Por Domingos Olímpio (1903)
— Deixa-me – disse a velha, arfando de fadiga e afastando a filha que pretendia ajudá-la. – Deixa-me andar sozinha para experimentar as minhas forças. Se me acostumo a estar sentada e a andar pelas mãos dos outros, fico mesmo enferrujada de todo... Ah! Se Nossa Senhora me tirasse esta canseira, podia eu dizer que estava sarada... Isto vai devagarinho... Moléstia é como preaca de frecha: entra no corpo de repente, e custa a sair.
— Tenho fé – disse Luzia, mais calma e com meiguice, abrindo a rede para que ela se sentasse – isto vai passar.
Quem a viu e quem a vê, nota logo grande melhora.
— Tenho esperança de rolar mais alguns dias por este mundo, e só peço a Deus que me não faça sofrer, quando chegar a minha hora. Bem sei que não hei de ficar para semente... Tu, que és o meu sangue, tomarás o meu lugar, sendo o que eu fui, uma mulher de bem, trabalhadeira e temente a Deus.
— Não fale nisso.
— Como não fala!, se não me sai da cabeça o pensamento de morrer, deixando-te sozinha, sem encosto, sem proteção.
— Quando tal acontecesse, quando Deus me castigasse com essa desgraça, eu teria coragem para suportá-la. O trabalho não mete medo a Luzia-Homem.
— Bate na boca, filha. Luzia, mulher e bem mulher, fraca como as outras, é o que tu és.
Ela sentia a verdade das palavras da mãe. A ansiedade, as dúvidas, as suspeitas cruéis em tumulto absurdo e monstruoso comprovavam a sua debilidade de mulher amorosa. Compreendia, então, a perversidade de Gabrina, vingando-se de Alexandre por meio da declaração falsa; compreendia por que havia mulheres criminosas, que se rebaixavam satisfeitas, que se depravavam despudoradas, arrojadas, por impulsos de paixão irresistível, fora da senda do dever, olvidando honra, família e o decoro, que é o esmalte das almas boas para tombarem, desfigurados o corpo e a alma, até à lama do enxurro humano, como nojentos dejetos do vicio.
Havia, entre essas míseras, culpadas por depravação moral, desviadas pela educação, contaminadas pelo contágio do exemplo. A maioria, porém, era de inconscientes, sem imputação, dignas de perdão como pensava ela, que não podia expungir do coração os maus instintos, que o dominavam e ali grelavam, como ervas daninhas, à sombra propícia da suspeita e do despeito. E Luzia que padecera pela prisão do homem amado, que sentira nas próprias carnes o estigma com que o pretendiam marcar, que seria capaz de fazer por ele o extremo sacrifício da própria vida, seria capaz de estrangulá-lo, de arrancar-lhe as entranhas, de cevar-se no seu sangue, à simples idéia de vê-lo nos braços de outra mulher.
— Eu morreria descansada – disse a mãe, suspirando – se te deixasse casada com Alexandre, que seria incapaz de te dar má vida.
— Casada! – retrucou a filha, arrancada, de súbito, às tristes idéias. – Quem quererá se casar comigo?...
— Não digas semelhante coisa, tamanhas asneiras... A mim, me palpita o coração que amanhã terás vergonha dessas suspeitas, porque Alexandre virá e tudo passará, como se nada houvesse acontecido. Tu, então, arrependida, reconhecerás que, quando moça está influída para casar, não tem o juízo assente; vê tudo pelo avesso, de pernas para o ar, e fica mouca aos conselhos. No meu tempo, as raparigas não pensavam nisso; quando davam fé estavam na igreja com o moço escolhido pelos pais. Hoje, está tudo mudado... Meninas. que ainda cheiram a cueiros, já têm opinião e caprichos como qualquer mulher feita. Deus louvado, sempre foste muito bem procedida e obediente. Veio-te, agora, essa influência de querer bem... Já não veio sem tempo... já tardava e não tem nada de mal; mas, é preciso ter juízo para não desmanchar o que esta tão bem principiado. Vê bem o que te digo; deixa-te de histórias e teimas. Se procurares com uma candeia, não encontrarás outro tão do meu gosto.
— E se ele não me falar mais em casamento?
— Paciência! É porque não tinha de ser.
— E eu?...
— Tu!... Pois não és mulher forte, capaz de viver sozinha, sem ser pesada a ninguém, trabalhando para comer?... Não és Luzia-Homem?...
— Eu não sou nada – murmurou Luzia, abraçando a mãe e escondendo-a quase na onda de cabelos revoltos. – Sou uma infeliz, que está sendo castigada, sou uma doida, que não sabe o que faz... Perdoe-me, mãezinha da minha alma...
— Ai que me tiras o fôlego – gemeu a velha, sufocada pela veemente carícia da filha. – Não reparas que só tenho de gente a figura com a pele sobre os ossos? Deixa estar que tudo há de sair bem, se Deus não mandar o contrário... Dá-me outra colher de remédio. Quero ver se pego no sono. Fecha a porta e vem dormir.
— E Teresinha?
— Deixa estar que ela não se perde. Sabe de olhos fechados o caminho da casa.
— Tem razão, mãezinha. O melhor é esperar sossegada o que tem de acontecer.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.