Por Inglês de Sousa (1891)
Passados os primeiros assomos de indignação e o abalo da surpresa, o sacristão a custo continha 'a alegria, apesar da perda da roupa e de um belo chicote de tabaco de Irituia, furtado pelos camaradas. O João e o Pedro teriam sido perfeitos e mereceriam todos os aplausos se tivessem esquecido à beira da água a roupa e o tabaco. Mas, em todo o caso, que valia um tal prejuízo em comparação com o malogro da insensata tentativa do senhor vigário? Logo que voltasse a Silves iria ao tenente Valadão, queixar-se do furto, e obteria a reparação do agravo, apesar da moleza habitual do subdelegado. Macário era esperto e havia de descobrir o paradeiro dos ladrões, ainda que tivesse de recorrer à Chica da Beira do Lago para fazer a sorte do balaio. Descobriria tudo porque os maués eram uns pacovas sem habilidade alguma, capazes de ir oferecer a igarité ao próprio Valadão. Então Macário vestiria a sua roupa e fumaria o seu tabaquinho cheiroso do Tapajós muito a salvo dos tais mundurucus, gente da sua especial ojeriza, se gente se podia chamar. Isto de missões e catequeses não fora feito para um homem pacato e temente a Deus, que nada mais queria do que levar a sua vida descansada. Metera-se a acompanhar a V. Rev.ma naquela inaudita excursão pastoral, pelo receio de perder com a recusa o emprego rendoso e cômodo. Mas desde que a Providência arranjara tudo do melhor modo, com um macavelismo invejável, salvando o amor-próprio do padre e livrando o sacristão de ser comido por selvagens, o que na verdade era pior do que perder dois ternos de riscadinho e um chicote de tabaco, Macário devia, como bom cristão, curvar-se ao decreto divino e resignar-se à modesta ventura de não vir a figurar no calendário romano. Não devia imitar o desespero de padre Antônio de Morais, que cismava encostado a uma árvore do porto, com o olhar embebido na superfície do lago, procurando ali a solução de um problema insolúvel. Para Macário estava claro. Não havia outra solução senão voltar para Silves. Para cortejar a dor do senhor vigário, como moço bem-criado, mostrou-se contrariado com o resultado daquela infeliz viagem. Tomou um ar de resignado desgosto e um tom de irremediável pesar:
— Então, senhor padre vigário, não há remédio senão voltar para a vila?
— Não, nunca! exclamou padre Antônio, como se acabasse de tomar uma resolução enérgica.
E vendo o efeito da negativa no rosto de Macário, desculpou-se:
— E como voltar sem canoa?
— E como continuar a viagem sem canoa? perguntou o sacristão meio desanimado.
— Deus Nosso Senhor providenciará, sentenciou padre Antônio, com muita confiança.
E acrescentou falando muito tempo e desabafando a contrariedade sofrida no incidente, que estava resolvido àquela história de catequese, e a levaria a efeito, custasse o que custasse. Não perderia cinco dias de viagem. Que diriam na vila se o vissem voltar da foz do Canumã sem ter avistado um só mundurucu? Pensariam que inventara a história da fuga dos canoeiros e o cachorro do Chico Fidêncio divertir-seia com o episódio no Democrata de Manaus, fazendo-o passar por um charlatão religioso. Não era homem que prometesse fazer uma coisa e a não fizesse, principalmente tratando-se de coisa tão santa como a conversão de selvagens ao cristianismo e à civilização, a ponto de o senhor bispo pretender ocupar-se dela muito a sério. S. Ex.a Rev.ma imaginara a construção de um navio-igreja, que se chamaria Cristóforo, isto é, o que leva a Cristo, e navegaria todos os grandes afluentes do Amazonas, evangelizando os povos. Era uma idéia grandiosa, digna do cérebro do ilustre prelado paraense, e, levada à prática, prestaria os maiores serviços à civilização daquelas paragens. Infelizmente a construção demandava muito dinheiro; era preciso fazer um grande barco a vapor, apropriado às solenidades imponentes do culto católico, com o luxo que o senhor bispo gostava de desenvolver nas cerimônias cultuais para exaltar a imaginação dos crentes e agradar aos indiferentes de bom gosto que o lado estético da cerimônia atrai e concilia. Enquanto o fervor religioso, invocado pelo senhor bispo, não vinha derramar na Caixa Pia as quantias necessárias à construção do Cristóforo, forçoso era que os missionários isolados, para não deixar interrompida a obra de catequese, se aventurassem pelos sertões ínvios do Amazonas com o meio de locomoção que as circunstâncias lhes deparassem, pois quanto maior fosse o sacrifício mais meritório seria e mais digno da consideração de Deus.
— Demais, concluiu, gesticulando animosamente, para voltar a Silves é preciso uma canoa, e desde que eu a tenha à minha disposição, nenhuma razão me impedirá de prosseguir na viagem.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.