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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Enfim, quando já se achavam fastigados ou começavam a sentir-se aborrecidos do passeio, os três batéis reuniram-se, e de acordo comum se foram postar diante dessas belas casas, que situadas ficam entre S. Domingos e a Praia do Gravatá: tratava-se de ouvir cantar a Honorina. Embebidos, enlevados e perdidos na embriaguez de seu prazer, a companhia não notava que a lua se ia turvando, o mar tornando-se crespo e cavado, e que o vento, que refrescava, caía às vezes sobre eles em tufões, que faziam jogar os batéis.

Honorina deixou, pois, ouvir sua voz melodiosa e terna: aquele canto no meio do mar, levado nas asas do vento, perdido no longo espaço, ouvido no silêncio da noite, tinha um não sei quê de místico e poderoso, que cativava as almas!

A praia ficou para logo coberta de curiosos expectadores, que, quando sentiram terminar o hino da virgem, fizeram soar seus aplausos de mistura com aqueles que prorrompiam dos batéis.

E as aclamações não deixaram ouvir bem distintamente o surdo mugido de um trovão longínquo, que, enfezado, bramia; um fuzil se desabriu e fez estremecer Honorina.

— Meu pai, meu pai, veja como fuzila, como o horizonte se tem tornado escuro... oh! minha avó tinha bem razão... vamos desembarcar!

— Não!... não!... disseram os moços, ainda uma vez o hino!... uma segunda vez, minha senhora!

— Sim, Honorina, repete o teu belo hino; que apenas o terminares, desembarcaremos.

— Mas, meu pai, Raquel e eu estamos tremendo!

— Que medo então é esse? não vês que estamos a dois palmos de distância da terra?... canta... canta.

Nesse momento uma pequena canoa, guiada por duas únicas pessoas, aproximou-se dos batelões, e deu fundo.

— Oh! temos companheiros? disse Hugo.

— Quem sabe se será o nosso cantor de ontem?...

— Em todo o caso não faz mal reconhecê-lo, disse Otávio; remadores... para junto daquela canoa...

— Remadores, repetiu Manduca no batel em que estava, para junto daquela canoa... — Mas o que eu não sei, murmurou Brás-mimoso, é o que temos nós de ir entender com quem está quieto.

— Oh! Sr. Brás! até disto tem medo?...

— Quem?... eu?... medo?... as senhoras ainda me não conhecem a fundo.

No entanto, os batéis tinham chegado até encostar-se à canoa; Otávio e Manduca puseram-se a examiná-la em pé sobre a borda de seus batelões, e todos os outros fitaram os olhos dentro dela. Estavam lá duas únicas pessoas: um velho pobremente vestido, e com a cabeça toda branca, e um negro, que era talvez seu escravo; dentro da canoa viam-se todos os objetos próprios de uma pescaria.

— É um pescador, disse Otávio.

— Sim, falou o velho com voz trêmula, um pobre pescador, que vai fugindo da tempestade que se avizinha.

— Mas, meu velho, quem foge não pára.

É que eu ouvi uma voz bem suave!...

— E, portanto, esqueceu-se da tempestade?...

— Porque desde então, senhores, todos os meus sentidos... toda a minha alma se passou para meus ouvidos

— Pois então, disse Hugo, escuta de novo, meu pescador!

O canto soou talvez mais docemente ainda; porque a voz de Honorina estava levemente trêmula do medo que sentia do temporal que se aproximava.

Mas ela não pôde acabar...

Um relâmpago deslumbrador pareceu abrir uma fenda de fogo horrível no horizonte; um trovão medonho estalante rebentou terrivelmente, e um tufão desesperado rugiu sobre o mar, que se levantou encapelado e bravo...

Um grito geral prorrompeu de dentro dos três batéis...

Ao já fraco clarão da lua sucedeu a mais completa escuridade: a dois passos ninguém podia ver um companheiro.

O batel em que ia Honorina ficou cheio de água. Ouvindo a custo os gritos de Hugo, de Félix e das duas moças, os outros dois batéis, e a canoa do pescador, acudiram prontamente: aquele em que vinha Otávio foi o primeiro que se encostou ao de Hugo, que, tomando sua filha nos braços, inclinou-se para depô-la no batel que os socorrera; mas neste momento a borrasca rugiu de novo... o fuzil... o trovão... o raio!... os batéis, cedendo à força das vagas que cavavam sumidouros debaixo deles, afastaram-se, jogando terrível e desordenadamente... Hugo caiu sobre os bancos dos remeiros, e Honorina, escapando de seus braços, desapareceu no abismo do mar... Um novo grito horrível... desesperado... arrancado das entranhas se ouviu, apesar da tempestade, sair do triste batel...

Félix agarrou pela cintura a Hugo, que se queria lançar ao meio das ondas...

Sentiu-se o baque de um corpo que caía na água...

Tudo isso foi obra de um rápido instante.

No auge da maior dor, do mais cruel desespero, entre mil idéias sem ordem, sem nexo, tudo se perguntando e nada se fazendo, a companhia ainda há pouco tão alegre, e tão aflita agora, deixava perder momentos de valor inqualificável... Mas um brado de vida se levantou na praia.

— Salva!... salva!... salva!...

Oh!... quando se diz a um pai, que crê sua filha já morta — salva!... salva!... tua filha está salva!... — tem-se como uma voz de anjo... como um poder de providência...

Salva!... exclamou Hugo; à praia!... à praia!...

E os batéis atiraram-se para a praia.

(continua...)

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