Por Domingos Olímpio (1903)
Ele que as desse a outra. Mais tarde arrependi-me: revoltei-me contra esse ciúme àtoa, que não me envergonhava, porque as mulheres ricas também se enciumam; mas era uma fraqueza. Tive ímpetos de pedir-lhe perdão. Uma voz, que vinha daqui, do coração, aconselhava que eu quebrasse a teima de abandoná-lo e fugir dele... Seria rebaixar-me, fazer como essas que continuam a querer bem ao homem que as despreza, surra e maltrata; seria contra o meu gênio de não dar braço a torcer, de não dar parte de fraca, de sofrer calada.
— E é por isso que tens andado capionga? Ah! coração de mãe adivinha.
— Era ...
— Pois foi muito feia ação desconfiar dele.
— A gente não suspeita por querer.
— Quando se quer de verdade, não há suspeita que entre no coração. Eu nunca maldei do defunto teu pai, quando ele passava meses ausente, comprando garrotes no Piauí. Só pensava que poderia apanhar moléstias, morrer sem confissão e em não estar eu a seu lado para tratar dele.
— Era seu marido. Alexandre não é nada meu. Ninguém me tira da cabeça que, agora, limpo de pena e culpa e por ser bom, caridoso e bonito homem, todas as mulheres querem bem a ele. Homem que sofre é, comparando mal, como Jesus Cristo. As mulheres andam atrás dele.
Houve, então, longa pausa. Nos pequeninos olhos parados da velha, desanimados, demorava uma funda impressão de surpresa, com um brilho gasto de mágoa.
— Além disso – continuou Luzia, com um ligeiro movimento, dos ombros – Elas têm o mesmo direito que eu. Mas não me conformo... Pode mais do que a minha vontade essa suspeita, que me põe o coração escuro e mau... Sabe, mãezinha, em que estou pensando agora?... Um horror, que até tenho vergonha de dizer... Antes uma boa morte que descobrir a outra pessoa o que me passa pela mente... Olhe...
E sussurrou, com voz soturna, como um sopro de cansaço, ao ouvido da velha:
— Imagino que, neste momento ele está com Teresinha...
— Credo! filha!
— É um horror, não é?... Parece que estou vendo eles juntos, alegres e satisfeitos. Ele todo agradecimentos; ela cheia de si... Sim, porque se está solto a ela o deve... Ela tem direito à recompensa. É justo que não se lembrem de mim...
— Que maldade, filha de minha alma...
— Sim, como não hei de ser má, de ter más entranhas, se uma cobra venenosa me morde o coração! E sou culpada de tudo por ser desconfiada... soberba... maldita... Luizia-Homem é o que eu sou... uma bruta desalmada...
— Que coisa sem pé nem cabeça? Estou estranhando isso... Sossega...
Teresinha, tão boa para nós, não tarda aí, quando a lua nascer.
— Veja aquele clarão... Já está fora.
— Ela foi cheia trasantontem. Aquilo é fogo no pasto.
Havia, com efeito, no horizonte, um clarão de incêndio, onde surgia, lentamente, um enorme disco.
— Qual – exclamou Luzia, com uns gestos violentos, e um amargo tom de sarcasmo – Aquela mesma? Onde está, está muito bem... gozando o que muito lhe custou ganhar... Não se me dava de apostar...
— Não faças juízo à toa – disse a velha, com energia – maldando da outra...
— Não maldo por querer. É uma coisa que me vem à cabeça e que me tira o juízo... Ah! Eu não era assim. Não era. Em nada pensava, nada tinha, que me afligisse ou me tirasse noites de sono. Não fora o seu puxado, vivia sossegada, pensando somente no dia d'amanhã, em ganhar a vida. Era feliz, consolada com a minha sorte.
— Não eras, não. Nunca te vi assim... São repiquetes de mau gênio que passam depressa. Agora, se não te dás bem aqui, se te sentes mal, iremos, como querias, para as praias. Raulino irá conosco...
— Para a praia! Não vou mais, não... posso. Hei de ficar aqui até quando Deus permitir... Até... morrer. Quem sabe?
— Aí está! Não te entendo. Há bocadinho, falavas nessa viagem que não te saía da cabeça... Agora...
— Pensei melhor.
— Qual, filha! Andas tão atarantada que já não pensas coisa com coisa.
— É mesmo, mãezinha. Até parece que estou lesa. Ah! se eu pudesse esquecer tudo como se fora um sonho, desses que a gente dá graças a Deus e cria alma nova, quando se acabam... ou se desperta...
— Tu estás, mas é muito alterada. Vem dormir, anda, que Teresinha rebenta por aí sem demora, e as duas vão levar a noite grazinando como duas amigas.
A velha Josefa benzeu-se ao terminar o terço, interrompido pelo diálogo com a filha. Ergueu-se apoiada ao portal, e gemendo, tanto lhe custava distender as articulações emperradas; e, arrastando as grandes chinelas, dirigiu-se, claudicante, para a rede. O quarto estava iluminado pela candeia mortiça, crepitando na cantoneira, asseado, muito arrumado; as malas encostadas à parede, duas redes armadas nos ângulos, e, no chão, a esteira de Teresinha, a pele de carneiro, um simples tapete para se não resfriarem os pés da enferma. De uma corda, pendiam várias peças de roupa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.