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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Mas que viagem!... ao que vos convido, ou quase que vos obrigo, não é mais a viajar, é a dar três grandes saltos, porque cada uma das casas notáveis esquecidas está em quarteirão distinto.

Ainda bem que a ginástica já entra seriamente no sistema de educação pública, e na província do Rio de Janeiro adotou-se até a ginástica apropriada para o sexo feminino na escola normal.

Declaro em defesa prévia que não acabo de fazer censura, nem epigrama. Eu reconheço a conveniência e aplaudo a aplicação do ensino da ginástica.

Portanto, meus leitores, estamos habilitados para dar sem perigo três saltos em honra dos três anexos.

Anexo I

A casa hoje ocupada pela livraria dos Srs. Barbosa & Irmão, e sita na Rua do Ouvidor, entre as Nova do Ouvidor e dos Ourives, foi justificadamente célebre, sendo também livraria de Mongie.

Filho de livreiro notável de igual nome, estabelecido em Paris e ali muito conhecido e estimado editor, que as bibliografias não esquecerão, Mongie veio para o Rio de Janeiro, e na casa mencionada, defronte da então florescente loja de perfumarias dos Desmarais, abriu em 1832 livraria, cuja importância era grande e muito explicável pelas relações com a casa paterna, em França.

Mongie tinha instrução variada, trato ameno e excelente caráter. A sua livraria muito rica de boas obras vendidas a preço que não o prejudicava, mas não aturdia o comprador, foi preciosa fonte de civilização, e era freqüentada pelos homens de letras e pelos cultivadores das ciências, que achavam nela os melhores livros de publicação recente e o gozo da conversação ilustrada e espirituosa com o livreiro.

Contemporâneo do Albino Jordão, Mongie não tinha em menos preço a loja de livros, em grande parte velhos, e de brochuras antigas e modernas; pelo contrário, muitas vezes procurava o patriarca dos nossos alfarrabistas, entretinha-o quanto podia e comprava-lhe livros antigos e folhetos, cuja matéria excitava sua curiosidade.

Muito amigo do seu vizinho fronteiro, Mr. Desmarais, que ainda felizmente vive às vezes brincando e aludindo à sala de cabeleireiro da loja do perfumista, dizia-lhe em ótimo francês:

- Você adorna as cabeças por fora, e eu as adorno por dentro; creio que sou mais útil, mas você tem mais cabeças a adornar.

E o Desmarais respondia:

- Concordo, mas troquemos as lojas com a condição de trocarmos também as cabeças, não as dos fregueses, sim as nossas.

A loja de livros de Mongie foi a mais considerável do seu tempo, e ponto de reunião de sábios e de literatos, que ali tinham por segura palestra animada, interessante e espirituosa, na qual o dono do estabelecimento era excelente e estimado companheiro.

Um dos mais assíduos freqüentadores da loja de livros de Mongie de 1836 em diante foi aquele homem de inteligência superior que se chamou Francisco de Sales Torres Homem, e em seus últimos anos Visconde de Inhomirim.

Vem aqui a propósito curiosa informação que não deve escapar aos futuros biógrafos do ilustre visconde.

Sales Torres Homem, chegado da Europa creio que em principio de 1837, ardia por tomar posição e reaparecer na imprensa política do Rio de Janeiro, e apenas se continha (eu lho ouvi por vezes), esperando por Evaristo Ferreira da Veiga, que estava então em Minas Gerais, e que era o estadista de sua maior confiança, de cujos conselhos não queria prescindir.

Evaristo voltou de Minas Gerais a 2 de maio de 1837 e dez dias depois faleceu - no Rio de Janeiro.

Sales Torres Homem achou-se privado do conselheiro patriota e deliberou por si, publicando o Jornal dos Debates, no qual teve por colaboradores os seus contemporâneos de estudos em

França, os Srs. João Manoel Pereira da Silva (atual conselheiro), Domingos Gonçalves de Magalhães (depois Visconde de Araguaia) e Manoel de Araújo Porto Alegre (ulteriormente Barão de Santo Ângelo).

O Jornal dos Debates, periódico de doutrinas liberais, mas em oposição ao governo do regente Padre Feijó, produzia por excelente e apurada redação notável impressão no ânimo do povo.

Sales Torres Homem, o redator principal da parte política do Jornal dos Debates, ganhava crédito e firmava opinião.

Um dia, no mesmo ano de 1837, Mongie conversando em sua loja com Sales Torres Homem, disse-lhe, aludindo aos seus eloqüentes artigos de oposição no Jornal dos Debates:

- O senhor teve a felicidade de seguir acertadamente a sua vocação; nasceu predestinado parafulgir na imprensa política e para elevar-se por ela às mais altas posições no seu país.

Sales pôs-se a rir e depois respondeu:

- E se eu te dissesse que sou político por violência feita à minha vontade e por imposiçõesarrebatadas de minha própria vaidade?...

- A pesar seu?

- Ao menos contra a mais decidida negação à política, e contra assentados planos do futuro deminha vida.

- O fato me pareceria, não digo singular, mas com certeza interessante.

- Pois eu lhe revelo o que ainda ninguém me ouviu, e que nem por isso lho digo com puerisreservas de segredo.

(continua...)

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