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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Em poucos meses o estado interessante de Maria do Carmo foi carecendo de cuidados mais sérios, e João da Mata assim o julgou, tratando logo de arranjar uma casa, um sítio nos subúrbios onde ela pudesse, tranqüilamente e sem escândalo, alijar a carga, desembuchar a criança. Mas onde e como poderia ele dispor as coisas do melhor modo, sem despertar a curiosidade pública? Esta era a grande questão que afligia o amanuense, cada vez que o seu olhar vesgo descia sobre o ventre da afilhada, vendo-o crescer dia a dia, tomar uma forma esférica iniludível, arredondar-se, arquear-se para fora numa convexidade característica e esmagadora. — “E agora?” interrogava-se ele, passando a mão na calva. O caso ia se tornando grave, urgia fazer qualquer arranjo logo e logo, antes que a Teté rebentasse por aí com quatro pedras a acusá-lo violentamente, atirando-lhe em rosto a sua infidelidade, o seu crime, a sua pouca-vergonha. A rapariga engordava a olhos vistos; só um cego não veria dentro daquela redondeza uma criatura humana em formação.

Toda ela — o ventre, os seios, os braços, o rosto — inchava, adquiria um cunho extraordinário de maturidade precoce. Notava-lhe agora asperezas na pele, uma cor seca de folha sazonada e certo ar amolentado que se traduzia numa sonolência infinita e na prematura tendência para o abandono de si mesma.

Com efeito, Maria, apenas com quatro meses de grávida, tinha perdido muito da antiga expressão insinuante e viva de sua fisionomia. Na idade em que a mulher, como a flor, em plena exuberância dos tecidos, desabotoa numa singular alacridade de cores, toda frescura e beleza, ela que não transpusera ainda os dezoito anos, olhava a vida com uma indiferença única, estiolando ali assim entre as paredes daquela casa sem ar e sem luz, esperando resignadamente o seu fim. Queria ver até quando duraria aquele estado de coisas, até onde a queriam levar!

Já não chegava à janela com vergonha de ser vista pela vizinhança e pelos conhecidos — refugiara-se, como uma culpada, no ádito misterioso do seu quarto, egoisticamente, sem ao menos lembrar-se da Lídia que não a esquecia e que lhe mandava de onde em onde presentinhos, recados e abraços.

E João inquietava-se, procurando meios de evadir-se da alhada em que se metera com risco de um escândalo medonho!

Havia um mês que Maria do Carmo caíra com o ataque no meio da sala. D. Terezinha ruminava sutilidades para descobrir uma sombra sequer, um vestígio que confirmasse de uma vez as suas suspeitas. Batera todos os aposentos, todos os cantos da casa, indagara da lavadeira se não vira alguma nódoa, alguma mancha na roupa da afilhada; acordava vezes sem conta, alta noite, prestando ouvidos a qualquer ruído, por mais leve, e nada! absolutamente nada! Faziam-lhe espécie os modos reservados de Maria, esse impenetrável desgosto que a punha triste, com um ar esquisito de “galinha choca”. Alguma coisa havia, por força, era capaz de jurar.

D. Terezinha nunca mais dormira com João da Mata e era só quem passava bem naquela casa; até estava criando banha no pescoço. Pudera! uma vida relativamente calma, senhora absoluta de seu nariz, ganhando um dinheirão com o negócio de rendas que mandava para o norte pelo despenseiro do vapor, tudo corria-lhe às mil maravilhas. Queria ter um pezinho para rusga, isso queria. E se ainda “fazia vida” com o Janjão, era por condescendência, para não dar escândalo; achava feio uma mulher deitar-se com um homem e depois — passe muito bem — abalar por esse mundo afora, como uma doida, atrás de aventuras. Não era mulher para essas coisas; o que queria era o seu descanso — comer bem, dormir bem, passar bem; não admitia que a fizessem de tola.

Tinha uma amiga sincera — a Amélia, senhora do Dr. Mendes. Essa, sim, sabia-lhe apreciar as virtudes, dar-lhe importância, tratá-la com consideração, mesmo porque ela, Terezinha, trabalhava para ganhar a vida honradamente.

— Você é tola, Teté, a gente não deve se matar, dizia-lhe a mulher do Dr.

Mendes.

— Lá isso é verdade, mas você o que quer? É fado, é mania...

As conhecidas admiravam-lhe a boa disposição para o trabalho. Sentava-se à máquina às dez horas do dia, cabelos úmidos sobre a toalha de banho estendida nos ombros, e labutava três, quatro horas consecutivas a cantarolar modinhas, costurando para o fornecedor da polícia.

E sempre gorda, sadia e forte!

— Mulher mouro! dizia João da Mata aos amigos.

Uma tarde, ao voltar da rua, o amanuense entrou alegre, como se tivesse tirado a sorte grande na loteria, saboreando um charuto mau que lhe dera o Guedes. Vinha um pouco toldado.

— Olha esse jantar! bradou para dentro, atirando fora a ponta do charuto. E começou a cantar desafinadamente os Sinos de Corneville, então muito repisados:

Vai marinhei... ro,

voa ligei... ro,

velas à brisa

no espelho do mar!

E logo:

Nunca percas a esperan... ça,

quando houver temporal,

que há de vir a bonan... ça,

e depois o... final!

— À cena a Naghel, à cena a Naghel! bradava o amanuense batendo as palmas com fúria.

(continua...)

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