Por Inglês de Sousa (1891)
Pela primeira vez naquela viagem padre Antônio conseguira conciliar o sono. Estava prestes a realizar o seu grandioso projeto. Estava contente consigo mesmo. A melancolia desaparecera como por encanto, não mais as tristes idéias de aniquilamento e morte lhe ensombravam a imaginação, não mais estremecia de terror pensando na vida eterna. A fadiga da viagem, a novidade macia da rede e a idéia de estar livre das mesquinhas ocupações da sua modesta vigararia, causavamlhe uma satisfação íntima, uma alegria plácida que o convidavam a um sono tranqüilo.
Quando acordou os primeiros raios do sol douravam os ramos de pindoba nova que cobriam a casa, e enchiam o negro quarto de uma claridade tênue que mal anunciava o dia. A fresca da madrugada induzia a continuar o sono interrompido por força do hábito matinal do Seminário, e as umidades da noite não absorvidas ainda, prendiam o corpo à rede por uma sensação de agradável frio.
Mas dormira muito. Um projeto elevado e nobre engastara-se no seu cérebro, e não dava tréguas à indolência. Não podia ficar entregue a repouso sonolento quem pretendia o martírio na catequese de selvagens bravios.
Sentia o peito dilatar-se a cada pensamento elevado, o coração tinha sobressaltos entusiásticos que não permitiam descanso aos nervos excitados. O movimento e a ação tornavam-se necessários como diversão à atividade desordenada do espírito, o alvoroço interior tinha de traduzir-se forçosamente na agitação externa. Mal percebeu que raiava o dia, saltou fora da rede, e foi acordar Macário que roncava todo envolvido nas varandas da maqueira.
Abrindo a porta do quarto, que dava para o terreiro, entrou por ela o dia, um esplêndido dia de agosto, cheio de vozes de pássaros na floresta e de ruído de peixes no rio. O sol parecia sair de um banho voluptuoso com os raios brilhantes mitigados pelas umidades da atmosfera, impregnada de vapores aquosos que surgiam do Canumã. As árvores, o capinzal, o terreiro estavam cobertos de abundante orvalho. As árvores da beirada recendiam. A natureza amazônica revivia com mais pujança aos beijos do sol bem-amado.
Padre Antônio exaltado por um sentimento religioso ante o espetáculo daquela manhã, dirigiu-se ao porto a chamar os camaradas, que deviam ter pernoitado na canoa. Na superfície calma e lisa do lago, na esteira sombria do furo do Uraná, abrigado da luz matutina pelas árvores da beira, nenhuma embarcação se divisava. O porto estava deserto. O vigário e o sacristão, numa terrível ansiedade, correram pela margem, chamando em altas vozes os remeiros pelos nomes, mas somente o eco lhes respondia, o eco da outra banda, entrecortado pela gargalhada zombeteira da maritaca.
A situação era clara como o dia que se levantava por entre os aningais da vargem.
Os tapuios haviam fugido na igarité de padre Antônio, levando-lhe a roupa, as previsões, tudo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.