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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

E Sales Torres Homem contou a Monge o que com ele se passara em 1832, como depois o referiu a diversos amigos seus, entre os quais se contou quem hoje escreve estas linhas.

É o que se segue:

Sales Torres Homem acabava de formar-se na Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, e até então sentira absoluta negação para a política, e preparava-se para entrar em concurso a uma das cadeiras da nova escola de Medicina (1832), quando soube que o tinham feito membro da Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional (sociedade política representante do partido liberal moderado que era o dominante) eleito para o conselho diretor e membro da comissão redatora da imprensa da sociedade.

(O fato explica-se: Evaristo Ferreira da Veiga empenhava-se em recrutar para o partido de que era chefe os jovens mais notáveis pela inteligência).

Sales revoltou-se contra aquela espécie de violência, mas passou a noite em claro aguilhoado pela sua vaidade a pensar que se rejeitasse, como a principio resolvera, aquelas nomeações, talvez julgassem que a rejeição era determinada por ele se reconhecer incapaz de escrever artigos sobre assuntos políticos.

Na manhã seguinte deixou o leito com a firme resolução de ir à sociedade, de escrever dois ou três artigos e depois dar demissão de redator, de conselheiro e de sócio, para ocupar-se só do seu concurso.

Mas Sales era (dizia ele) da mais completa ignorância em política.

Que faz então?

Pobre a não poder distrair alguns mil réis das magras despesas diárias, Sales toma metade dos seus livros de Medicina, leva-os a um livreiro da Rua dos Latoeiros, onde ele também morava, e pede-lhe que os receba e que lhe dê em troca algumas obras de Ciência Política.

- Mas que obras prefere? perguntou-lhe o livreiro que era seu freguês.

- Eu sei lá!... respondeu-lhe Sales; dê-me aquelas que são mais procuradas pelos deputados e homens políticos.

O livreiro sorriu-se, deu a Sales o Curso de Política Constitucional de Benjamin Constant e a História da Revolução Francesa, de Thiers.

Sales pôs-se a ler com ardor, e no fim de uma semana escreveu e mandou para a imprensa o seu primeiro artigo político que devia ser publicado no dia seguinte.

O novo publicista quase logo arrependido do que fizera, medroso do fiasco que se lhe afigurava certíssimo, encerrou-se em casa até dois dias depois, em que um amigo lhe apareceu entusiasmado, trazendo-lhe a Aurora Fluminense.

Na sua Aurora, Evaristo Ferreira da Veiga saudava a revelação da mais bela inteligência naquele artigo, em que um jovem escritor se estreara com um triunfo de eloquência e com evidente prova de sérios estudos.

Evaristo, o grande patriota, chefe do partido moderado, era por seu ilustrado talento, pelas suas virtudes e pelo seu exemplar desinteresse o entusiasmador da mocidade.

A apreciação do artigo publicado na Aurora por Evaristo decidiu o destino de Sales Torres Homem, que arrebatado pela vaidade (dizia ele) abandonou a idéia do concurso e a profissão da medicina que pretendia seguir, e dedicou-se todo à imprensa política, e a princípio com a exclusiva lição do Curso de Política Constitucional de Benjamin Constante da História da Revolução Francesa, de Thiers.

Eu creio que nesta revelação da origem do seu pronunciamento, e da sua entrada na vida política Sales exagerava muito, tanto a própria negação a envolver-se nas lutas dos partidos em 1832, Gomo a inverossímil e absoluta ignorância da Ciência Política e tal e tão profunda, que ele nem tinha idéia daquelas duas obras que o livreiro lhe deu; mas é positivo que esse ilustradíssimo varão contava assim a história do quase recrutamento forçado que o levou a jurar bandeira no partido liberal, e a tornar-se homem político.

O livreiro Mongie, que antes de todos merecera receber esta curiosa informação, e que na cidade do Rio de Janeiro de tanta estima foi objeto, nela faleceu depois de poucos anos de florescimento, deixando-lhe lembrança de honrado nome, e parentes que se enraizaram no

Brasil.

Anexo II

Uma loja de cabeleireiro florescia há mais de dezoito anos no n.º 110, entre as ruas dos Ourives e dos Latoeiros, tendo então por emblema a Cabeça de Ouro.

Vendiam-se ali tranças crescentes e faziam-se penteados, mas certamente a loja não era célebre. De súbito mais ou menos todos, e as senhoras principalmente, sem exceção, estavam diante da vidraça da Cabeça de Ouro, e ali se deixavam em contemplação.

E havia justificada razão para isso numa trança de cabelos exposta na vidraça.

A trança era muito vasta, de cabelos finos e de cor castanha, quase pretos, de formosa nuance, e tão longa se estendia, que se mostrava em três lanços ou voltas na vidraça.

Eram cabelos de comprimento extraordinário e de beleza notável; mediam nada menos que dois e meio metros, fora o que deles ficara ornando ainda a cabeça da senhora que, sem dúvida, a seu pesar se privara de tesouro tão singular; deviam, pois, ter sido na cabeça de sua dona cabelos de doze a treze palmos de comprido.

(continua...)

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