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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

A pacificação desta vila era na realidade empresa que exigia animo e espíritos fortíssimos. Nunca estivera tão acesa ali a fogueira das paixões partidárias, como nos últimos dias que precederam ao da chegada de Gil Ribeiro. A nobreza, em conseqüência da voz, que correra dias antes, de que o bando de Paraíba, de passagem para o Recife, tomaria em Goiana larga desforra das anteriores represálias, entendeu em fortificar-se, posto que sem ostentação, visto como os seus recursos não eram grandes, nas mais importantes embocaduras.

Nesse tempo a vasta campina que hoje se interpõe entre a ponte de Goiana, na Rua-do-rio, e o ancoradouro das barcaças, denominado Porto-da-conceição, era um sitio ocupado por Jorge Cavalcanti, no qual tinha ele grandes olarias. A casa de morada ficava no centro das terras. Do mirante punha-se debaixo das vistas toda a volta do rio Goiana que vinha do Porto-da-conceição, passava pela frente da campina e ia morrer, como ainda hoje, no lugar onde se vê o trapiche, que há poucos anos serviu de casa de teatro.

Não estava então obstruindo o rio. Barcos e sumacas chegavam até ao pé das casas da rua e ai recebiam ou deixavam os seus carregamentos.

Com o pretexto de fortalecer as barreiras para o embarque de tijolos e louça, mandou Jorge Cavalcanti levantar em vários pontos estacadas de pau-a-pique. Por trás das estacadas vastas tulhas de barro, e pela frente, no espaço da margem que ficava descoberto, largos e traiçoeiros fojos, eriçados de mortíferos espeques, davam a esta posição as vantagens da primeira fortificação da nobreza, visto que cortava quaisquer inimigas comunicações da Paraíba com a vila pelo rio.

Do lado do norte eis em que condições se achava a defesa.

Nas terras que ainda se denominam – Tanquinho – tinha o ex-alcaide-mór Manoel Cavalcanti de Lacerda sua casa de morada, a qual ficava na beira da estrada que vinha da Paraíba.

O ex-alcaide-mór sem hesitar um só momento aproveitou-se dessa importante posição. Não somente concentrou ai seus recursos, mas também mandou levantar ao longo da estrada e por dentro dos matos, trincheiras singulares, que grandes danos deveram causar aos assaltantes, se eles por ai tivessem feito a sua entrada. Mas não foi isto o que aconteceu, e assim destas amplas defesas, como das de Jorge Cavalcanti, que não o eram menos senão mais, como vimos, não se disparou um só tiro contra os da Paraíba, visto que, de tudo informados, não obstante serem grandes as cautelas tomadas e o segredo mantido sobre tais fortificações, cortando por diferentes caminhos, entraram na vila por onde não eram esperados como adiante veremos.

Cosme Cavalcanti ocupava o sobrado que ainda existe do lado direito, no fim do Beco-do-pavão e que dá para a Rua-do-meio.

Chamou para junto de se e lhe entregou o comando de varias ordenanças, que estavam de prontidão no pavimento térreo do sobrado, o alferes Diogo de Carvalho Maciel, o qual tão brilhante nome deixou por seus feitos nessa guerra. Felipe Cavalcanti, que morava na Rua-da-Soledade, e José de Barros na Rua-das-porteiras tinham também consigo gente armada, e só esperavam qualquer indicio de rompimento para caírem sobre os inimigos.

Guarnecia a cadeia o ilustre capitão Antonio Rabelo, que, por ocasião dos primeiros motins, fora destacado pelo governo para auxiliar na vila a defensão das autoridades e dos moradores pacíficos; e a todos inspirava a maior confiança.

João da Cunha trazia a sua gente no vasto armazém que ficava por baixo do sobrado por ele ocupado. Varias caixas de açúcar, que a esse tempo ainda ai se viam, porque tanto que se trocaram as primeiras hostilidades, cessaram as transações entre os agricultores e os comerciantes, haviam sido colocadas por trás das portas da frente, de modo que pudessem servir de trincheiras com avançada para o Pátio-do Carmo.

Estava sujeito a especiais perigos o ponto ocupado por João da Cunha, em conseqüência de se achar fronteiro ao convento, que era, para assim escrevermos, o quartel-general dos mascates, sendo por estes os frades, graças à influência dos da recoleta. No convento achavam-se recolhidas armas e munições mandadas de Recife para serem distribuídas pelos amotinados.

Eram estas as condições da defesa dos nobres em Goiana. Volvamos agora rápida vista-d’olhos sobre as dos seus adversários.

O plano destes era realmente tenebroso, e não ficava a dever ao da nobreza.

João da Maia, não obstante se mostrar mais moderado em sua ardência contra os senhores-de-engenho, do que ao principio, escrevera na véspera o Antonio Coelho:

‘Amanhã há de estar logo muito cedinho ai Luiz Soares com seu terço, passante de quinhentos homens.’ O próprio Luiz Soares mandara dizer a Jeronimo Paes por seu parente Joaquim Silverio:

‘Espere por mim com minha gente para almoçarmos. Queremos panelada gorda e bom vinho.’ O TundaCumbe a quem Antonio Coelho escrevera aconselhando-o a que entrasse ao mesmo tempo que Luiz Soares a fim de ser decisivo o golpe que se desfechasse sobre a nobreza, respondera dizendo que não faltaria.

(continua...)

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