Por Aluísio Azevedo (1882)
Dos três parecia ser este o único que conservava o sangue frio na alcova a que recolheram a desfalecida. O comendador nada mais fazia do que ir de um para outro lado, sem nunca acertar com os objetos que lhe pedia o assistente. Expediram-se receitas para a botica, vieram os remédios, e às onze horas a enferma voltava a si. Abriu os olhos, olhou espantada por algum tempo para o pai e para o Dr. Dermeval; depois, reconstruindo as idéias, lembrou-se do fato que a fizera desmaiar, soltou um novo grito e recaiu em convulsões. O Dr. Dermeval e o comendador apoderaram-se dela. Olímpia queria morder os pulsos e gritava, agatanhando-se.
Gregório, na sala próxima, passeava muito agitado, impacientado por descobrir um meio de ser útil àquela situação. Mas não tinha ânimo de aproximar-se do quarto de Olímpia; receava com isso cometer erro maior. Ao mesmo tempo o seu amor-próprio se sentia acirrado pelo desastre do acrobata:
Gregório sentira ciúmes desde a primeira vez que observara o modo apaixonado pelo qual Olímpia acompanhava com a fisionomia as difíceis e graciosas evoluções do gentil funâmbulo.
Não é que ele contasse ou ambicionasse merecer algum dia o amor da caprichosa senhora; não, porque estava no firme propósito de nunca deixar transparecer o menor vislumbre dos seus desejos, ainda que para isso fosse necessário afogá-los em sangue. Mas o coração também vive desse dúbio querer e não querer; desse vago desejar, que nasce e avulta em nossos sentidos, sem o menor concurso do raciocínio. Gregório era sem dúvida um espírito sumamente romântico e sempre voltado para o ideal, mas era latino e tinha dezoito anos; não podia, por conseguinte, furtar-se às tendências naturais do meio em que nascera e à fatal idiossincrasia de sua raça; educara o seu caráter e o seu gosto artístico pelos velhos moldes líricos, cuja influência lhe chegava ao espírito por intermédio de alguns livros, às vezes mal escolhidos, e de alguns jornais quase sempre pouco escrupulosos. Lamartine foi um dos primeiros que se apoderaram dele, que lhe fascinaram a alma com a sua sedutora tristeza apaixonada; depois Musset, Gautier e Vítor Hugo terminaram a obra. Gregório não resistiu ao desejo de sentir com eles. Era tão agradável chorar na sua idade! É tão bom sofrer quando sofremos por gosto!...
Olímpia, depois da morte de Scott, ficou muito pior; o pai já não contava com ela e deixava-se mergulhar em fundo e surdo desespero.
O Dr. Dermeval não poupava esforços para salvá-la. Fizeram-se várias conferências médicas; a opinião predominante era que Olímpia, se escapasse da morte, viria a sofrer para sempre das faculdades mentais. Só o Dr. Dermeval discordava.
E principiou este, mais do que nunca, a interessar-se por ela. Ia visitá-la todos os dias, procurava distraí-la, contava-lhe histórias espirituosas, oferecia-lhe de vez em quando um livro e falava-lhe de teatros e bailes. Olímpia, com efeito, ao fim de pouco tempo, experimentava melhoras, e daí a dois meses passeava no jardim pelo braço do pai.
Depois da moléstia ficara muito amiga de Gregório, tratava-o agora com extrema condescendência, quase com amor. Uma vez apareceu ele mais cedo que de costume (acabava-se de tirar a mesa e o comendador fazia a sesta no gabinete). Olímpia, ao ver entrar aquele, soltou logo uma exclamação de prazer e correu ao seu encontro com os braços abertos.
— Oh! disse ela; o senhor foi hoje verdadeiramente amável...
E abraçou-o.
O rapaz ficou perplexo com semelhante recepção, e nada mais conseguiu do que gaguejar algumas palavras de agradecimento. Em seguida, assentaram-se os dois no mesmo divã e puseram-se a conversar. Olímpia mostrava-se aquela tarde de uma estranha expansão, e Gregório, ao contrário, parecia como nunca retraído e contrafeito.
Falaram vagamente sobre todos os assuntos de que se podiam lembrar para encher a conversa. Ela ofereceu-lhe café, e foi pessoalmente buscar uma garrafa de licor; pediu-lhe depois que lhe desenhasse alguma coisa no álbum. Gregório obedeceu; mal, porém, tinha principiado o desenho e já a caprichosa lhe arrancava o lápis dos dedos e lhe pedia para fazer-lhe antes um pouco de leitura. Gregório foi à biblioteca, tomou os Primeiros Cantos de Gonçalves Dias e principiou a recitar o episódio do Pirata.
— Não! disse Olímpia, pousando-lhe a mão na boca. Leia-me outra coisa...
faz-me mal esse poeta!... Não gosto de lhe ouvir os versos senão quando preciso chorar...
Gregório lembrou Casimiro de Abreu, ofereceu Castro Alves, intercedeu por Fagundes Varela. Ela, porém, não aceitou nenhum deles.
— Olhe! cá está o Machado de Assis! Quer?...
Olímpia respondeu que não, sorrindo com faceirice e agitando o indicador da mão direita.
— O Luiz Guimarães?...
— Não...
— Ah! Cá está o Muniz Barreto!
— Não! não!
— Quer antes um poeta francês?... prefere ouvir um trecho de prosa?... — Não! Já não quero nada disso. Dê-me aquele álbum que ali esta...
Gregório foi buscar sobre o piano o álbum indicado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.