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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

O mancebo abriu a camisa, e mostrou ao boi o emblema que êle havia picado na pele, sôbre o seio esquerdo, por meio do processo bem conhecido da inoculação de uma matéria colorante na epiderme. O debuxo de Arnaldo fôra estresido com o suco do coipuna, que dá uma bela tinta escarlate, com que os índios outrora e atualmente os sertanejos tingem suas redes de algodão. 

Depois de ter assim falado ao animal, como a um homem que o entendesse, o sertanejo tomou o cabo de ferro que já estava em brasa, e marcou o Dourado sôbre a pá esquerda. 

— Agora, camarada, pertence a D. Flor, e portanto, quem o ofender tem de haver-se comigo, Arnaldo Louredo. Tem entendido?… Pode voltar aos seus pastos; quando eu quiser, sei onde achá-lo. Já lhe conheço o rasto. 

O Dourado dirigiu-se com o passo moroso para o mato; chegado à beira, voltou a cabeça para olhar o sertanejo, soltou um mugido saudoso e desapareceu. 

Arnaldo acreditou que o boi tinha-lhe dito um afetuoso adeus. 

E o narrador dêste conto sertanejo não se anima a afirmar que êle se iludisse em sua ingênua superstição. 

 

VI – Os bilros 

 

Quando Arnaldo correndo atrás do Dourado, respondeu com palavras de desprêzo ao desafio do Fragoso, êste já irado teve tal acesso de cólera que produziu-lhe uma vertigem. 

A impossibilidade de punir imediatamente a insolência do vaqueiro eu causa a essa congestão de ódio. Por momentos esteve sem acôrdo, como alucinado; mas recobrou-se breve. 

Se tivesse na mão uma arma de fogo qualquer, pistola ou clavina, com certeza a houvera disparado contra Arnaldo; mas privado como estava de qualquer meio de saciar a sua vingança, e vendo o sertanejo afastar-se cada vez mais na velocidade de sua carreira, êle descarregou a sua raivasôbre o cavalo. 

Ferido ao vivo pelos acicates, e ao mesmo tempo sofreado pela rédea, o árdego animal começou a corcovear, e foi aos trancos atirar-se em um atoleiro que a passagem constante do gado tinha cavado no meio de umas touceiras de carnaúbas. 

Já fatigado da carreira, alí ficou a patinhar na lama, o que ainda mais exasperou o cavaleiro. Saltando na ilha que formava uma das touceiras, o Fragoso apanhou os talos da palmeira e com êles esbordoou o animal. Êste, pungido pela dôr, conseguiu galgar o atoleiro e fugiu; a fúria do moço capitão voltou-se contra as plantas, e êle continuou a fustigar os cardos, os crauatás e os troncos da carnaúba. 

Quando parou de extenuado, as luvas de camurça de veado estavam dilaceradas, e as mãos finas e macias vertiam sangue. Então escoado por essa exerção física o primeiro ímpeto de cólera, a razão, se ainda não reassumiu o seu império, pôde sofrear a índole violenta. 

Concentrou-se e refletiu. 

Marcos Fragoso era de ânimo generoso, ornado de prendas de cavalheiro; mas tinha o gênio arrebatado e irascível. Além disso, a-pesar-do atrito da cidade e polimento da vida praceira que levava no Recife, era ainda sertanejo da gema; sertanejo por descendência, por nascimento e por criação. 

Os sertanejos ricos daquele tempo era todos de orgulho desmedido. Habitando um extenso país, de população muito escassa ainda, e composta na maior parte de moradores pobres ou de vagabundos de toda a casta, o estímulo da defesa e a importância de sua posição bastariam para gerar neles o instinto do mando, se já não o tivessem da natureza. 

Para segurança da propriedade e também da vida, tinham necessidade de submeter à sua influência essa plebe altanada ou aventureira que os cercava, e de manter no seio dela o respeito e até mesmo o temor. Assim constituiam-se pelo direito da fôrça uns senhores feudais, por ventura mais absolutos do que êsses outros de Europa, suscitados na média idade por causas idênticas. Traziam séquitos numerosos de valentões; e entretinham a sôldo bandos armados, que em certas ocasiões tomavam proporções de pequenos exércitos. 

Êstes barões sertanejos só nominalmente rendiam preito e homenagem ao rei de Portugal, seu senhor suserano, cuja autoridade não penetrava no interior senão pelo intermédio deles próprios. Quando a carta régia ou a provisão do governador levava-lhes títulos e patentes, êles a acatavam; mas se tratava-se de coisa que lhes fosse desagradável não passava de papel sujo. Não davam conta de suas ações senão a Deus; e essa mesma era uma conta de grão-capitão, como diz o anexim, por tal modo arranjada com o auxílio do capelão devidamente peitado, que a conciência do católico ficava sempre lograda. Exerciam soberanamente o direito de vida e de morte, jus vitæ et næcis, sôbre seus vassalos, os quais eram todos quantos podia abranger o seu braço forte na imensidade daquele sertão. Eram os únicos justiceiros em seus domínios, e procediam de plano, sumarissimamente, sem apêlo nem agravo, em qualquer das três ordens, a baixa, média, e a alta justiça. Não careciam para isso de tribunais, nem de ministros e juízes; sua vontade era ao mesmo tempo a lei e a sentença; bastava o executor. 

(continua...)

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