Por Aluísio Azevedo (1884)
Filomena desviou o rosto vagarosamente, pedindo ao marido, com um gesto, que se afastasse, e dois grossos fios luminosos principiaram a lhe correr pela nublada palidez do rosto. Depois, no fim de alguns minutos, como se ganhasse alívio com aquele choro, fechou os olhos e adormeceu tranqüilamente. Borges, encostado à porta do quarto, vigiou todo esse sono, que durou mais de cinco horas.
Só se animou a entrar, quando a sentiu novamente acordada.
Eram seis da tarde: de uma tarde melancólica de Julho.
Ouvia-se grunhir lá fora, o vento nos flabelados ramos das palmeiras, e o mar estrebuchava em soluços pela extensão da costa.
No aposento da enferma crescia o silêncio escuro das igrejas. Tudo era triste e concentrado; ao longe, vozes de crianças rezavam em coro a Ave-Maria.
Borges parou defronte do leito da mulher.
Viu-a toda branca, destacando-se do claro-escuro dos lençóis como uma figura de cera. Mas a fisionomia dela repousava numa expressão de inefável doçura.
Aproximou-se lentamente, sonâmbulo, e foi ajoelhar-se aos pés daquela imagem adorada; tomou-lhe uma das mãos, que pendia fora da cama.
— Meu amigo, disse Filomena com dificuldade, derramando sobre o marido um suplicante olhar de extrema ternura, como se lhe quisesse pedir perdão. — Meu bom amigo, sinto que morro, e só me punge a idéia do bem que não te fiz e do muito que merecias!...
— Ó minha querida! não penses nessas coisas!... — Espalha essas idéias de morte!...
Filomena meneou a cabeça.
— Não, não! disse-lhe o marido, tomando-a nos braços. — Tu não morrerás! Havemos de viver ainda muito! — felizes! — eternamente unidos como dois pombos! Eu continuarei a ser o teu escravo, o teu amante, o teu fiel companheiro; tudo aquilo que entenderes! Voltarei alegre para onde quiseres! Tornaremos à agitação da corte, à febre das paixões; principiarei de novo a minha vida! Saltimbanco, touriste, superintendente, jornalista, homem célebre, serei tudo de novo, contanto que tu vivas, meu amor, minha felicidade! Contanto que não te deixes assassinar por essa tristeza, que te abafa a existência, ó minha vida! ó minha doce esposa!
E o Borges, tomado de um desespero febril, estorcia-se ao lado da cama, desfazendo-se em lágrimas.
— Obrigada! muito obrigada, meu generoso e honrado amigo! De tal modo te habituaste às minhas quimeras e à minha loucura, que não podes acreditar que eu tenha um momento lúcido antes de morrer.
— Não! não! não penses em morrer, minha querida!
Filomena, em resposta passou os braços em volta do pescoço do marido e repousou a cabeça no colo dele.
— Só tu és bom!... dizia arquejando — só tu mereces todas as bênçãos do céu!... Como eu te adoro e como eu te amo, meu...
Não pôde acabar. E, depois de uma breve aflição, retesou as pernas e os braços, exalando, num estremecimento geral, o último suspiro.
— Filomena! Filomena! bradou o esposo, sem a largar das mãos, mas afastando-a rapidamente a toda a distância dos braços e encarando-a desvairado e sôfrego: — Fala! fala! Dize por amor de Deus que não estás morta!
Ela, porém, em vez de responder, deixou pender a cabeça para um dos lados e, assim, ficou na sua imobilidade de cadáver.
Borges ainda a encarou em silêncio, arquejante. Depois, sacudiu-a toda, com impaciência; chegou repetidas vezes ao seu rosto esfogueado o lábio frio da morta, para ver se lhe descobria um último sopro de vida. E, afinal, soltando um bramido formidável, repeliu-a de súbito e atirou-se ao chão, a espolinhar-se, a rolar por todo o quarto, entre gargalhadas de louco.
Entretanto, lá fora continuava o surdo marulhar das vagas; zumbia ainda o vento nos palmares; e as crianças, no seu coro de arcanjos, pediam à Virgem Santíssima que as amparasse neste vale de lágrimas.
Dias depois, no modesto cemitério de Paquetá, à sombra de um velho cajueiro, via-se uma pobre sepultura, em cuja lápide dois nomes se entrelaçavam com o mesmo apelido. E defronte, estático e silencioso, como uma esfinge de mármore negro, um enorme cão velho e trôpego, fitava-a, deitado, sobre a relva.
Fim
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.