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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Olímpia retirou-se com o pai nesse dia, como estava combinado. Não se despediu de Gregório, mas o comendador foi à procura dele para agradecer o incômodo que tomara o rapaz na véspera com a filha.

Gregório ficou surpreendido com a notícia da partida de Olímpia. Não podia acreditar! Pois ela ia assim, sem mais nem menos, sem lhe dar uma palavra, como se nada tivesse havido entre eles dois?...

Entretanto o comendador lhe oferecera a casa, e Gregório pensava com prazer em aproveitar esse obséquio. No dia seguinte, sem ter aliás experimentado melhoras, levantou-se da cama, vestiu-se e saiu. Na ocasião em que ganhava a rua deu com o Dr. Roberto, que o ia visitar.

— Pois o senhor já de pé? perguntou-lhe este com um gesto de censura.

— Estou perfeitamente bom, respondeu o outro.

— Não me parece. Ainda ontem tinha febre...

— Não era coisa de monta... O passeio há de fazer-me bem. Vou visitar o comendador.

— Ah! nesse caso vamos juntos; eu tencionava também ir para lá quando daqui saísse.

E os dois começaram a descer a rua do Rio Comprido. O Dr. Roberto ia preocupado: a singular moléstia de Gregório e aquela pressa do rapaz em visitar, ainda doente, o comendador; as melhoras efêmeras de Olímpia, a circunstância de haver Gregório tomado parte no passeio à gruta; tudo isso dava tratos à imaginação do médico.

— Ah, rapazes, rapazes, dizia ele consigo. E oh, mulheres! mulheres!

Em casa do comendador foram surpreendidos por uma novidade: Olímpia não queria ficar em Botafogo e exigia agora que o pai a levasse para a Tijuca.

Estavam tratando da nova mudança quando os dois entraram. Olímpia recebeu Gregório com muita frieza, mal lhe deu as pontas dos dedos e não lhe dirigiu palavra durante o tempo em que estiveram juntos. Parecia que nunca houvera absolutamente nada entre eles. Gregório ficou enfiado; no seu raciocínio aquele procedimento significava nada menos que cinismo. Olímpia aparecia-lhe agora ao espírito como uma mulher vulgar, friamente dissimulada e capaz de todas as hipocrisias. Mas se ela o tratava desse modo, o comendador, pelo contrário, procurava cercá-lo de obséquios e cortesias.

— Apareça-nos sempre, dizia o bom velho. O senhor dá-nos muito prazer com a sua visita.

Gregório chegou a casa possuído de um aborrecimento extraordinário; tudo o enfastiava, tudo o constrangia. Já não podia suportar as palestras do Papá Falconnet, quando este disparava no seu entusiasmo a falar de Bonaparte; já não encontrava prazer nos jogos de exercício com os outros rapazes da Avenida. Tudo o contrariava, tudo o enchia de tédio, porque tudo lhe recordava a ausência de Olímpia.

O velho divã da sala de jantar, onde ela às vezes se quedava esquecida com um livro abandonado no regaço, as flores que ela preferia para as suas jarras, a escada em que ela subira no momento em que Gregório a viu pela primeira vez; tudo o atormentava, tudo o mergulhava numa nostalgia insuportável e sem fundo. Quanto mais se convencia de que ela o desprezava; quanto mais se compenetrava de que ela o não queria; mais assanhado o desejo lhe trincava o coração e lhe chibateava os sentidos.

O Dr. Roberto foi o único que compreendeu tudo isso.

Nestas condições Gregório resolveu abandonar a Avenida Estrela. A preocupação do seu amor infeliz absorvia-lhe a melhor parte da atividade; já não estudava, pouco trabalhava, sentia-se ir enfraquecendo e acovardando todos os dias. O desgosto secara-lhe a coragem com que até aí cometia qualquer empresa e que lhe assegurava o bom êxito antes de dar o primeiro passo. Estava mais magro, mais descorado e mais tímido.

O Dr. Roberto principiou então a interessar-se por ele. Gregório piorava, só um bom tratamento o salvaria; o pobre moço tinha os pulmões fracos e predispostos para a tísica, porque, participando moralmente do caráter generoso e do gênio dócil de Cecília, herdada, pelo lado paterno, as conseqüências mórbidas da vida libertina de Pedro Ruivo.

O médico, quando o viu em risco de vida, carregou com ele para casa e transformou-o no objeto dos seus cuidados. É que Roberto ainda não tinha família e precisava dedicar a alguém essa porção de ternura e generosidade que traz consigo todo o coração bem construído, pronto a franqueá-lo ao primeiro que se apresente disposto a conquistá-la. Em pouco tempo os ligava a mais inquebrantável amizade.

E, de resto, não era difícil amar Gregório: ele dispunha em alto grau dessa irresistível simpatia, que é como o perfume das almas cândidas e que em geral se manifesta pelo sentimento da justiça. Não tinha os encantos brilhantes do homem de talento; não possuía a capitosa sedução de um espírito original e criador, mas cativava com a doçura da sua voz, com a simplicidade dos seus costumes e com a meiga ingenuidade do seu coração. Ele não deslumbrava, mas seduzia.

(continua...)

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