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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Pois se tem dado conta tão particular da grandura da Bahia de Todos os Santos e do seu poder, é bem que digamos a fertilidade dela um pedaço, e como produz em si as criações das aves e alimárias de Espanha e os frutos dela, que nesta terra se plantam.

Tratando em suma da fertilidade da terra, digo que acontece muitas vezes valer mais a novidade de uma fazenda que a propriedade, pelo que os homens se mantêm honradamente com pouco cabedal, se se querem acomodar com a terra e remediar com os mantimentos dela, do que é muito abastada e provida.

As primeiras vacas que foram à Bahia levaram-nas de Cabo Verde e depois de Pernambuco, as quais se dão de feição que parem cada ano e não deixam nunca de parir por velhas; as novilhas, como são de ano, esperam o touro, e aos dois anos vêm paridas, pelo que acontece muitas vezes mamar o bezerro na novilha e a novilha na vaca, juntamente, o que se também vê nas éguas, cabras, ovelhas e porcas; e porque as novilhas esperam o touro de tão tenra idade, se não consentem nos currais os touros velhos, porque são pesados e derreiam as novilhas, quando as tomam; as vacas são muito gordas e dão muito leite, de que se faz muita manteiga e as mais coisas de leite que se fazem na Espanha; e depois de velhas criam algumas no bucho umas maças tamanhas como uma pela e maiores, e quando são ainda novas têm o carão de fora como o couro da banda do carnaz; as peles das mais velhas são pretas e lisas que parecem vidradas no res-plandor e brandura, umas e outras são muito leves e duras, e dizem que têm virtude.

As éguas foram à Bahia de Cabo Verde, das quais se inçou a terra, de modo que, custando em princípio a sessenta mil-réis e mais, pelo que levaram lá muitas todos os anos e cavalos, multiplicaram de uma tal maneira, que valem agora a dez e a doze mil-réis; e há homens que têm em suas granjearias quarenta e cincoen-ta, as quais parem cada ano; e esperam o cavalo poldras de um ano, como as vacas, e algumas vezes parem duas crianças juntas. São tão formosas as éguas da Bahia como as melhores da Espanha, das quais nascem formosos cavalos e grandes corredores, os quais, até a idade de cinco anos, são bem acondicionados, e pela maior parte como passam daqui criam malícia e fazem-se mui desassossegados, mal arrendados e ciosos; assim eles como as éguas andam desferrados, mas não faltam por isso em nada por serem mui duros de cascos. Da Bahia levam os cavalos a Pernambuco por mercadoria, onde valem duzentos e trezentos cruzados e mais.

Os jumentos se dão da mesma maneira que as éguas, mas são de casta pequena; os cavalos não querem tomar as burras por nenhum caso, mas os asnos tomam as éguas por invenção e artifício, por elas serem grandes e eles pequenos que lhe não podem chegar, e as éguas esperamnos bem, pelo que há poucas mulas, mas estas que, ainda que são pequenas, são muito formosas, bem feitas e de muito trabalho.

As ovelhas e as cabras foram de Portugal e de Cabo Verde, as quais se dão muito bem, umas e outras parem, tirada a primeira paridura, duas crianças e muitas vezes três, as quais emprenham como são de quatro meses e parem cada ano pelo menos duas vezes, cuja carne é sempre muito gorda, mui sadia e saborosa; e quanto mais velha é melhor, e umas e outras dão muito e bom leite, de que se fazem queijos e manteiga.

Os cordeiros e cabritos são sempre muito gordos e saborosos; a carne dos bodes é gorda e muito dura; a dos carneiros é magra enquanto são novos e depois de velhos não tem preço; e criam sobre o cacho uma carne como ubre de vacas de três dedos de grosso.

A porca pare infinidade de leitões, os quais são muito tenros e saborosos, e como a leitoa é de quatro meses espera o macho, pelo que multiplicam coisa de espanto, porque ordinariamente andam prenhes, de feição que parem três vezes por ano, se lhe não falta o macho. A carne dos porcos é muito sadia e saborosa, a qual se dá aos doentes como galinha, e come-se todo o ano por em nenhum tempo ser prejudicial, mas não fazem os toucinhos tão gordos como em Portugal, salvo os que se criam nas capitanias de São Vicente e nas do Rio de Janeiro.

As galinhas da Bahia são maiores e mais gordas que as de Portugal, e grandes poedeiras e muito saborosas; mas é de espantar que, como são de três meses, esperam o galo, e os frangões da mesma idade tomam as fêmeas, os quais são feitos galos e tão tenros, saborosos e gordos como se não viu em outra parte.

As pombas da Espanha se dão na Bahia, mas fazem-lhes muito nojo as cobras que lhes comem os ovos e os filhos, pelo que se não podem criar em pombais.

Os galipavos se criam e também fazem tão formosos como na Espanha, e davantagem, cuja carne é muito gorda e saborosa, os quais se criam sem mais cerimônias que as galinhas. E também se dão muito bem os patos e gansos da Espanha, cuja carne muito gorda é saborosa.

C A P Í T U L O XXXIV

Em que se declara as árvores da Espanha que se dão na Bahia, e como se criam nela.

(continua...)

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