Por Franklin Távora (1878)
- O pavimento inferior era repartido em duas metades. Para a da frente, na qual estava a loja com todas as suas dependências, entrava-se pelo lado da rua; para a outra descia-se por uma escada que comunicava com o primeiro andar por dentro de um gabinete secreto. Coelho, Paz e Bartolomeu atravessaram esse gabinete, desceram a escada e chegaram ao pavimento, que se esclareceu à luz de um candieirinho de prata de que se munira Coelho quando teve de descer. O vão ocupava uma quinta parte do prédio. Não tinha portas nem janelas, nem sequer frestas. Era um como túmulo, sem nenhuma outra comunicação com o ar e o mundo, a não ser a que se prendia à escada. Espalhados pelo chão viam-se alguns caixões de pinho, e encostados a um canto objetos que reluziam. Coelho levantou a tampa de um desses caixões para que o barcaceiro visse o seu conteúdo. Que é que estás vendo, Bartolomeu? perguntou ele a modo de desvairado. - Armas de fogo, patrão.
- É verdade; são armas. Foste tu mesmo que as trouxeste, supondo que trazias ferragens para o engenho que estou construindo. São trezentas espingardas e duzentos bacamartes. Aquilo que reluz dali do canto são espadas, catanas e parnaíbas. Já vês que Ricardo não passa de um mentiroso, um desprezível vilão. Agora subamos. Subiram.
Ao penetrarem no gabinete, onde se escondia a escada, Coelho indicou ao barcaceiro um animal de tamanho descomunal, deitado aos pés da cama de seu uso.
- Que te parece isto, Bartolomeu? perguntou Coelho.
- Um grande cachorro. Oh que monstro!
- É o meu defensor. Ele agora está dormindo. Aproxima-te. Tens medo? É um cão que só tem dentes para os ladrões.
- O barcaceiro, em vez de se aproximar, afastou-se. Coelho e Jeronimo sorriram. Não fujas. O animal é benévolo e inofensivo. Pega neste candeeiro e encosta-te bem a mim para o poderes ver de perto. Ficarás sabendo o que ele vale. Não sem receio, Bartolomeu fez o que mandara o mascate. Este meteu então no canto de um dos olhos do animal adormecido um pequeno objeto que tirara do bolso. Houve um como movimento na fera, o que fez o barcaceiro recuar amedrontado. Não fujas, Bartolomeu. Estou aqui. Aproxima-te.
- Aos olhos de Bartolomeu mostrou-se então um sonho, uma visão deslumbrante e incrível. O animal tinhase aberto pelo ventre de banda à banda; e naquela sobre a qual estava deitado, o que o barcaceiro descobriu foram dobras em pequenas tulhas, formando carreiras pelo longo vão. Ó xentes! exclamou Bartolomeu maravilhado. Quanta moeda, quanto ouro! Meu Deus! Pois é esta a burra de seu Coelho?!
Todo este dinheiro, disse o negociante, ganhei-o eu pela minha industria nesta terra. Devo acaso à terra ou ao meu trabalho, as minhas economias? Devo-as ao meu trabalho; a terra não dá dinheiro. Os preguiçosos não serão capazes de o ajuntar, ainda que morram de velhos no país mais fecundo e rico do globo. Dizem que esta terra é deles. Não há tal. O mundo é da humanidade. Povos que vivem hoje em um ponto, podem viver amanhã em outro com o mesmo direito. Assim os homens que trabalham. Pois bem, todo este cabedal, adquirido com o suor do meu rosto, será aplicado em defesa da autoridade real e do interesse do povo, a que os nobres tencionam antepor o seu bem estar, a sua rebeldia. Mas não percamos tempo, Sr. Paes, disse ao marchante, pegando de um açafate e atirando dentro nele algumas das tulhasinhas de dobrões, que se viam enfileiradas no ventre do cão de bronze. Eis a minha idéia. É preciso desfazer imediatamente, com dinheiro, as invenções de Ricardo. Correi à botica do Rogoberto, meu amigo e Sr. Paes. Falai do despotismo da nobreza, da covardia do bispo, da estupidez do bispo e dos nobres. Discorrei com o fervor que vos é natural, sobre igualdade, fraternidade e liberdade. O povo é perdido por estes sentimentos. Espraiai-vos em demonstrardes a conveniência de acabar-se com o cerco do Recife, o qual impede de saírem os nossos produtos, que têm bom preço nas praças estrangeiras, e de entrarem os produtos estrangeiros de que precisamos. Acrescentrai que a fome e a nudez hão de chegar dentro de pouco tempo aos campos e aos sertões. Talvez que, estimulados ou advertidos por vossas palavras, muitos dos que vos escutarem queiram pegar em armas contra o juiz ordinário, o sargento-mór, enfim contra as autoridades atuais que tiveram quase todas por origem monstruosa rebeldia. Se o povo se mostrar deliberado a pegar em armas...
- E porque não se há de mostrar? interrogou Jeronimo Paes.
Tendes razão, tendes razão. Enfim deixo o resto por vossa conta, Sr. Paes. Bem sabeis que o povo de Goiana deve pegar em armas de hoje até amanhã contra os que se dizem nobres. É indispensável que isto aconteça. É absolutamente necessário que a excitação publica, em vez de se moderar, vá por diante cada vez mais. Ajudados por ela, os amigos, que esperamos, poderão penetrar facilmente na vila e assenhorear-se dela. Acharão os ânimos preparados para a grande empresa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.