Por Bernardo Guimarães (1883)
— Fallemos, sim, pois que inconveniente ha em fallar nisso, si não fallamos para fazer mal a ninguem. Pobre Adelaide! deve estar luctando com bastantes difficuldades; como ha de governar uma casa cheia de tantos e tão complicados negocios, ella que nenhuma pratica tem dessas cousas rica, sem marido, sem pae, moça e formosa ainda como sempre foi, ou mais ainda, sem mãe, sem irmãos, rodeada de quatro filhinhos em tenra edade que triste isolamento!...
— É verdade, nhÔ Conrado; é ella sósinha commigo, pobre negra velha e cançada, as creanças e Deus
— Pois eu da minha parte, Lucinda, teria o maior prazer do mundo em adoptar como meus filhos os irmãosinhos de Rozaura.
Lucinda estremeceo de prazer ouvindo estas palavras, cujo alcance logo comprehendeo, e calou-se.
— Pois é o que te digo, proseguio o moço ; — entendo, que fica muito mal o luto em uma senhora tão moça e tão formosa. Consentiria ella que eu fosse despojal-a de tão lugubre vestidura ?
— Não sei• , — respondeo Lucinda com ar malicioso, — só indo perguntar.
— Pois pergunta—lhe e apressa-te em trazer-me a resposta.
Lucinda nada mais quiz saber, e nem esteve por mais conversas; correo direito para a casa.
Dous mezes depois desta conversação, uma linda caleça, puxada por duas parelhas de possantes e vistosos cavallos brancos, conduzia para a egreja cathedral dois formosos pares de noivos, que sentados de fronte um do outro ião receber-se á face do altar.
Quem os visse não era capaz de adivinhar, que erão pae e sogra, filha e genro, que assim por modo tão singular se achavão de vis-à-vis. Um dos pares estava ainda em todo o viço da mocidade; o outro, posto que algum tanto mais edoso, nem por isso era inferior ao outro em belleza e elegancia; por isso mais facilmente se acreditaria serem irmãos e cunhados. Mas o leitor já sabe quem são elles.
Conrado, que nenhum desejo nem motivo tinha para adiar seu casamento com Adelaide, achou que era não só de bom tom, como de bom agouro, celebrar tambcm no mesmo dia, hora e logar o consorcio de sua filha com o seu querido Carlos e por isso concedeo-lhe perdão da pena de um anno de purgatorio, a que o tinha condemnado.
FIM
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.