Por Aluísio Azevedo (1881)
Veio logo um preto velho, a quem ele se dirigiu para dar as ordens em voz baixa.
A noite, ao contrário do dia, fizera-se fresca. Depois da cela, cada um se estendeu na sua rede, preguiçosamente. Raimundo queixava-se de pragas e maruins; Manuel meditava os seus negócios, toscanejando, e o portuguesinho não dava tréguas à língua: falava daquelas tenras com um entusiasmo progressivo; contava maravilhas agrícolas; mostrava-se fanático pelo Rosário. E, no empenho da conversa, arrastado, chegava a mentir, exagerando tudo o que descrevia.
Raimundo interrompeu-o, para saber se ele conhecia a antiga fazenda São Brás.
— São Brás!...
E o homenzinho levantou-se da rede com um espanto.
— São Brás! Se conheço! E por aqui V.Sª não encontra quem não saiba a história dela!...
O outro ardia de curiosidade.
— Tenha então a bondade de contar-ma, pediu, assentando-se. Como vou andar por essas bandas...
Manuel adormeceu.
— Pois V.Sª não sabe a história de São Brás?... Valha-o Deus, meu caro senhor, que podia cair em algum malfarrico; mas eu vou ensinar-lhe a reza que aprendemos com o nosso santo vigário. Olhe! quando V.Sª topar uma cruz na estrada, apeie e reze, e ao depois siga o seu caminho por diante, repetindo sempre:
“Por São Brás!
Por São Jesus!
Passo aqui,
Sem levar cruz”
Até avistar as mangueiras do Barroso: daí à riba pode seguir descansado, que lá não chega chamusco!
— Mas por que toma a gente tais precauções?
— Ora ai está onde a porca torce o rabo! E por causa do diabo de uma alma danada, que empesta essas garagens... Eu conto a V.Sª!
E o homenzinho, engolindo em seco, contou prolixamente que São Brás, ou Ponta do Fogo, como dantes lhe chamavam, fora noutro tempo lugar de terras boas e férteis, onde se podia plantar e colher muito, que abençoadas eram elas pelas mãos de Deus. Mas, que uma vez aparecera por lá o célebre assassino Bernardo, terror do Rosário e sobressalto dos fazendeiros, e, depois de uma vida errante pelo sertão, roubando e matando, meteu-se na Ponta do Fogo e ai estourou. E desde então nesse desgraçado lugar nunca mais vingara fruto que não tivesse ressaibo de veneno, nem medrara planta sem mitinza; as águas deixavam cinza na boca, a terra, se a gente a colhia na mão, virava-se em salitre, e as flores fediam a enxofre; mas, quem comesse desses frutos, se deitasse nesse chão, se banhasse nessas águas e cheirasse aquelas flores, ficava por tal modo enfeitiçado, que não havia meio de arrancá-lo dali, porque o diabo tinha untado o fruto de mel, e perfumado as flores e amaciado a relva, para engodar o caminheiro incauto.
— Foi isso, continuou o que sucedeu ao pobre José do Eito, quando se meteu por cá - enfeitiçou-se! Eu era muito novo nesse tempo, mas bem me lembro de o ter visto tantas vezes, coitado! todo amarelo, morrinhento e resmungão, que logo se adivinhava que o diabo lhe pregara alguma! E sempre andou assim!... um dia morreu-lhe a mulher de repente, e ele pouco depois foi varado por um tiro, que nunca mais ninguém soube donde veio. Daí em diante São Brás ficou tapera. No lugar em que morreu o José levantou-se Uma cruz, e todos os que passam por lá rezam por alma do desventurado, até encher certa conta de orações, com que ela possa descansar!... Enquanto isso não chega, vaga pela tapera a pobre alma penada, de dia que nem um pássaro negro, enorme, que canta a finados, e de noite vira-se numa feiticeira, que dança e canta, rindo como as raposas. Quando algum imprudente atravessa perto, a feiticeira o persegue de tal feitio, que o infeliz, se não estiver montado, ela o pilha com certeza!
— E se o pilha?
— Se o pilha?... Ah, nem falar nisso é bom! Se o pilha, vira-se logo toda em ossos e cai-lhe em riba, com tal fúria de pancadas, que o deixa morto!
— E depois?
— Depois, volta a alma para penitência, tendo perdido, por cada pancada que deu, vinte coroas de padre-nossos. Quando V.Sª for amanhã é bom levar na sela do seu cavalo um galhinho de arruda, e ao depois de rezar à cruz, vá sacudindo sempre até as mangueiras do Cancela, sem nunca parar com a reza que lhe ensinei!
— Sim, sim, mas diga-me uma coisa: esse José do Eito não se chamava José Pedro da Silva?
— Justo! V.Sª o conheceu?
— De nome.
— Pois eu conheci, perfeitamente.
E, a pedido de Raimundo, o portuguesinho descreveu o tipo José, e contou o que sabia da vida dele. O rapaz escutava tudo com um interesse religioso; não queria perder uma só daquelas palavras; mas tinha, muitas vezes, que interromper o narrador, para lhe fazer perguntas, a que o outro respondia em parêntesis rápidos.
— Pois a D. Quitéria Santiago morreu pouco antes do marido; eu fui vê-la! e olhe V.Sª que, de bonitona que era, ficou horrível. Estava mais roxa que Uma berinjela!
— Não tinha filhos?
— Nunca os teve.
— Nem o marido?... Sim... este podia ter algum filho natural...
— Não, que eu saiba, não tinha.
— Nem consta de alguma parenta, que vivesse na fazenda em companhia do José?...
— Sei cá, mas...
— Alguma irmã de D. Quitéria, ou talvez alguma amiga, hein? Veja se lembra...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.