Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Rosa achou um não sei quê de pouco bonito na escolha, que de seu primo fez Honorina para ir com ela no mesmo batel.
Venâncio chegou-se respeitosamente para ao pé de sua mulher, e falou-lhe ao ouvido.
— Tomásia, em que batel julgas tu mais conveniente que eu me embarque?
— Naquele em que eu não for, respondeu imperiosamente Tomásia: não é justo nem decente que ande o senhor sempre atrás de mim.
O resto da companhia embarcou-se sem demora. Lucrécia, Rosa, Venâncio e Otávio no segundo batel, e no terceiro, enfim, Tomásia, Jorge, Brás-mimoso e Manduca, que havia tomado por timbre andar constantemente à pista do seu rival. Brás-mimoso já tinha jurado cem vezes aos seus botões que aquele rapaz era o homem mais impertinente do mundo todo.
Os batéis afastaram-se da praia.
Era belo vê-los como graciosos, iluminados e galhardos docemente se deslizavam pela superfície do mar sereno de Niterói!...
Soprava uma aragem suave e deleitosa; a noite estava clara, brilhante e fresca.
A lua gostosa se namorava, mirando-se no espelho das ondas.
E os três batéis iam indo... e dos remos que se erguiam do seio do verde lago, caía uma chuva de lágrimas brilhantes, que se diria um enxame de pirilampos.
A hora e o sítio pareciam ainda mais próprios para doces meditações do que para o ruído do prazer.
Honorina e Raquel, predispostas como se achavam para deixar ir suas almas enlevando-se e perdendo-se no encanto agridoce da melancolia, não puderam furtar-se à influência de tudo isso que se passava em derredor delas: o monótono ruído dos remos; o fraco murmúrio das ondas; a suave frescura do favônio; o sossego do sítio; o silêncio da hora, tudo, tudo as convidava a meditar... e elas meditavam.
E uma jovem, quando medita, é sempre sobre amor.
A mímica dessas duas moças demonstrava que havia um ponto de notável dessemelhança em a natureza de seus pensamentos.
Raquel tinha a cabeça inclinada para baixo e os olhos fitos no fundo do batel; cedendo a inexplicáveis movimentos de desassossego, suas mãos, que se achavam unidas uma à outra sobre o colo, apertavam-se mútua e cruelmente; seus lábios às vezes estremeciam, como dando passagem a um suspiro; e então ela olhava cuidadosa por um instante para seus três companheiros de passeio, e de novo caía na sua primeira posição.
Dir-se-ia que Raquel tinha na alma um pensamento doloroso e fatal que desejava esconder de todos, e abafá-lo dentro de si mesma.
Honorina, ao contrário, estava um pouco voltada para fora, e tinha os olhos embebidos em um único ponto do mar; brando e meigo sorriso se deslizava em seus lábios; os negros caracóis de suas belas madeixas brincavam, mercê do zéfiro, sobre suas faces... e ela também suspirava. E, pois, Honorina como que se aprazia em abrir as portas de sua alma, em deixar sair pelos olhos o pensamento que a ocupava.
A meditação da primeira é, portanto, um segredo; o pensamento da segunda podia ser perfeitamente compreendido, ao menos pela sua amiga.
Honorina pensava sempre no moço loiro.
Vós, que haveis amado mesmo há dez ou vinte anos passados, nunca parastes junto de uma árvore, como procurando o vestígio dos passos, ou o aroma dos vestidos do objeto de vosso amor, que outrora vistes descansando à sombra dela?... vós que amais ainda hoje, não buscastes com os olhos, ao entrar no jardim, o mesmo banco de relva, em que ontem vistes sentada a bela de vossos pensamentos, e não ficastes estático... enlevado com as vistas fitas nele uma hora inteira, como se ela ainda estivesse lá sorrindo-se para as flores, ou adormecida entre elas?...
Pois bem: naquele ponto do mar, onde tem Honorina embebidos os seus olhos, esteve ele... sobre o seu gracioso batel noturno; foi dali que ele respondeu ao hino da virgem; e Honorina pede, sem sentir, ao mar, que lhe mostre um sinal do rosto de seu batel, e às auras, que lhe tragam em suas asas ainda o eco de suas vozes!
Mas é que Hugo não se dava muito bem com cenas mudas, e ainda pior com semblantes melancólicos:
— Então, que é isto? gritou ele, saímos porventura de casa para entristecer-nos? será crível que estejam aqui as senhoras com medo deste mar de leite... ou quem sabe se estão ainda pensando no bateleiro de ontem à noite?
Honorina e Raquel olharam-se ao mesmo tempo... talvez Hugo tivesse, sem querer, compreendido os pensamentos de ambas.
— Vamos! ânimo! não sentem o prazer que reina nos outros dois batelões?... eu pensava que o nosso seria o mais divertido de todos! remadores... à esquerda e com força... avante!...
As duas moças viram-se obrigadas a fazer-se alegres para satisfazer a Hugo, e, desde então, somente começaram a tomar parte no divertimento noturno.
A primeira hora foi toda empregada em correr indistintamente pelo mar: os batelões, ora aproximavam-se, ora fugiam rapidamente da praia... depois todos três emparelhados empenhavam-se em disputar a primazia na rapidez da carreira, e ouviam-se conseqüentemente os aplausos de vitória, dentro do que alcançava o triunfo, e as admoestações e pragas aos remeiros daqueles que eram vencidos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.