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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Oh! tornou Mariquinhas; mas é necessário dançar, é necessário rir, é necessário fingir; porque a moça que não finge, sofre muito neste mundo que morde. – Oh! que mundo!...

– Vamos.

– Espera; olha bem para mim; poderão descobrir nos meus olhos que eu estive chorando?...

Mariquinhas olhou de perto para Celina, foi aproximando o rosto, deu-lhe um beijo, e disse:

– Teus olhos brilham... as lágrimas estão no coração. Desceram as duas amigas

Quando, deixando a janela em que haviam conversado, Mariana e Henrique tornavam à sala, Celina e Mariquinhas apareciam também.

Eram dois amores que entravam ao mesmo tempo: o primeiro trazia a esperança nos olhos, e o segundo um tormento no coração.

CAPÍTULO XXIII

CÂNDIDO

NA NOITE dos anos da “Bela Órfã”, foi a velha Irias uma das primeiras pessoas que reparou na ausência de Cândido.

Depois de esperar inutilmente vê-lo entrar de novo na sala, perguntou por ele, e soube com espanto que se havia retirado.

Receando que algum incômodo grande e imprevisto tivesse sobrevindo a seu filho adotivo, despediu-se dos donos da casa, e deixando o “Céu cor-de-rosa” entrou no “Purgatório-trigueiro”.

Subiu ao velho sótão, a porta estava fechada. Bateu em vão primeira, segunda e terceira vez.

Espantada daquele silêncio que no sótão reinava, desenhando-se em sua imaginação já um grande infortúnio, Irias gritou com força:

– Cândido! meu filho!... Cândido!...

Ouviu então os passos de alguém que da porta se aproximava, e Cândido respondeu:

– Ide sossegar, senhora; não tenhais receio algum pelo meu estado... não estou doente.

A voz do mancebo tinha um não sei quê de assustador.

– Abre! disse a velha.

– Amanhã, senhora.

– Abre! eu quero que abras.

– Eu preciso de repouso.

– Abre!

– Perdoai-me... mas esta noite não posso obedecer-vos.

– Abre, Cândido! exclamou a velha; abre em nome da mulher que te concebeu... abre em nome de tua mãe.

O mancebo pareceu hesitar ainda: mas logo depois deu volta à chave, e a porta abriu-se.

– Acertastes! disse ele; de hoje avante tudo por minha mãe... tudo... e só por ela.

Irias ficou extática diante de Cândido.

Não era mais aquele moço pálido, melancólico, abatido e fraco: seus olhos brilhavam de ardentes, suas faces estavam rubras, seus lábios às vezes convulsos, havia em todo seu semblante fogo e vivacidade; mas de sua fronte caíam gôtas de suor, e em seu aspecto, e em seus modos notava-se a agitação, e esse excesso de vida que acompanha os febricitantes.

– Que é isto?... que tem?... bradou Irias agarrando-lhe no braço.

– Quereis dizer que nunca me vistes tão belo, não é assim, senhora?...

respondeu o mancebo com um rir convulsivo, que fez estremecer a velha.

– Cândido!...

– Pois então?... não é melhor assim?... não estou mil vezes mais belo com este meu rosto enrubescido, com meus olhares flamejantes, com este ardor e este fogo, em vez de todo aquele gelo antigo? oh! aplaudi-me!... batei palmas!... eu triunfo!...

sou feliz!...

Uma risada nervosa terminou a delirante exclamação de Cândido.

A velha, que tinha entre as suas segura a mão do seu filho adotivo, disse com força:

– Tu não estás bom... tens febre; eu vou chamar um médico.

De um salto colocou-se o moço diante da porta, e respondeu:

– Aqui não entrará mais ninguém esta noite: para que um médico?... o que é um médico?... é o homem da vida, é o homem que deve esforçar-se para prolongar o mais possível a nossa existência, é o inimigo da morte; pois então para longe!... a vida é somente uma longa cadeia de tormentos: suas duas únicas realidades a definem com um gemido; porque o homem geme quando nasce, e geme quando morre; portanto aquele que tem por ofício estender esse longo aparelho de torturas, é um tirano. O médico é um homem mau... nada de médico!

– Meu filho!...

– Não! não! eu não sou vosso filho, sabeis?... não quero que me chameis por esse nome... é um direito sagrado que usurpais! devo-vos muito, não é isso?... pois bem, tomai todo meu sangue... ou melhor, sede a senhora de meus dias: trabalharei enquanto viver para vos sustentar; serei vosso escravo, e ainda assim morrerei confessando que vos fico devendo muito; mas ah! não me chameis vosso filho! de hoje avante está isso decidido... não me chameis vosso filho!

A velha começou a chorar. Cândido, que passeava a largos passos por toda a extensão de seu quarto, escutou enfim um soluço da pobre Irias; correu para ela, e achou-a sentada em seu leito, desfazendo-se em lágrimas.

– Vós chorais?... perguntou ele; que querem dizer essas lágrimas?... não confessei já que vos devia tudo?

– Oh! não! vós não me deveis nada, respondeu a mísera velha.

A voz de Irias trazia o acento de tamanha dor, que abriu o coração do mancebo a seus naturais sentimentos. Esquecendo de súbito os tormentos que o faziam desarrazoar, caiu aos pés da velha, e de joelhos, abraçado com eles, exclamou:

(continua...)

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