ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Garnier, 1904.
Por Machado de Assis (1904)
Ao cabo, Flora cada vez gostava mais de Natividade. Queria-lhe como se ela fosse sua mãe duplamente mãe, uma vez que não escolhera ainda nenhum dos filhos. A causa podia ser que as duas índoles se ajustassem melhor que entre Flora e D. Cláudia. A princípio, sentiu não sei que inveja amiga, antes desejo, quando via que as formas da outra, embora arruinadas pelo tempo, ainda conservavam alguma linha da escultura antiga. Pouco a pouco, foi descobrindo em si mesma o intróito de uma beleza, que devia ser longa e fina, e de uma vida que podia ser grande...
Flora conhecia a predição da cabocla do Castelo, relativamente aos dous gêmeos. A predição não era já segredo para ninguém. Santos falara dela em tempo, apenas ocultando a subida de Natividade ao Castelo; emendou a verdade, dizendo que a cabocla é que viera a Botafogo. O resto foi revelado em confiança, como ao finado Plácido, e ainda depois de alguma luta. Três ou quatro vezes investiu e recuou. Um dia. a língua deu sete voltas na boca, e o segredo saiu medroso e sussurrado, mas perdeu o medo pelo gosto de mostrar que os rapazes seriam grandes. Enfim, o segredo foi esquecendo. Mas Perpétua, por isto ou aquilo, contou- o agora à moça Batista, que a ouviu incrédula. Que podia saber a cabocla do futuro?
—Sabia, e a prova é que adivinhou outras cousas, que não posso contar e eram verdadeiras. Você não imagina como o diacho da cabocla via longe. E tinha uns olhos de espetar o coração.
—Não acredito, D. Perpétua. Pois agora o futuro da gente... E grandes como?
—Isso não disse por mais que Natividade lhe perguntasse; disse só que seriam grandes e subiriam muito. Talvez venham a ser ministros de Estado.
Perpétua parecia haver comprado os olhos à cabocla. Enfiava-os pela amiga abaixo, até o coração, que aliás não batia com força nem apressado, mas tão regular como de costume. Entretanto, não sendo impossível que os dous rapazes chegassem — aos altos deste mundo, Flora deixou de objetar e aceitou a predição, sem outra palavra mais que um gesto, — sabes, creio, — um gesto de boca, fazendo descair os cantos dela, levantando os ombros levemente, e espalmando as mãos, como se dissesse: Enfim, pode ser.
Perpétua acrescentou que, mudado o regímen, era natural que Paulo chegasse primeiro à grandeza, — e aqui espetou bem os olhos. Era um modo de apanhar os sentimentos de Flora, acenando-lhe com a elevação de Paulo, pois bem podia ser que viesse a amar antes o destino que a pessoa. Não achou nada. Flora continuou a não se deixar ler. Não lhe atribuas isto a cálculo, não era cálculo. Seriamente, não pensava em nada acima de si.
CAPÍTULO LXXXV
TRÊS CONSTITUIÇÕES
—Você crê deveras que venhamos a ser grandes homens? perguntara Pedro a Paulo, antes da queda do império.
—Não sei; você pode vir a ser, quando menos, primeiro-ministro.
Depois de 15 de novembro, Paulo retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu como o irmão, emendando o resto:
—Não sei; você pode vir a ser presidente da República.
Já lá iam dous anos. Agora pensavam mais em Flora que na subida. A boa moral pede que ponhamos a cousa pública acima das pessoas, mas os moços nisto se parecem com velhos e varões de outra idade, que muita vez pensam mais em si que em todos. Há exceções, nobres algumas, outras nobilíssimas. A história guarda muitas delas, e os poetas, épicos e trágicos, estão cheios de casos e modelos de abnegação.
Praticamente, seria exigir muito de Pedro e Paulo que cuidassem mais da Constituição de 24 de fevereiro que da moça Batista. Pensavam em ambas, é verdade, e a primeira já dera lugar a alguma troca de palavras acerbas. A Constituição, se fosse gente viva e estivesse ao pé deles, ouviria os ditos mais contrários deste mundo, porque Pedro ia ao ponto de a achar um poço de iniqüidades, e Paulo a própria Minerva nascida da cabeça de Jove. Falo por metáfora para não descair do estilo. Em verdade, eles empregavam palavras menos nobres e mais enfáticas, e acabavam trocando as primeiras entre si. Na rua, onde o encontro de manifestações políticas era comum, e as notícias à porta dos jornais freqüentes, tudo era ocasião de debate.
Quando, porém, a imagem de Flora aparecia entre eles por imaginação, o debate esmorecia, mas as injúrias continuavam e até cresciam, sem confissão do novo motivo, que era ainda maior que o primeiro. Efetivamente, eles iam chegando ao ponto em que dariam as duas constituições, a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moça, se tanto fosse exigido. Cada um faria com ela a sua Constituição, melhor que outra qualquer deste mundo.
CAPÍTULO LXXXVI
ANTES QUE ME ESQUEÇA
(continua...)
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