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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

Encontrando os seus granadeiros que tinham ficado a pouca distância, dirigiu-se ao Leonardo, e fez-lhe sentir que querendo a todo o custo naquela noite segurar o Teotônio, temia que os de casa desconfiassem disso e lhe dessem escapula por qualquer meio; era-lhe pois mister uma pessoa que o fosse vigiar de perto sem que despertasse suspeitas: essa pessoa devia ser o Leonardo.

— Sou malvisto em casa de meu pai, replicou este à proposta do major.

— É hoje um bom dia de conciliação...

— Talvez não queiram receber-me...

— E sua madrinha que lá se acha?...

— Mas a filha que é uma víbora contra mim?...

— Víbora ou não, há de ir; que quando manda a disciplina... Não quero que aquele valdevinos ande tomando impunemente a minha cara para original de caretas.

Os granadeiros, que conheciam o Teotônio e lhe sabiam da habilidade, compreenderam logo o que tinha sucedido por aquele dito do major, e desataram por seu turno a rir. O Leonardo, por aquele apelo à disciplina, com a qual não se achava em muito bom pé de relações desde a noite do papai lelê, venceu todas as dificuldades e repugnância que manifestara no desempenho da missão de que o encarregara o major, e pôs-se a caminho para a casa de seu pai.

Chegou e bateu: assim que de dentro lhe perceberam as cores da farda e barretina houve um grito de medo, e por um movimento que parecia combinado (o major tinha razão!) foram repentinamente apagadas todas as velas da sala, e começou a reinar uma confusão tal, que parecia haver-se travado uma luta entre todos.

O Leonardo viu nisso uma primeira contrariedade, porém não deixou de achar graça no susto que causara. Resolveu então falar da parte de fora para tranqüilizar aos medrosos.

— Bom modo de ser recebido um filho em casa de seu pai! Para quarta-feira de trevas só lhe faltam as matracas...

A comadre, que ouvira e reconhecera a voz do afilhado, desatou a rir, exclamando:

— Vejam que logro! é o Leonardo; tragam as velas, gente: não há novidade, que o cabo da guarda é nosso compadre.

— Aquele brejeiro, resmoneou o Leonardo-velho, sempre há de andar a fazer das suas: vejam que susto causou a toda essa gente... Ó amigo Teotônio, desça, que não há novidade...

À luz da primeira vela que traziam viu-se descer por uma porta o Teotônio do forro do quarto da sala onde se havia escondido.

Apenas pôs o pé em terra fez logo uma careta de medo, por tal forma expressiva, que houve em todos uma tremenda explosão de hilaridade. Começou a surdir gente de diversos cantos da casa, e em presença do Leonardo recomeçou a folia.

Algumas pessoas não deixaram de estranhar e recear a presença do Leonardo naquela ocasião e naqueles trajes logo depois da saída do major; porém a comadre a todos tranqüilizou, dizendo que tendo ele obtido licença no quartel, por não estar de serviço naquele dia, viera assistir ao batizado de sua irmã.

— Ele é meio doido, repetia ela a todos, mas é muito amoroso, e nunca se esquece da família,

Leonardo confirmava esses protestos da comadre, e ia entretanto tomando parte na brincadeira, uma vez que contra as suas esperanças todos o haviam recebido bem em casa. À proporção que se ia esquentando no prazer do fado e das cantigas começou o Leonardo a sentir remorsos pelo papel de judas que ali estava representando: quando olhava para o Teotônio, que desde que entrara lhe havia feito dar tão boas risadas, pungia-lhe o coração lembrando-se que ele próprio o havia de entregar ao major. Não poucas vezes lhe passou pela cabeça dar-lhe escapula avisando-o, porém a disciplina, o papai lelê, vinham-lhe à idéia, e hesitava.

Enquanto era assaltado por estes pensamentos olhava repetidas vezes para o Teotônio.

Este, que nada tinha de tolo, desconfiou da coisa; não sabemos por que instinto leu o que pensava o Leonardo, e pôs-se em guarda. O Leonardo tomou repentinamente sua resolução.

— Ora, adeus, disciplina, disse consigo; hei de dar escapula ao homem, seja lá como for.

E do lugar em que estava acrescentou alto:

— Ah! Sr. Teotônio, quer saber uma coisa? Pois se puser o pé daquela porta para fora, o major põe-lhe a unha, que para isso está ele à sua espera, e para aqui me mandou...

— Ó diabo! exclamaram todos.

— Mas nada de sustos; tudo se há de arranjar, que tenho eu boa vontade disto.

— Mas não te comprometas, rapaz, acrescentou a comadre ao ouvido do Leonardo; olha que o major não é de graças, e daí te pode vir mal. — Ora, tenho pena dele só por aquelas caretas.

Juntaram-se então os dois, Leonardo e Teotônio, e juntos concertaram o seu plano de modo que este escapasse ao major, e que aquele não ficasse comprometido.

Estava já a noite muito adiantada, ordenaram os dois que saíssem ao mesmo tempo muitos convidados, e o Leonardo, partindo adiante deles, foi correndo ter com o major.

— Aí vem o bicho, Sr. major.

— Cerca, cerca! disse o major.

E cada um se dividiu para seu lado.

O major colou-se à porta de um corredor, e pôs-se de olho alerta.

(continua...)

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