Por José de Alencar (1875)
D. Firmina repetindo o que ouvira, lamentava a sorte do Abreu que sacrificara tão bonito futuro. Revestindo-se dessa moral severa, que em geral se cultiva para uso alheio e não para o próprio gasto, acusava o rapaz com excessivo rigor.
- A culpa não é dele, D. Firmina, observou Aurélia voltando de sua distração.
- De quem mais pode ser? perguntou a viúva.
- De quem o fez rico, não o tendo educado para a riqueza. O ouro desprende de si não sei que miasmas que produzem febre, e causam vertigens e delírios. É necessário ter um espírito muito forte, para resistir a essa infecção; ou então possuir algum santo afeto, que o preserve do veneno, sem o que sucumbe-se infalivelmente.
- Quer dizer que a riqueza é um mal, Aurélia?
- Não é um mal; muitas vezes torna-se um bem; mas em todo o caso é um perigo. Aqueles que se exercitam em jogar as armas, pensam que tudo se decide pela força. O mesmo acontece com o dinheiro. Quem o possui em abundância, persuade-se que tudo se compra.
Tinham acabado de jantar. Aurélia ergueu-se da mesa e entretinha-se em dar aos canários as migalhas de pão, que esfarelavam na palma da mão.
Entretanto Seixas acendera o charuto e seguia distraído pela rua que serpeando entre os tabuleiros de margaridas e os tapetes de relva, ia sumir-se em um bosque de palmeiras. O mancebo recordava-se das cenas da véspera, cotejava-as com as palavras que pouco antes haviam escapado a Aurélia, e buscava a explicação do enigma.
Interrompeu-o a voz da moça que achava-se a seu lado.
- Este passeio todas as tardes já deve aborrecê-lo. Porque não sai a cavalo? Deve distrair-se.
Aurélia falava brincando com as flores para evitar que seu olhar encontrasse o de Seixas.
- Sua companhia não me pode aborrecer nunca.
- Sempre, torna-se monótona.
- Demais é meu dever, tornou Seixas frisando a palavra.
Aurélia afastou-se; deu alguns passos, esteve reparando nas flores escarlates de uma trepadeira a que chama brincos de dama, e tendo-se firmado na resolução que a preocupava, tornou para o marido.
- Nossos destinos estão ligados para sempre. A morte recusou-me a felicidade que sonhei. Tive este capricho que nenhuma outra o possuiria, enquanto eu viva. Mas não pretendo condená-lo ao suplício desta existência, que vivemos há mais de um mês. Não o retenho; é livre; disponha de seu tempo como lhe aprouver; não tem que dar-me contas. A moça calou-se esperando uma resposta.
- A senhora deseja ficar só? perguntou Seixas. Ordene, que eu me retiro, agora como em qualquer outra ocasião.
- Não me compreendeu. Há um meio de aliviar-lhe o peso dessa cadeia que nos prende fatalmente e de poupar-lhe as constantes explosões de meu gênio excêntrico. É o divórcio que lhe ofereço.
- O divórcio? exclamou Seixas com vivacidade.
Pode tratar dele quando quiser, respondeu Aurélia com um tom firme e afastou-se.
IX
Seixas surpreso e agitado pela proposição da moça, refletiu por um momento.
O resultado dessa reflexão foi aproximar-se da mulher, ocupada nesse momento a ver os peixinhos vermelhos do tanque fervilharem à tona d'água para devorar os bocados de um jambo com que ela os tentava.
- Estes peixes agora a divertem, disse Fernando. Se amanhã a aborrecem, mandará
que os deitem fora, e que os deixem morrer à fome?
A moça ergueu para o marido os olhos cheios de surpresa.
- Talvez nunca lhe acontecesse refletir sobre este problema social, continuou Fernando. O senhor tem o direito de despedir o cativo, quando lhe aprouver?
- Creio que ninguém porá isso em dúvida, respondeu Aurélia.
- Então entende que depois de privar-se um homem de sua liberdade, de o rebaixar ante a própria consciência, de o haver transformado em um instrumento, é lícito, a pretexto de alforria, abandonar essa criatura a quem seqüestraram da sociedade? Eu penso o contrário.
- Mas que relação tem isso?...
- Toda. A senhora fez-me seu marido; desde que impôs-me esse destino sacrificou meu futuro, não tem o direito de negar-me o que paguei tão caro, pois paguei o preço de minha liberdade.
- Essa liberdade, eu a restituo.
- E pode restituir-me com ela o que perdi alienando-a?
- Receia talvez o escândalo que produzirá o divórcio. Não há necessidade de publicarmos nossa resolução; podemos viver inteiramente estranhos um ao outro na mesma cidade, e até na mesma casa. Se for preciso, temos o pretexto das viagens por moléstia, da mudança de clima, do passeio à Europa.
- A senhora fará o que for de sua vontade. A minha obrigação é obedecer-lhe, como seu servo, contanto que não lhe falte com o marido que a senhora comprou.
Aurélia fitou no semblante de Seixas um olhar soberano:
Acredita que eu possa mudar de sentimentos para com o senhor?
- Não tenha esse receio. Se eu não estivesse convencido que o amor entre nós é impossível, não estaria aqui neste momento.
Estranho sorriso iluminou a fronte de Aurélia, que vibrou com um gesto de sublime altivez.
- Qual é então o motivo por que não aceita o que lhe ofereço?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.