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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

No fim de algum tempo o Dr. Roberto tinha por ele a afeição que se pode ter por um filho adotivo. O comendador Ferreira, a quem Gregório freqüentava com mais assiduidade depois que se restabeleceu, fora também pouco a pouco se penetrando do mesmo sentimento pelo rapaz e acabou por não poder dispensar a companhia dele.

Só faltava Olímpia, mas a respeito desta não devemos adiantar idéia, sem primeiro voltarmos ao ponto em que a deixamos à saída do espetáculo. Todavia, para fazer justiça a Gregório, convém declarar que este, ao saber com certeza da posição da sua bem-amada, e logo que reconheceu a afeição com que o comendador o acolhia, se sentiu envergonhado e tratou de retrair os impulsos que o impeliam para Olímpia. Foi o pior. É muito perigoso contrariar uma mulher nas circunstâncias daquela. Mas deixemos por enquanto tudo isso de parte e vamos colher a caprichosa filha do comendador na ocasião em que ela entra no carro que a esperava à porta do circo Chiarini.

O pai havia já por duas vezes lhe dirigido a palavra, perguntando-lhe o que a fazia preocupada e triste. Olímpia respondera sacudindo os ombros, e durante o caminho não articulou palavra.

Mal, porém chegou ao seu quarto, atirou-se sobre o divã e abriu a chorar com desespero.

A nova casa que eles foram habitar na Tijuca era um pequeno e elegante chalé pintado de azul, com guarnições de mármore branco. Havia no jardim um belo renque de palmeiras, que ia desde o portão de ferro até à varanda da sala de visitas.

Olímpia quase nunca se mostrava agora, comprazia-se em ficar no quarto, entretida com algum romance ou a bordar à luz da janela. Saía às vezes à noite com o pai, para ir ao circo Chiarini, mas isso mesmo já principiava a enfará-la. Gregório ia aos domingos jantar com eles; a senhora o tratava com frieza, e muitas vezes nem vinha à sala. O Dr. Roberto teve de fazer uma viagem ao norte e partira, deixando a roda do comendador mais reduzida e mais fria. Olímpia piorava.

Uma vez estavam no circo, ela, o comendador e Gregório. Olímpia não dava uma palavra; tinha os olhos presos em Scott. O acrobata fazia nessa ocasião o seu melhor e mais arriscado trabalho.

Era a sorte dos vôos. Tomava um trapézio, deixava-se arrebatar por ele, depois soltava as mãos, dava uma cambalhota no ar e ia agarrar-se afinal a um outro trapézio que o esperava do lado oposto.

A cada um desses saltos seguia-se uma explosão de palmas.

Scott havia já por duas vezes feito o seu vôo arriscado, faltava-lhe só o último e o mais difícil. Consistia este no mesmo que os primeiros, com a diferença de que o acrobata, em vez de se arrojar de frente, tinha de atirar-se de costas e voltarse no espaço para alcançar o trapézio fronteiro.

Scott assomara no trampolim armado além das torrinhas, ao pé do teto. Havia uma grande silêncio comovido nos espectadores, os corações batiam com sobressalto. Todos os olhos estavam cravados na esbelta figura do acrobata, que, lá do alto, nas suas roupas justas de meia, parecia uma bela estátua de mármore.

Destacava-se-lhe bem o peito largo e abaulado, via-se-lhe a riqueza dos braços e a nervosa musculatura das coxas.

Scott tomou o trapézio com uma das mãos, enquanto limpava com a outra o suor da testa; depois colocou o lenço à cintura, esfregou pez nas palmas das mãos e agarrou-se ao braço do trapézio. Ouvia-se a respiração ofegante do público. Scott sacudiu o corpo, experimentou o trapézio e deixou-se arrebatar por este, de costas. Em meio do círculo desprendeu-se, gritou. "Hop!", deu uma volta no ar, e lançou-se de braços estendidos para o outro trapézio. Mas o vôo fora mal calculado e o acrobata não encontrou onde agarrar-se.

Um terrível bramido ecoou por todo o teatro. Viu-se a bela e máscula figura de Scott, solta no espaço, virar para baixo a cabeça e cair estatelada no chão, com as pernas abertas. O recinto do circo encheu-se logo. Nos camarotes mulheres desmaiavam em gritos; algumas pessoas fugiam do teatro, espavoridas como se houvesse um incêndio; outras jaziam pálidas, a boca aberta e a voz gelada na garganta. Ninguém mais se entendia; davam-se encontrões. Nas torrinhas passavam uns por cima dos outros para poder ver se distinguiam o acrobata. Este, entretanto, sem acordo e quase sem vida, agonizava por terra, a vomitar sangue.

Olímpia, sem saber como, estonteada, trêmula da cabeça aos pés, achou-se ao lado dele. Ajoelhou-se no chão, tomou a cabeça do acrobata e pousou-a no regaço.

Scott estremeceu, esticou os membros, torceu a cabeça para trás, revirou os olhos, contraiu a boca e deu o último suspiro.

Olímpia soltou um grito, caiu de costas e começou a estrebuchar.

CAPÍTULO XX

D. TERESINHA

Olímpia só acordou de si em casa, ao lado do pai.

Acompanhara-os desde o circo um médico ainda moço, que se achava no teatro por ocasião do desastre. Era o Dr. Dermeval da Fonseca.

(continua...)

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