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#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Herdou o orgulho do pai! murmurou Estácio.

A frase foi dita em voz baixa, mas Helena ouviu-a, e seus olhos fulgiram de momentânea satisfação. Atribuir a orgulho o que era vergonha e remorso, dava-lhe certa superioridade que a moça julgava não ter naquele lance. Protestou em favor de seus sentimentos de gratidão, com a palavra viva, animada, cordial que todos três lhe conheciam, interrompida a intervalos pela comoção interior, e pelas lágrimas que lhe escorriam dos olhos, quase exaustos de chorar. Estácio pôs termo a todas as hesitações.

Pois bem, disse ele, será isso mais tarde; a lei é por nós; e nossa vontade é que nos obedeça.

Helena mordeu o lábio com desesperação, mas não respondeu. A cabeça descaiu-lhe lentamente como ao peso de uma idéia, a mais e mais opressora. Depois, ergueu-a; os olhos tristes, mas animados dos últimos raios de uma esperança, dirigiram-se para os de Estácio, que nessa ocasião pareciam falar as dores todas da paixão sufocada e rebelde. Ambos eles os baixaram à terra, medrosos de si mesmos.

Não creio que ela aceite facilmente a sua decisão, disse Melchior a Estácio, logo que pôde achar-se só com ele. Acautele-se; é capaz de fugir-nos.

Crê?

Não a conhece ainda? A posição em que estes acontecimentos a deixaram, repugna-lhe mais que tudo. Prefere a miséria à vergonha, e a idéia de que interiormente não a absolvemos, é o verme que lhe fica no coração.

De noite, recebeu Estácio uma carta de Salvador, acompanhada de um pacote.

“Refleti muito durante estas duas horas, dizia ele, e cheguei a uma conclusão única. Elimino-me. É o meio de conservar a Helena a consideração e o futuro que lhe não posso dar. Quando esta carta lhe chegar às mãos, terei desaparecido para sempre. Não me procure, que é inútil. Irei abençoá-lo de longe. Recaia, entretanto, sobre mim todo o ressentimento; eu só o mereço, porque só eu o provoquei. Vão as cartas de Helena; guardo três apenas, como recordação da felicidade que perdi.”

Estácio teve vontade de ler as cartas de Helena, mas a tempo recuou; mandou-as dar à moça. Helena, que estava com D. Úrsula, entregou-as a esta.

São a minha história, disse ela; peço-lhe que as leia e me julgue.

Havia em seus olhos uma expressão que não era usual. Recolheu-se imediatamente a seu quarto, onde jazeu longo tempo, calada, quieta, sinistra, o corpo atirado em um sofá, a alma sabe Deus em que regiões de infinito desespero.

CAPÍTULO XXVIII

Naquela noite, a segunda de tão extraordinários sucessos, foi que Estácio sentiu toda a violência do amor que lhe inspirara Helena. Enquanto os detinha um vínculo sagrado, amara sem consciência; e ainda depois de esclarecido pelo padre, o esforço empregado em vencer-se e a própria natureza da catástrofe não lhe permitiram ver a extensão do mal. Agora, sim; roto o vínculo, restituída a verdade, ele conhecia que a voz da natureza, mais sincera e forte que as combinações sociais, os chamava um para o outro, e que a mulher destinada a amá-lo e ser amada era justamente a única que as leis sociais lhe vedavam possuir.

Durante as primeiras horas o coração mordeu rebelde o freio da necessidade. A vigília foi longa e crua; e a reflexão veio enfim dominar a tempestade interior, ou antes alumiar seus destroços. Ele viu que o padre tinha razão; que era força desfolhar a esperança de um dia. Ao mesmo tempo, o exemplo de Helena deu-lhe ânimo. Senhora do segredo de seu nascimento, e consciente de amar sem crime, a moça apressara, não obstante, o casamento de Estácio e escolhera para si um noivo estimado apenas. Se uma vez a palavra delatora lhe rompeu dos lábios, ela a retraiu logo, fazendo o mais obscuro dos sacrifícios.

Não quis Estácio ser menos generoso. Logo de manhã escreveu a Mendonça, pedindo- lhe que não deixasse de os ir visitar nesse dia. Não o fez sem custo, mas fê-lo sem arrependimento. Tinha por fim apressar o casamento de Helena e o seu, condenando-se a sofrer calado os golpes do avesso destino.

(continua...)

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