Por Aluísio Azevedo (1881)
— Qual o quê!... Viviam ao contrário muito sós! D. Quitéria a única parenta que tinha era a mãe; esta andava sempre de ponta com o genro e não saia da sua fazenda, que vem a ser aquela em que está hoje o Cancela - a fazenda do Barroso! É verdade! sabe quem pode informar bem estas coisas? é o Sr. Vigário! ele ainda vive na cidade; hoje é cônego. Pois era muito unha com carne do José do Eito.
— O cônego Diogo?...
— Justamente! Ele é que era o vigário desta freguesia. Ora quanto tempo já
lá vai!...
— Ah! O cônego Diogo era o vigário desta freguesia, e muito da casa das Santiagos?...
— Sim senhor! E ele está ai, que a quem quiser ouvir as voltas que deu para desencantar São Brás! Coitado! nada conseguiu e quase que ia sendo vitima da sua boa vontade!
— Ele também acreditava na feitiçaria?
— Se acreditava! Pois se ele a viu, que o disse! E olhe V.Sª que o cônego não é homem de mentiras! Afirmava que havia em São Brás uma alma danada, e não gostava até que lhe falassem muito nisso!... Proibia-o expressamente, sob pena de excomunhão! Se acreditava? E boa! Por que foi então que ele abandonou a paróquia, tendo aqui nascido, gozando da mais alta consideração e recebendo, como recebia, presentes e mais presentes de toda a freguesia?... Eram bois, carneiros, capados, muita criação. Ele está ai na cidade, que o diga!
Raimundo caia de conjetura em conjetura.
— Ele era então bastante amigo do José da Silva? o cônego?
— Se era, coitado! Amigo e muito bom amigo!... Quando assassinaram o pobre homem, o senhor vigário nem quis espargir-lhe a água benta; mandou o sacristão! Não podia encarar com o corpo do José! E, veja V Sª , meteu-se em casa, e pouco nada apareceu, até que se retirou para sempre cá da vila! Todos nós sentimos deveras semelhante retirada; estávamos tão acostumados com ele!... Eu, nesse tempo, trabalhava nas terras do coronel Rosa; tinha os meus vinte anos e ainda estava solteiro; assisti a tudo, meu rico senhor! Lembra-me como se fosse ontem! A fazenda, essa foi logo abandonada; ninguém quis saber mais dela, pois, todas as noites, quem passasse por ai, ouvia gritos medonhos, de arrepiar o couro!
— Mas, além do José e da mulher, quem mais morou nesse lugar?
— Or'essa! a escravatura e o feitor.
— Não. Digo senhores.
— Ninguém mais.
— Ah, é verdade! O José era feliz com a mulher? Viviam bem?...
— Qual! Pois se lhe estou a dizer que aquelas tenras são tenras do diabo! Viviam que nem o cão com o gato! O cônego, ainda assim, era quem os acomodava, dando-lhes conselhos e pedindo a Deus por eles!
E Raimundo perdia-se novamente em conjeturas. as. “Sempre sombras!...
Sempre as mesmas dúvidas sobre o seu passado!...”
A conversa afrouxou. O portuguesinho deitou-se, e depois de uns restos de palestra, vaga e bocejado, adormeceu Raimundo sonhou toda a noite.
As quatro da madrugada estavam de pé, selados os cavalos, cheio o farnel para a viagem, e o guia montado.
Partiram às cinco horas.
Logo que os dois, e mais o guia, se acharam em caminho, Raimundo procurou entabular a mesma conversação que tivera na véspera com o roceiro; queria ver se conseguia arrancar de Manuel algum esclarecimento positivo sobre os seus antepassados. Nada obteve; as respostas do negociante eram, como sempre que o sobrinho lhe tocava nisso, obscuras, difusas, entrecortadas de pausas e reticências. Manuel falou-lhe no cônego, na cunhada, no mano José, e em mais ninguém. A respeito da mãe de Raimundo - nem a mais ligeira referência. “Ora adeus!... Estou sempre na mesma!...” concluiu o moço de si para si e fez por pensar noutra coisa. O fato, porém, é que ele, apesar do seu temperamento de artista não tinha uma frase para as belas paisagens que se desenrolavam diante de seus olhos. Ia cabisbaixo e preocupado.
Jornadearam em silêncio horas e horas. De vez em quando o guia, com o seu de sertanejo, levava-os a uma fazenda ou a um rancho, onde os três descansavam e comiam, para tomar logo a cavalgar por entre as melancólicas carnaubeiras e pindovais da estrada. Raimundo sentia-se aborrecido e impacientava-se pelo fim da viagem. Seu maior empenho era visitar São Brás; propôs até que se fosse lá primeiro, mas o negociante declarou que era impossível. “Não tinham tempo a
perder!...”
— Na volta, doutor, na volta, acrescentou, sairemos bem cedo e daremos um pulo até lá. Lembre-se de que nos esperam, e não seria razoável bater fora de hora em casa de uma família.
O outro consentiu, praguejando entre dentes contrariado e cheio de tédio: “Que grandíssima estopada! O diabo da tal fazenda do inferno parecia fugir diante deles!...”
— Não se rale, patrãozinho! E ali quase! disse compassadamente o guia, espichando o beiço inferior Meta a espora no animal, que talvez chegaremos com dia!
— Ah! suspirou Raimundo, desanimado por ver o sol ainda alto e compreender que tinha de caminhar até à noite.
E deixou-se cair numa prostração mofina, a fitar as orelhas do burro, que arfavam com a regularidade monótona das asas de um pássaro voando.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.