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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Veja se consegue, reverendo! Olhe lembra-me até que seria melhor desistir de tal compra da fazenda... Esta gente, quando não tinha suja! Não imagina a arrelia que me faz vê-lo todo o santo dia na mesa de jantar ao lado de minha neta!... Também nunca esperei esta de meu genro! É preciso pôr o homem pra fora! Isto não tem jeito! As Limas já falaram muito; disse a Brígida que na quitanda do Zé Xorro lhe perguntaram se era certo que ele estava para casar com Anica... Ora isto não se atura! Cada um que ponha o caso em si!... Pois então aquele não-sei-que-diga precisa que lhe gritem aos ouvidos qual é o seu lugar?... No fim de contas quantos somos nós?!... Nada! Nada! é precioso pôr cobro a semelhante coisa. Fale a meu genro, senhor cônego fale-lhe com franqueza! Olhe pode dizer-lhe até que se ele não quiser tratar disto, eu m'encarrego de pôr a peste no olho da rua! A porta da nua é a serventia da casa! Não vê que entre paredes, onde cheira a Mendonça de Melo, se tem aquelas com um pedaço de negro! Iche cacá!

— Está bom está bom!... Não se arrenegue, Dona Babu! Pode arranjar-se tudo, com a divina ajuda de Deus!...

E o cônego foi entender-se com o negociante.

— Homem... respondeu Manuel tendo ouvido as razões do compadre, lá de recambiá-lo para o diabo, convenho! porque enfim sempre é um perigo que um pai de família tem dentro de casa!... mas essa agora de não negociar a fazenda, é pelo que não estou! Seria asnice de minha parte! E boa! Pois se o Cancela me escreveu quer entrar em negócio, e eu posso meter para a algibeira uma comissãozinha menos má, sem empregar capital algum e quase sem trabalho - hei de agora meter os pés e deixar o pobre rapaz às tontas, em risco até de cair nas mãos de algum finório!... Porque, venha cá seu compadre, mesmo deitando de parte o interesse, com quem a não ser comigo podia o Mundico, coitado! haver-se neste negócio? Também a gente deve olhar p'r'estas coisas!...

Ficou resolvida a viagem para o sábado seguinte.

Raimundo acolheu a noticia com uma satisfação que espantou a todos. “Até que afinal ia visitar o lugar em que lhe diziam do!...”

— Olhe! disse ele a Manuel, tenho um importante pedido a fazer-lhe...

— Se estiver em minhas mãos...

— Esta...

— O que é?

— Coisa muito seria... Em viagem para o Rosário conversaremos.

Manuel coçou a nuca.

CAPÍTULO X

No dia combinado, às seis horas da manhã, acharam-se Manuel e Raimundo a bordo do vaporzinho Pindaré, pertencente à então Companhia Maranhense de Navegação Costeira.

Fazia um tempo abrasado, muito seco, cheio de luz. A viagem era incômoda, pela aglomeração dos passageiros, os quais, no dizer cediço de um de bordo, iam “como sardinhas em tigela”.

Tudo aquilo, no entanto, estava muito melhor... considerava Manuel. Agora já se podia viajar facilmente pelo interior da província!... Dantes é que a navegação do Itapicuru tinha os seus quês!...

E passou a narrar circunstancialmente as dificuldades primitivas da ida ao Rosário. “Aquela companhia, assim mesmo, viera prestar grandes serviços à província!... Deixasse lã falar quem falava, o único inconveniente que ele via era a — baldeação no Codó! — Isso sim! Tinha o que se lhe dizer, e devia acabar quanto antes!”

— Felizmente, concluiu, o Rosário é a primeira estação e não temos de sofrer a maldita maçada!

Ao anoitecer saltaram na Vila do Rosário, em companhia de um antigo conhecido de Manuel, ali residente havia um bom par de anos. Em Um

portuguesinho de meia-idade, falador, vivo, brasileiro nos costumes e trigueiro como um caboclo.

— Venha cá pra casa e pela manhãzinha seguirá o seu caminho, oferecia ele ao negociante. Sempre lhe quero mostrar o meu palácio!

Foi aceito o convite, e os três puseram-se a andar, de mala pendurada na mão.

— Sabe você, ia dizendo o homenzinho, toda aquela baixa que pertencia ao Bento Moscoso? pois isso fica-me hoje no quintal! Arrecadei a fazenda da viúva por uma tuta e mea e hoje está produzindo, que é aquilo que você pode ver! O meu projeto é levantar uma engenhoca aí perto, onde fica o igarapé do Ribas; quero ver se aproveito as baixas para a cana, percebe?

E dissertava largamente sobre a sua roga, sobre as suas esperanças de prosperidade, censurando medidas mal tomadas pelos vizinhos; afinal atirou a conversa sobre o Barroso. Barroso era a fazenda no para onde se dirigiam os outros dois.

— São boas tenras, são! Muito limpas, muito abençoadas! O que foi que levantou o Luís Cancela? E é verdade! se me não engano, creio que ele uma ocasião me disse que foi você quem lhas aforou. Não é isso?

— E exato, respondeu Manuel.

— Ah! são suas?...

— Não! São deste amigo.

E Manuel indicou Raimundo, que nesse momento contratava, com um homem que se mandou chamar, os cavalos para a viagem no dia seguinte.

— São muito boas terras!... o outro. O Cancela já por várias vezes tem-nas querido comprar.

— Compra-as agora.

E chegaram a casa.

—A minha gente está toda fora declarou o roceiro. Mas não faz mal, temos ai de sobra com que passar. Ó Gregório! — Meu senhô!

(continua...)

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