Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Perdão! mil vezes perdão, se vos ofendi! amaldiçoada esteja a minha alma, fechadas lhe sejam as portas do céu, senhora, se uma só vez concebeu uma só idéia que pudesse ser inspirada pela ingratidão a vossos benefícios. Vós tendes sido tudo para mim! em vosso seio eu bebi o leite da vida... fostes quem ganhou o meu primeiro sorriso infantil! vós éreis pobre, não tínheis senão um pão, e me destes metade desse pão! e me destes vosso coração todo inteiro!... perdoai-me! perdoaime!... que hoje depois de tanto sofrer seria demais para mim a convicção de ter movido vossas lágrimas! perdoai-me!...
A velha e o moço abraçaram-se apertadamente, misturando o pranto que derramavam ambos.
As lágrimas pareceram abrandar um pouco a excitação de Cândido: ele ficou, durante algum tempo, silencioso e pensativo diante de Irias, que não pronunciava uma só palavra, medrosa talvez de ver renovar-se o desespero de seu filho adotivo.
Finalmente foi Cândido quem rompeu o silêncio, dizendo tristemente:
– Eu me lembro do que disse: pedi que não me chamásseis vosso filho.
– Não falemos mais nisso.
– Ao contrário, devemos falar; pois eu... eu que não quero deixar em vosso coração a mais leve dúvida a respeito de meus sentimentos, pedi que me não chamásseis vosso filho... foi um desvario produzido por minha exaltação: eu vos ofendi, porque não estava em mim; um remorso, que me tortura, fez-me delirar.
– Um remorso!...
– O remorso de uma grande falta que eu cometi, e da qual já comecei a receber o castigo.
– Como?... quando?... perguntou Irias.
– Desrespeitei um sentimento sagrado... quis cultivar na minha alma uma flor estranha ao pé de outra flor, que lá está plantada pela mão do Senhor Deus. Sabeis o que aconteceu?...
– O quê?
– A flor estranha está murcha... está morta, disse com voz trêmula e dolorosa o mancebo; mas deixou para sempre na minha alma o germe de um tormento horrível... desesperado!
Os olhos e o rosto de Cândido acendiam-se de novo: a velha começou a recear que sobreviesse algum acidente mais grave, e ia falar, quando o moço prosseguiu com voz cada vez mais repassada de dor:
– Plantei em um vaso sagrado uma flor humana, quis equiparar um sentimento, que me veio do céu, com outro que achei na terra. O resultado é este; o vaso foi profanado... a flor humana feneceu... um remorso é o que dela me resta.
– Cândido!
– Quereis dizer que não me tendes compreendido?... eu vos explico tudo; metade da culpa pertence-vos também; mas mal não vos quero por isso. Ouvi-me.
A velha não achou uma só palavra para dizer a Cândido, que continuou a falar.
– O amor dos pais vem do céu: é um sentimento tão grande, tão nobre, tão divino, que apesar de ser natural a todos os homens; de às vezes achar-se um bom filho em um mau cidadão; o Senhor Deus desceu do céu, misturou-se com os homens e quis que esse sentimento fosse dele também, fazendo-se filho de uma mulher. O amor dos pais nos anima, nos consola, nos exalta, nos aproxima de Deus. Oh! eu nunca vi meus pais, e os amei com toda a força de minha alma. Quando soube que no mundo só me restava mãe, concentrei todos os raios da minha faculdade de amar nessa mulher, que eu tenho criado na minha imaginação tão bela como um anjo. Oh! minha mãe!... eu não tinha pensamento que não fosse dela; todos os meus desejos, todos os meus sonhos de venturas relacionavam-se com ela: oh!... eu pensava ser, mas não era desgraçado! porque no meio de meus dissabores, de minhas tristes vigílias, de meus sofrimentos e de minhas privações, a imagem de minha mãe me aparecia bela... amante... carinhosa; e, contemplando essa imagem, eu esquecia todos os meus infortúnios. Eu era pobre no mundo, mas com o meu coração rico deste amor, eu gozei muitas vezes delícias indizíveis; porque, quando eu me engolfava em belas fantasias a respeito de minha mãe, quando me sentia redobrar de amor por ela, oh!... parecia-me ver lá de cima, do céu, o Senhor Deus sorrindo para mim, mandar-me um anjo murmurar-me aos ouvidos – abençoado!...
– Abençoado!... repetiu a velha enxugando com a face dorsal da mão duas grossas lágrimas que dos olhos lhe caíram.
– Não é verdade que eu deveria contentar-me com esta suprema felicidade que gozava? felicidade que não há ouro que a compre!...
– Oh! sim! sim!...
– Pois o coração do homem é uma fonte de insaciável ambição; o homem é tão ambicioso de riquezas, de honras, e de empregos, como de afeições. Eu perdiame, porque sou como todos os outros.
– Como? que queres tu dizer?...
Cândido passou a mão pela fronte e prosseguiu:
– Da fresta daquela janela vi uma mulher de quem eu não podia ser filho, e que eu amei tanto quanto amava e amo a imagem de minha mãe!...
– Que importa?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.