Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Sabendo que Elvira há pouco entrara de novo na loja, o esposo namorado e já senão suspeitoso ao menos apreensivo recomeçou os seus rodeios pelas lojas até que lhe veio à lembrança o sobrado, e partiu para atravessar a galeria central, e subir a ele:
Elvira não se perdeu nos labirintos do sobrado, porque conhecia bem o caminho das salas das modistas e costureiras, e lá chegando, pediu para dissimular loucas suspeitas que trazia, que lhe mostrassem os mais ricos vestidos feitos, enquanto com olhos penetrantes e com instinto feminil estudava fisionomias, e procurava indícios do que em ciúmes imaginara...
No meio da exposição e elogios que lhe faziam de delirantes vestidos, Elvira preocupada e menos circunspecta voltou-se rápida, e sem explicações nem despedida saiu acelerada.
A modista, que acudira ao seu chamado, e que assim ficara sem saber como com um vestido entre as mãos e a freguesa em retirada, disse em francês às companheiras:
- Esta senhora trouxe e leva ou o marido ou o amante em incêndio na cabeça.
Vejam como a senhora mais honesta, e nenhuma podia sê-lo mais do que Elvira, se expõe por imprudentes comoções mal contidas a maus e injustos juízos!...
Mas, feliz coincidência, quando Elvira, tendo descido a escada, voltava pela sala central para a primeira loja, Alexandre vinha da segunda para subir ao sobrado.
Era isso ao mesmo tempo, e ainda assim tão desatinados ambos, que já passavam sem se ver, nem dar um com o outro, quando Elvira que era sempre mulher, ao olhar-se embora sem parar a um espelho, viu nele a imagem de Alexandre em rápido vôo, e gritou-lhe doce e anciosamente.
- Alexandre!...
O final da história adivinha-se.
Os dois noivos namorados quase que se abraçaram ali mesmo, mas ainda bem que apenas risonhos e aditados limitaram-se a apertar as mãos em consideração aos circunstantes.
Ah! e se não fosse o espelho?!!
Eram duas e meia horas da tarde quando Alexandre e Elvira perdidos um do outro desde mais de uma hora conseguiram encontrar-se!...
Que se mirem naquele espelho as minhas exmas. leitores e os meus leitores, para que penetrando naquela imensa república de lojas confederadas, de territórios anexos, de portas de entrada e de saída e de labirintos do sobrado da grande e espaçosíssima loja de modas Notre Dame de Paris não se exponham por leve descuido a perderem-se alguma vez os pais e as filhas, os maridos e as esposas, como aconteceu a Alexandre e a Elvira!
Agora cumpre-me declarar que a história ingênua de Alexandre e de Elvira foi por mim imaginada sem malícia alguma e só no intuito de oferecê-la em despedida às minhas exmas. leitoras, e amolados leitores, pois que recebem aqui o seu ponto final as Memórias da Rua do Ouvidor.
CAPÍTULO 18
Três Anexos às Memórias da Rua do Ouvidor
Como depois de dar por terminadas as Memórias da Rua do Ouvidor fui acusado de três omissões de casas célebres, e para remissão desse pecado tenho de ajuntar à obra três anexos. Como no anexo I trato de um livreiro notável, e acho azada ocasião para referir o interessante caso que levou o ilustre Sales Torres Homem, depois Visconde de Inhomirim, a entrar na vida política contra sua vontade. Como no anexo II me ocupo da loja de cabeleireiro Cabeça de Ouro que se tomou célebre por formosíssima trança de cabelos que media na vidraça onde foi exposta onze palmos e mais algumas polegadas (dois metros e meio); digo donde era a senhora, a quem se cortaram esses maravilhosos cabelos, e onde eles foram parar. Como enfim deixo adiado o anexo III por não caber no folhetim, que já ficou longo com os dois primeiros.
Bem disse eu, muitas omissões haviam de ser notadas nas Memórias da Rua do Ouvidor!
Terminando o Capítulo 17 dessas Memórias tomei larga respiração, escrevendo a palavra mais suave que os autores conhecem:
FIM
Eis-me hoje obrigado a voltar ao Folhetim do Jornal do Commercio para que me absolvam de três esquecimentos involuntários pelos quais me chamaram a contas.
Mas eu não me sei arranjar com a palavra Fim que escrevi, acabando o Capítulo 17, e com um novo capítulo depois do Fim, senão tomando o exemplo e seguindo a lição dos ministros de Estado, que depois do Fim dos seus relatórios ajuntam sempre a estes os anexos.
Não tremem, porém, de medo os meus leitores; os anexos das memórias da Rua do Ouvidor não hão de ser dez vezes maiores do que o corpo da obra, como se observa nos excelentíssimos relatórios.
Recebi três protestos, três obsequiosas censuras, três acetinadas e penhoradoras acusações de esquecimento de outras tantas casas notáveis, e, fazendo confissão do meu involuntário descuido, vou corrigi-lo neste capítulo de anexos.
E tenho para mim que neste reconhecimento e na emenda do meu erro dou prova de exemplar virtude, pois que vivo em tempos em que a vaidade humana tomou dogma o quod scripsi, scripsi de Pilatos, sendo todos os homens infalíveis como o Papa.
Leitores pacientíssimos! não há recurso; é indispensável voltar a fazer viagem pela Rua do Ouvidor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.