Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Tinham-se passado apenas breves minutos depois da fatal catástrofe!
Com efeito, Honorina tinha sido arrancada do seio das ondas.
O velho pescador apenas ouviu o grito de Hugo, atirou-se na água; desgraçadamente esteve a ponto de sucumbir, pois que um dos batéis foi em seu tempestuoso jogo de encontro a ele, no instante mesmo em que acabava de cair no mar.
Depois...
É, enfim, e de uma vez para sempre, necessário convir que o dedo de Deus guia continuadamente o homem na prática das boas ações.
O velho mergulhou... e a Providência Divina fez com que sua mão tocasse o corpo de uma mulher; então ele nadou para terra com o seu precioso fardo.
Honorina devia a vida a esse homem, e também à sua própria organização.
O mesmo fenômeno, que sem ter por muitas vezes observado em idênticas circunstâncias, naqueles em quem predomina o sistema nervoso, sucedeu à moça: no momento da submersão, foi presa de uma síncope, e caiu no fundo do mar.
Houve então um homem eminentemente bravo que soube, arriscando a própria vida, salvar a filha de Hugo de Mendonça.
Quando o velho pescador surgiu no meio das vagas, trazendo a moça em seus braços, os espectadores levantaram seu brado de alegria e correram a prestar à cena a luz de velas e fachos, de que já se tinham munido.
Depondo o corpo da jovem na areia, o velho curvou-se, como para observar seu semblante, e, erguendo logo depois as mãos para o céu, com indizível expressão de ventura, exclamou:
— Era ela!
Palavras cheias de nobreza, de generosidade e grandeza de alma; porque provavam que esse homem se arrojara ao mar para salvar uma vítima qualquer... uma vítima que ele não sabia quem era.
— Vive!... vive!... ela ainda vive!... bradava o pescador, sentindo que Honorina começava a reanimar-se.
— Mas o senhor feriu-se?... perguntou um dos espectadores.
— Eu?... ferido... que importa?... respondeu o velho.
E pela primeira vez lembrando-se de si, ele viu seus vestidos cobertos de sangue, que abundantemente lhe corria da cabeça.
Nesse momento os três batéis chegaram à praia.
Mas, ao senti-los arrastar o bojo pela areia, o velho afastou com força os espectadores que o cercavam, abriu passagem por entre eles, e, correndo, desapareceu.
— Salva!... exclamou Hugo caindo sobre sua filha.
— E quem a salvou?... quem a salvou?...
— Um velho...
— O velho pescador...
— Qual velho! disse um dos espectadores, ele não era velho.
— Oh! acudiu Otávio; eu o observei de bem perto: tinha os cabelos completamente brancos.
— Ei-los ali!... era uma cabeleira!...
E todos viram sobre a praia uma cabeleira branca coberta de sangue.
— E, portanto, pensou Raquel, era ainda ele!...
XX
Honorina
Era meia-noite.
A tempestade tinha passado: o tempo se havia tornado chão, a atmosfera fresca e leve.
Honorina dormia.
O médico chamado para prestar seus cuidados à jovem senhora, conseguira facilmente fazer desaparecer a síncope, que a salvara no momento da submersão, e que ainda durava algum tempo depois; segundo ele, Honorina não corre perigo algum.
A câmara de Honorina está fracamente iluminada; três pessoas velam junto de seu leito. Ema reza piedosamente defronte da querida neta; Raquel, à cabeceira de sua amiga, tem uma das mãos dela entre as suas; Lúcia suspira sentada aos pés da filha de seu leite; Raquel e Lúcia mostram-se mais agitadas e aflitas do que já pedia o caso.
E Honorina dorme: vestida com um ligeiro roupão branco, com seus belos e longos cabelos, ainda molhados, espargidos pela almofada, com seu rosto meigo e formoso, então ainda mais pálido, com suas pálpebras cerradas, ocultando seus grandes e brilhantes olhos, estava encantadora e poética; e o sono da virgem semelhava o dormir de um anjo; porque suavíssimo era ele, e quase imperceptível a respiração que pelos lábios da moça saía. Tão bela, tão pálida, tão imóvel, alguém poderia crê-la estátua de puro mármore, exposta como triunfo de mestre.
Por algum tempo reinou na câmara profundo silêncio, apenas de momento a momento interrompido pelo baque das contas do rosário, em que a religiosa velha marcava suas orações; e às vezes levantava-se alguma das três pessoas, que aí velavam, e ia pé por pé até junto da moça para, chegando o rosto perto dos lábios dela, receber a impressão de seu respirar de pomba.
Depois de algum tempo ainda de não quebrado silêncio, Lúcia, cujo desassossego não diminuía, apesar do lisonjeiro estado de Honorina, murmurou baixinho:
— Mas ele... ele... o salvador de nossa querida menina!...
— Hugo foi dar todas as providências, disse Ema no mesmo tom, e é de crer que o possamos abraçar e recompensar...
— Recompensar?! tornou Lúcia, o homem, que assim se expôs à morte, tem por força um coração muito elevado para que chegue até a ele a idéia de uma recompensa.
— E isso não nos dispensa do dever da gratidão.
— De uma outra gratidão, senhora.
— Tu estás de mau humor, mãe Lúcia.
— Perdão, senhora; mas aquele homem... ferir-se...
— Aquele homem é um herói da têmpera de nossos avós... nos dias de hoje não se encontram dois homens como ele.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.