveres aí a rondar de um lado para outro, como quem está rnalucando.

— Amanhã é domingo, mãezinha. O luar está tão bonito que a gente tem pena de se deitar. Parece dia...

— Que horas são?

— O Setestrelo já está alto e as Três Marias estão descambando. Ainda agorinha tive um susto! Correu uma zelação, que parecia uma tocha.

— Deus a guie. É sinal de desgraça. Anda, anda, vem para dentro, que a friagem te pode fazer mal.

Luzia obedeceu. Depois de fechar a porta, tomou a bênção à mãe; e, desatando os cordões da saia branca, estirou-se, extenuada, na esteira, onde Teresinha dormira tantas noites. E, todavia, mole de fadiga, não pôde conciliar, calmamente, o sono. Torcia-se, mudava de postura, como se o seu corpo robusto excedesse ao molde ali deixado pela amiga ausente, cuja recordação, engastada em seu cérebro, era o carvão da suspeita, comburente, agora, em brasa de remorso.

Ela imitava as desenvolturas da outra, da criatura dedicada, que renunciara a todos os seus hábitos para participar, com a placidez de uma consciência satisfeita, da pobreza e das tristezas daquele mísero lar. Julgava ouvir passos cautelosos, abafados pelo ruído das folhas agitadas pelo vento, e Teresinha e Alexandre lhe apareciam como espectros, exprobrando-lhe a injusta desconfiança, e exigindo reparação. Acusada por si mesma, Luzia não se podia defender; a culpa era demasiado evidente. Abandonada pelas energias musculares, que eram o seu estigma, oberada de vergonha, ela suplicou, em atrição, lhe perdoassem; e, como se um filtro purificador lhe lavasse a alma da mácula do cruel pecado, adormeceu no delicioso enlevo de um sonho de ventura inefável.

CAPÍTULO XXVI

Não acabara Luzia de pentear os cabelos que, depois de vendidos eram tratados com maior carinho, quando chegou Raulino, conduzindo a trouxa de mantimentos e uma grande cabaça d'água.

— Muito bom dia, sra Luzia!

— Bom dia, seu Raulino. Você vem hoje carregado.

— É que aumentei a trouxa com a cabaça e contrapeso que lhe mandaram.

— Para mim?

— Sinharsim. Meti os pés da rede quando vinham quebrando as barras e imaginei que vosmecês estariam carecidas d'água. Como estou morando, agora, na cadeia nova, para botar sentido nas obras, de noite, enchi a cabaça na jarra e fui à cidade receber as rações porque as do armazém da Comissão são melhores e medidas com lavagem. Foi uma lembrança mandada por Deus, porque, chegando lá, topei na porta o Alexandre...

— Alexandre!

— Em carne e osso. Depois de dar-lhe mão de amigo, pedi-lhe que me aviasse depressa para poder eu chegar aqui cedinho. Ele, meio banzeiro, perguntou por vosmecê, pela tia Zefinha e pelos outros conhecidos. Coitado! Está branco, com a cara encerada, que mete dó ver, tão desfeita uma criatura, que vendia saúde...

— Está doente?

— Como quem passou obra de um mês enterrado naquela prisão porca e fedorenta que mais parece um chiqueiro que morada de cristãos.

— É horrível!

— Mas a demora foi dar notícias de vosmecê, ficou ligeiro e alegre que não parecia o mesmo. Mediu... Mediu é um modo de falar: fez a olho, as rações. Era o que a mão dava. Ele por uma banda e eu pela outra. E não fomos mais longe porque já era uma dor de consciência. O homem quer bem a vosmecês mesmo de verdade. Fez perguntas e re-perguntas; quis saber do puxado da tia Zefinha; se sra Luzia ainda estava na obra, se passou lá trabalhando o dia de ontem, um horror de coisas que fui respondendo só para dar-lhe gosto. Agora está como quer. Há males que vêm para bem. Melhorou no emprego e recebeu uma dinheirama de coiro e cabelo.

Luzia desembrulhava os gêneros e os arrumava, aparentando indiferença à loquacidade de Raulino, que falava pelos cotovelos. Os sertanejos ladinos são, em geral, admiráveis narradores, de imaginação acesa, fecundos em descrição, cujos menores incidentes são debuxados com vigor.

— Que é isto? – perguntou Luzia, indicando um guardanapo de linho amarrado nas quatro pontas.

(continua...)

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