Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Que importa?! pois não é um sacrilégio igualar o sentimento da terra com um sentimento que foi digno de Deus?! oh!... pois não é uma ingratidão inqualificável amar a uma mulher a quem nada devemos, que muitas vezes nos não paga o nosso amor, que outras vezes é mesmo indigna de ser amada, e amá-la tanto quanto amamos aquela que padeceu por nós horríveis transes, aquela cujo sangue é o nosso sangue?! é sacrilégio, senhora, e é ingratidão. Eu fui sacrílego e ingrato!
– Cândido!...
– Esqueci tudo por uma criança de dezesseis anos, que ao romper de uma aurora descobri por entre as flores daquele jardim. O momento que bastou para vê-la começou a pesar em meu coração tanto quanto até então tinha pesado minha mãe. Esqueci minha pobreza, não me lembrei que aí por esse mundo um pobre é um ente à parte, que não deve comer à mesa com os ricos, que não deve amar a quem tem mais do que ele... esqueci tudo... de minha mãe, comecei a lembrar-me menos; no altar da minha alma coloquei duas santas... e quando orava, já não orava só por minha mãe!... fiz mais: deixei o silêncio de meu quarto, fui tomar parte nas festas de gente que não era pobre como eu; riram-se talvez de mim, mil vezes em cada noite!... eu diverti-os, cantei, para que me tolerassem ali... curvei-me... abaixei-me...
e nem assim me toleraram.
– Cândido!...
– A culpa foi também vossa, exclamou Cândido; quem vos inspirou o fatal pensamento de ir patentear o estado do meu coração àquela criança?... porque viestes tirar daqui os versos que eu escrevia em minha loucura?... oh!... eis aqui a vossa e minha obra!... tiveram piedade de mim: despediram-me, e não me mandaram correr pelos escravos, oh! foram piedosos! respeitaram a linha com que, em seus tratos e modos, distinguem um pobre de um cão!...
– Cândido!... é possível o que estais dizendo?...
– Pensais que eu me lastimo! ...continuou o mancebo; pois já não confessei que era um castigo? julgais que me resta algum ressentimento?... não: é um remorso o que me resta!
– Oh! não é isso, exclamou Irias; não é isso o que te quero perguntar; o que eu desejo é saber se tu zombas, se estais em ti, se não inventas?...
O mancebo riu com um rir terrível.
– Eles despediram-te?...
– Como a um pobre se despede.
– Eles?... ela?!
– Por que vos admirais?...
– Ela te ama.
Cândido tornou a rir mais terrivelmente ainda do que há pouco.
– Ela te ama! repetiu com acento de profunda convicção a velha Irias.
– Não! bradou o moço; não, e não! se é uma consolação que pretendeis derramar na minha alma, minha alma rejeita uma consolação em que não pode acreditar.
– É uma verdade, o que eu digo... uma verdade que o futuro te há de demonstrar.
– Então vós vos enganais, senhora; estais ainda menos adiantada que eu no conhecimento deste mundo, onde tendes vivido três vezes mais do que o desgraçado que adotastes.
A velha fez com a cabeça um movimento de impaciência, e ia falar.
– O que é, continuou Cândido sem querer ouvir Irias, o que é que vos prova o amor dessa moça?... quê?... não ordenar que me lançassem fora de sua casa no momento mesmo em que tivestes a imprudência de lhe declarar o meu amor?... sofrer que eu para ela algumas vezes olhasse, e algumas vezes também ter olhado para mim?... engano e ilusão, senhora!... essa mulher é como as outras. A mulher se apraz de merecer o amor, a admiração da criança, do moço e do velho; todos eles incensam o amor-próprio, a vaidade mesmo, que é a corda mais vibrante do coração da mulher! amai-me! admirai-me! diz ela; porém pagar esse sentimento que querem inspirar com outro sentimento igual, é mui diverso do que isso. Quem confunde amor com vaidade dirá também, como vós dizeis, que eu fui amado pela neta de Anacleto.
– Então esse amor entra porventura na ordem dos impossíveis?.
– Dos impossíveis absolutos não; porém no pé em que se acha a sociedade, entra na ordem dos impossíveis morais.
– Como?... meu querido Cândido, que te falta para ser amado?...
– Falta-me aquilo que é hoje no mundo a primeira das virtudes; a virtude que encanta homens e mulheres; que abre-nos a porta dos empregos e das honras; que abre-nos corações ao amor... falta-me a virtude a quem se está rendendo um culto idólatra; falta-me a riqueza.
– Oh!...
– Pois então?... aquela mulher não tem olhos para ver que eu sou pobre, e vendo-o, não tem inteligência para compreender que amar um pobre é uma loucura?... ela fez o que devia.
– Desvairas...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.