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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Devorei-o em duas secções: uma à noite, antes de dormir, até às duas horas da madrugada seguinte, e a outra entre o almoço e o jantar desse mesmo dia. Mal o terminei, corri ao meu amigo para pedir-lhe os pormenores da morte dessa inteligente e singular senhora, a quem tão mal julgara eu até aí e por quem, depois daquela leitura, sentia a mais profunda admiração e o mais enternecido respeito; e eis em substância o que me narrou Leandro:

D. Olímpia, depois que interrompeu com um gemido aquela sua página interminada, nunca mais levantou a cabeça dos travesseiros, vindo a falecer da moléstia que a prostrava.

Durou muitos dias a sua agonia mortal. Durante esse tempo, César fez todos os milagres da dedicação e do amor para salvá-la. Jamais amante nenhum foi tão extremoso e digno desse nome; nem jamais noivo de vinte anos chorou com tamanha paixão o desviver da noiva virginal e formosa.

A casta companheira da sua velhice morreu-lhe nos braços e recebeu o seu beijo derradeiro entre as lágrimas dos filhos. Poucos momentos antes de expirar, chamou estes dois para bem junto dela e, tomando uma das mãos de Leandro, e tomando uma das mãos de Palmira, falou-lhes com a flébil sombra de voz que ainda lhe restava:

— Logo que eu feche os olhos, disse-lhes compassadamente, abram aquela gaveta da minha secretária, cuja chave está debaixo deste travesseiro, e tirem de lá o manuscrito que fui escrevendo depois que Palmira se casou. Encontrarão aí a justificação plena de todos os meus atos e de todas as minhas palavras. Foi por amor de ti, minha filha, que concebi aquelas idéias, e foi para ti, meu genro, que as escrevi. Leiam-no ambos com atenção e procurem seguir à risca os preceitos que lá se acham estabelecidos, porque essa é a minha derradeira e única vontade, ao deixar este mundo. Se o fizerem, hão de ser eternamente felizes como animais humanos: terão a felicidade material em que se funda a vida orgânica da nossa espécie; mas, se quiserem desfrutar a outra felicidade, a melhor, a mais alta e mais perfeita; essa, que nenhum dos dois conhece ainda; essa, que gozei longe e ao lado deste meu atual esposo; essa, em que se baseia e garante a vida moral — tenha cada um de vocês dois o seu amigo, o amado do seu espírito, o eleito da sua inteligência, porque todo o homem, como toda a mulher, precisa tanto de um companheiro para a sua carne, como de um companheiro para a sua alma! A vida é o amor, e o amor não é só a procriação. Cristo não deixou filhos, mas a semente de seu amor vive e frutifica até hoje no coração dos homens... É possível que a ideal melancolia do seu beijo maculado, chorando eternamente através dos séculos, secasse muitos ventres, esterilizasse muitos homens, mas fecundou de imorredoura ternura muitos e muitos corações!... A carne é egoísta — temam o despotismo da carne! A carne é irmã degenerada — é o Caim da alma! Afastem um do outro esses dois irmãos irreconciliáveis, para que o ideal não caia assassinado pela besta! Vá cada um de vocês dois, meus filhos, buscar o esposo da sua alma, fora e bem longe do leito matrimonial, com os olhos bem limpos de luxúria, com a boca despreocupada de beijos terrenos, com o sangue tranqüilo e o corpo deslodado das lubrificações carnais! Minha filha — toma um amante — para teu espírito! Meu filho — elege uma amiga — para o teu coração de homem!

E calou-se.

Foram estas as suas últimas palavras. Depois de balbuciá-las, deixou pender a cabeça sobre o colo do esposo, e morreu sem um gemido.

Fim

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