Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

O provinciano, muito desvigorizado com a moléstia, sentia perfeitamente que os lúbricos impulsos, que dantes lhe inspirava a graciosa rapariga, iam-se agora destecendo e dissipando à luz de um novo sentimento de gratidão e respeito. A primitiva Amélia desaparecia aos poucos, para dar lugar àquela extremosa criança, àquela irmãzinha venerável, que lhe enchia o quarto com o frescor balsâmico de sua virgindade e rociava-lhe o coração com a trêfega mimalhice de sua ternura.

Nos momentos da comida é que se podia ver. Amâncio tinha grande inapetência e torcia o nariz aos alimentos; mas a pequena metia-o em brios, chamando-lhe piegas, fracalhão, dizendo que ele “parecia um neném e que precisava levar uns petelecos para tomar juízo”.

E atava-lhe ao pescoço o guardanapo, esfriava-lhe a canja, soprando amorosamente as colheradas, e, para lhe provar o apetite, paparicava também o que vinha e, com estalinhos de língua, dizia e repetia que estava tudo muito bom e muito gostoso.

Ele, às vezes, já se fazia mais doente e mais carecido de cuidados, só para desfrutar os mimos da enfermeira.

CAPÍTULO XII

Dias depois, o médico declarou que Amâncio estava livre do maior perigo. — As bexigas foram boas e secariam prontamente, sem quase deixar sinal na pele.

Dentre em pouco abria-se a janela do n.o 6 , recolhia-se a ultima roupa que servira à moléstia, defumava-se o quarto pela última vez, e o mimalho entrava afinal na convalescença.

Logo porém, que deixou a cama , apareceram-lhe dores reumáticas na caixa do peito e nas articulações de uma das pernas. Era o sangue de sua ama - de- leite de leite que principiava a rabear. Bem dizia outrora o médico a seu pai, quando este a encarregou de amamentar o filho.

E, pois, vieram os remédios para a nova enfermidade, e Amâncio, a despeito de sua impaciência para ganhar a rua, continuou encurralado na casa de pensão e submetido a uma dieta rigorosa. Sabino, que o Campos lhe remetera na véspera, tomou conta do lugar que o copeiro exercia durante a noite.

Nesses dias, Lúcia muito pouco se chegou para o estudante, receava com isso provocar. da parte do Coqueiro alguma violência contra si.— Ah! ela bem sabia que era guardada à vista; toda aquela família já nem ao menos disfarçava a vigilância em que a trazia; andavam todos eles, desde a velha até ao pequeno, a lhe fariscar os passos, descaradamente empenhados em afastá-la o mais possível de Amâncio. — Súcia de bandidos!

Com efeito, nunca mais lhe foi possível até aí fazer ao rapaz uma ou outra visita noturna. Mas, justamente no dia em que se arejou o quarto, estava Amâncio estendido na cama, a reler um esfacelado volume do Alencar, quando de repente se abriu a porta e Lúcia surgiu , aflita e apressada, correndo para ele num formidável alvoroço.

Seriam mais de onze horas da noite e a família do Coqueiro estava já recolhida.

Amâncio assustou-se com a visita, mas nem por isso a estimou menos. Quis, antes de tudo, saber que terrores eram aqueles.

— Que diabo havia acontecido? — Mas se alguma coisas ruim acabava de suceder a Lúcia, era, com certeza, por castigo, que ela estava uma ingrata muito grande; já não aparecia aos pobres; naturalmente tinha medo das bexigas!...

— Oh! não! não! vozeou a ilustrada senhora, agarrando-lhe ambas a mãos com transporte. — Não! Tudo que vier de ti, Amâncio, tudo que te pertence e diz respeito é bom e sublime para mim!

E correu de novo à porta, certificou-se de que a casa estava bem sossegada, e tornou para junto do estudante, apalpando dos lados e circunvagando olhares inquietos.

Sabino já se havia esgueirado discretamente pelo corredor; enquanto o senhor-moço, ainda meio aturdido com a agressão melodramática de que fora vítima, apanhava, uma por uma, as folhas do Alencar, que se tinham espalhado aos pés da cama.

— Pois olhe, ninguém o acreditaria!... disse ele voltando afinal, do seu espanto e pousando o livro sobre o velador.

— Porquê? Interrogou Lúcia muito séria e muito dura defronte do rapaz.

— Ora, Porquê!...Porque já não há quem a veja! Porque a senhora arribou deste quarto, como se aqui alguém lhe quisesse fazer mal!

Ela respondeu com um sorriso de tristeza e um resignado sacudimento da cabeça.

— Os fatos, pelo menos, assim o acrescentou o doente.

— Mas, valha-me Deus! Tornou a outra. - Pois não vês a perseguição que sofro aqui por tua causa? Não vês que sou espiada, seguida e vigiada a todos os instantes?! Não vês o ciúme que Mme. Brizard, o Coqueiro, a tal Amélia, Nini, o diabo! Afetam por ti?!

O ciúme?...perguntou Amâncio , deveras espantado. — Mas o ciúme, como? Por quê?

— Criança!...disse ela. E passou a mão na testa.— Estás na aldeia e não vês as casas!

— Eu?!

— Sim, tu!

E, assentando-se à beira da cama, para lhe ficar mais perto, continuou, diminuindo o tom da voz:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6263646566...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →