Por Franklin Távora (1878)
Por volta das cinco horas da tarde do dia anterior ao da entrada de Gil, justamente quando em sua casa fazia
Antonio Coelho com Jeronimo Paes o computo das forças, que deviam no dia seguinte tomar Goiana, entrou na sala um pardo, escuro, corpulento, mal encarado, por nome Bartolomeu. Era o mestre de uma barcaça de Antonio Coelho, circunstancia a que talvez devia a particular confiança que nele tinham os principais negociantes da vila.
Ao parecer, sua chegada não era esperada, visto que deu lugar a revelarem surpresa, posto que agradável, os dois amigos.
- Já de volta, Bartolomeu! exclamou Antonio Coelho. Prósperos te foram os ventos.
- Cheguei há poucas horas, respondeu o barcaceiro.
- Então? Inquiriu Jeronimo Paes. Foste feliz na viagem? Chegaram ao Recife sem novidade os viveres que mandamos?
- Por força, respondeu Bartolomeu com segurança.
- É um herói, disse Coelho.
- Não foi sem perigo que cheguei ao meu destino. Da ilha tentaram cortar-me a marcha da embarcação. Mas eu fiz-me no largo com tão boa hora, que ainda me procuram supondo-me fora da barra, quando eu já fui e já aqui estou. E que novas nos trazes? Boas ou más? Interrogou Coelho.
- As novas mais importantes devem vir nestas cartas – disse o barcaceiro, entregando ao negociante um alentado maço de papel.
Coelho rasgou com violência o envoltório que reunia em um só volume a sua correspondência, e pôs a devorá-la.
Entretanto Jeronimo Paes não cessava as indagações sobre o estado do Recife e dos seus habitantes sitiados.
- O que eu sei dizer é que a fome dentro da vila é de meter horror, - disse o barcaceiro. Dá-se um vintém por uma espiga de milho e não se encontra. Não há carne de espécie nenhuma. De farinha não havia nem um caroço antes de eu lá chegar. Um papagaio já serviu de galinha para caldo de um doente. O forte da população é o marisco-pedra, tirado nas coroas quando a vazante as descobre. Mas vosmecê não sabe que perigo corre o que lá os vai apanhar. Mais de cinquenta negras mariscadeiras tem caído no poder dos pés-rapados que fazem o cerco da vila. Muito pescador de marisco tem morrido de tiro.
- E porque não rompem o cerco? Para que servem os que estão dentro? Onde está o animo dessa gente? Que faz Mota? Oh que gente! Que gente!
A coisa não é tão fácil como parece. Seu governador João da Mota tem metido a cabeça muitas vezes para romper o cerco; mas os pés-rapados são muitos; têm toda a vila rodeada de corpos de guarda. Dormem ainda menos do que tetéu.
Estão sempre alerta.
- E que tem feito d. Francisco e o Camarão? Acham cedo ainda para avançar contra os sitiantes?
Ainda não puderam ser bons em nada. Os pés-rapados cada dia fazem uma das suas pelos caminhos e engenhos onde vão topando gente contraria. Se o cerco durar mais um mês, a vila entrega-se; porque à fome ninguém resiste. Fome tem cara de herege patrão.
Não há de ser assim – disse Coelho, atirando sobre a mesa junto à qual estava sentado, as cartas que acabava de ler – não há de ser assim. Em poucos dias nós os de Goiana havemos de romper o assedio e levantar nas ruas do Recife, livres de qualquer embaraço a autoridade real, agora vilmente abatida pelos rebeldes, já que os de lá não dão acordo de si. Aí tendes, Sr. Paes o que me escrevem Mota, Correia Gomes e Simão Ribeiro, acrescentou dirigindo-se a Jeronimo Paes. Lede. Quando acabardes, mandai levar ao provincial esta carta do padre João da Costa.
E voltando-se para o barcaceiro, perguntou-lhe como por encher o tempo: - Que mais, Bartolomeu?
Na botica do Rogoberto estava muito povo reunido agora mesmo. Dizia um que seu João da Cunha tem a fabrica e os moradores na vila para em caso de necessidade saírem armados contra os mascates. Dizia outro que Antonio Coelho e seu Jeronimo Paes não têm armas nem dinheiro para dar ao povo que os quiser acompanhar ao Recife.
- Qual foi o infame pé-rapado que aventurou semelhante aleivosia?
- Quem estava dizendo isto era o Ricardo.
- Ajustaremos já estas contas, disse Paes. Irei à botica para o desmentir, falarei ao povo. Isso não se atura. Hão de ver para quanto presto.
- Sim, sim, meu amigo. É da maior conveniência opor à mentira o desmentido. Ireis à botica sem falta, não é assim, Sr. Paes?
- Irei. Porque não? Irei já, agora mesmo – disse o marchante, levantando-se para sair.
- Antes de irdes, quero lembrar-vos uma providencia. Bem sabeis, Sr. Paes, que sem dinheiro não se fundam reinos. Vinde comigo até cá dentro. Acompanha-nos, Bartolomeu. Quero que vejas com teus próprios olhos as coisas quais são, a fim que possas com segurança saber quanto são infames os que nos irrogam faltas e fraquezas que não temos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.