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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

A infeliz não acreditava que na paciencia e na humildade tinha as chaves com que lhe serião abertas as portas do céo.

Ferida pois pela desgraça , e repellida pelos homens, sem crenças religiosas, sem amor e sem temor de Deus, que não lhe tinhão ensinado a conhecer, com o desespero na terra, e sem a fé no coração, como recuaria ella ante a idéa do suicidio ?

O suicídio era pois a consequencia da educação que a misera tinha recebido.

E ás vezes a pobre moça luctava contra as falsas doutrinas que a impellião ao crime : ás vezes pensava na eternidade, no céo, em Deus; era porém tarde; a luz passava quasi imperceptivel por diante dos olhos da infeliz cega.

O onda impetuosa da descrença arrancava das mãos da desgraçada naufraga a providencial taboa de salvação que ainda podia conservar-lhe a vida.

Juliana não estava louca; era incredula.

XXX.

Quando Fábio entrou no terraço, Juliana chorava, e tanto e tanto que nem vio approximarse della o mancebo.

Fábio esteve por alguns momentos junto della, contemplando-a em tristissimo silencio, até que, sentindo que por demais se estava commovendo, e que precisava poupar as forças do proprio animo, tomou-lhe uma das mãos e murmurou :

— Juliana !...

A moça estremeceu ; logo porém voltou-se e respondeu perguntando :

— És tu, Fábio ?... que queres ?...

— Padeces muitos?...

Juliana sorrio com um desses sorrisos que despedação corações.

— Minha irmã, disse Fábio, é necessario deixar de soffrer e de chorar...

— Eu?...

— Não ha mal que não tenha remédio ; Deus é grande e omnipotente.

— Deus?...

— Sim, Deus.

— Oh Fábio! Fábio! faze-me crer... faze-me crer!... olha : o que eu tenho na alma é horrivel; mas vejo bem que muito menos o seria se eu pudesse crer!...

— Juliana!...

— Sou muito desgraçada, Fábio.

— Podes porém ser feliz ainda,...

— Nunca.

— E se o homem que te illudio se apresentasse de novo ?

Juliana fez um movimento de horror.

— Não o amas então mais ?... perguntou Fábio, hesitando.

— Aborreço-o ! murmurou Juliana com uma profunda expressão de verdade.

— Pois bem, disse Fábio ; sabe que Jorge de

Almeida casou-se hoje.

Juliana estremeceu tão violentamente que Fábio teve de suste-la em seus braços.

— Estremeceste, Juliana!...

— Fábio ! disse a moça com voz sentida; o criminoso que conta com o patibulo, ainda assim estremece quando ouve o annuncio da sua sentença de morte.

— Então...

— Nada, Fábio; não concluas cousa alguma.

— Juliana, uma barreira eterna te separa desse homem.

— Estávamos já eternamente separados antes de levantar-se a barreira de que fallas.

— O teu coração está portanto livre e pôde dar-se a um outro homem que te mereça e te faça feliz...

— Um outro homem...

— Sim, Juliana.

— E que outro homem se abaixaria até á posição em que me acho ?...

— Aquelle que te amou sempre: eu, Juliana.

— Fábio!...

— Juliana, eu te offereço a minha mão e o meu nome.

Juliana deixou-se cahir de joelhos, e levantada nos braços de Fábio, tomou-lhe uma das mãos, e cobrio-a de beijos e de lagrimas.

— Aceitas, Juliana?...

A moça ficou por muito tempo sem poder fallar; quando porém os soluços não lhe embargarão mais a voz, respondeu resolutamente:

— Não.

— Oh Juliana! sê minha esposa.

— Não : tu és o mais generoso dos homens : eu tenho porém consciencia,de que sou indigna de ti.

— Juro-te que não te lembrarei nunca uma paixão funesta e louca que tantas lagrimas tem feito correr dos teus bellos olhos ! amo-te como d'antes, e quero que sejas minha : aceita-me, Juliana, aceita-me!...

Juliana commovida, tremula, e vivamente agitada, tomou entre as suas uma das mãos de Fábio, levou-o para um das ângulos do terraço, onde brilhavão menos os raios da lua, e alli, curvando a cabeça, balbuciou com voz lugubre :

— Fábio.., o que Jorge disse no hotel era verdade... Fábio... Jorge de Almeida deshonroume...

E Fábio com voz ainda mais tremula e mais lugubre respondeu :

— Ainda assim...

E encostou-se á parede para não cahir

XXXI.

Juliana levantou a cabeça, fixou seus olhos no rosto de Fábio, e comprehendeu toda a immensidade do sacriicio que o generoso mancebo se offerecia a fazer para salval-a.

As lagrimas, a confusão, a dôr profunda que sentia a infeliz moça, parecerão dissipar-se como por encanto; mas a tranquillidade que ella affectou subitamente, era ainda mais tremenda e ameaçadora.

— Sim, Fábio, disse ella; a noite não póde mostrar-se mais formosa ; a lua brilha, as flores rescendem odorosas.., é uma noite de magia... vem, Fábio, desçamos ao jardim...

E, tomando o braço de Fábio, desceu a escada do terraço, e adiantou-se com o mancebo pelas ruas do jardim.

Fábio estava triste, mas sentia-se ao mesmo tempo dominado pelo irresistivel poder daquella mulher formosissima.

De repente, Juliana parou diante de um massiço onde abundavão as violetas, e, depois de contemplal-as por alguns instantes, disse :

— Tu tinhas razão, Fábio ; as flores têm veneno : as violetas envenenárão-me ! aquelle ramalhete de violetas foi o principio e a causa da minha desgraça.

— Ainda te lembras disso ?...

(continua...)

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