Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Não acrediteis, porém, que o cárcere dos frades capuchos do Rio de Janeiro seja uma terrível masmorra, uma sepultura dos vivos, um medonho inferno cheio de aparelhos de tormento. Lá se foi, graças a Deus, o tempo desgraçado desses horrores, em que primaram os dominicanos com as suas inocentíssimas proezas da inquisição, que tinham a sacrílega sem-cerimônia de chamar santo ofício. O cárcere do convento de S. Antônio é uma sala onde o ar e a luz penetram livremente, onde o asseio se observa com prazer, e onde o frade que delinqüiu fica trancado e rezando, se reza, ou maldizendo da sua vida, se maldiz.
É verdade que um cárcere sempre é um cárcere. Mas ah! se em vez de passeardes comigo pela capital do império, empreendesses uma viagem instrutiva pelas vilas do interior das nossas províncias, entrando na conta a do Rio de Janeiro, que é a mais civilizada de todas, e visitásseis suas cadeias; cair-vos-ia, eu o juro, a alma aos pés, observando a inconstitucionalidade, o estado miserável desses focos de peste, onde se amontoam detidos de envolta com sentenciados, simples suspeitos de mistura com celerados, respirando todos ondas pesadas de um ar corrupto e repugnante; e então reconheceríeis que o cárcere do convento de S. Antônio é um céu aberto em comparação das nossas cadeias, e que os presidentes das províncias não valem os provinciais nem os guardiões dos capuchos.
Demos por terminada a nossa visita ao cárcere do convento, e voltemos sobre os nossos passos. Protesto-vos, porém, que não haveis de atravessar outra vez a sala do refeitório sem que eu vos conte coisas novas a respeito dela.
Tenho de referir-vos pelo menos duas anedotas que esta sala me está lembrando, e ainda a notícia de um breve pontifício que não pode ficar esquecido.
Disse-vos ainda há pouco que o salão que se estende em frente do altar de Santana se denominava o capítulo. Devia, porém, acrescentar então que essa denominação era apenas um título honorífico; porque, de fato, não era ali, e sim nessa sala do refeitório que se reunia, como ainda se reúne, o capítulo dos frades capuchos da província de N. S. da Conceição do Rio de Janeiro.
Ora, sabendo todos nós que o capítulo se celebra periodicamente no convento para se proceder à eleição dos prelados, podemos fazer idéia do que se terá passado a portas fechadas nesta sala do refeitório.
Asseguro-vos que do alto do púlpito que ali vedes, qualquer dos frades capuchos poderia dar lições de arte da cabala eleitoral a todos os forjadores de fósforos e de duplicatas, a todos os inspetores de quarteirão, a todos os empalmadores de listas e até a todos os chefes de partido e ministros de Estado do império do Brasil.
Os frades de todas as ordens foram sempre mestres cabalistas por excelência. Mas os capuchos tomaram nesse ponto a dianteira a todos os outros.
Vou dar-vos conta de uma esperteza eleitoral de frade capucho; e para que não duvideis da história, não só publicarei o nome do protagonista, como vos afirmo que se conserva no convento a memória do fato.
O padre-mestre frei Cosme de S. Antônio via chegar a seu termo o triênio em que fora provincial e desejava muito que no capítulo que tinha de celebrar-se no dia 3 de fevereiro de 1776 saísse eleito para seu sucessor o padre-mestre frei José de Jesus Maria Reis. Mas, apesar de todos os pedidos, promessas, lamúrias, ameaças, intrigas e maneios, a grande maioria dos vogais sustentava o outro candidato. E se os votos valessem, como deviam valer, certo era o naufrágio da candidatura de frei José.
O velho frade provincial nem assim desanimava. Sabia já nesse tempo o que hoje todos estão vendo, isto é, que se abafam e nulificam os votos da maioria com a violência ou com um ardil, embora desregrado e feio.
Um mês antes da eleição, frei José de Jesus Maria foi ter com o seu protetor e disse-lhe:
– Padre-mestre, estamos perdendo tempo e trabalho. Minhaderrota é inevitável. Abandonemos o campo.
– Abandonar o campo! Só se eu não me chamasse frei Cosmede S. Antônio. Hei de ensinar a esses fradinhos de ontem o que pode conseguir a habilidade de um frade velho.
– Mas que espera?
– Eu não espero. Conto fazê-lo provincial.
– Como, se a grande maioria dos vogais é contra nós?
– Que lhe importa o meio? Cale-se. Não fale mais em eleição.
Não peça mais votos e deixe o resultado por minha conta.
Frei José retirou-se e cumpriu à risca a ordem de frei Cosme.
No dia seguinte, entrou pela barra do Rio de Janeiro um navio proveniente de Lisboa.
Frei Cosme saiu do convento e voltou horas depois, trazendo um maço de cartas e de ofícios, e dando demonstrações de uma alegria e de uma animação que não deixaram mais o seu semblante.
Frei Cosme não cabalava mais como até então. Mas por que risonho?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.