Por Inglês de Sousa (1891)
— Ora que tinha, terminou Macário, que fôssemos todos às tabas mundurucuas, embora arriscássemos a vida? É verdade que podíamos ser comidos, mas seria no serviço de Deus Nosso Senhor!
Padre Antônio, desesperado, tentou vencer a resistência de João e de Pedro com rogos, ameaças e promessas. Foram inabaláveis. Somente pôde S. Rev.ma conseguir que, mudando de rumo, remassem até o próximo lago de Canumã, onde poderiam encontrar algum sítio de gente civilizada.
— Ara vamos lá, senhor padre, disse o Pedro fazendo valer a condescendência.
E começaram a remar molemente. Ao cair da noite acharam-se à boca do lago, no porto dum pequeno sítio de pescador, sentinela perdida da civilização naqueles ermos.
Padre Antônio desembarcara com o Macário, a fim de ver se acharia por ali dois rapazes que quisessem substituir o João e o Pedro na condução da igarité ao porto dos Mundurucus. Padre Antônio entrou na casinha de palha, barrada de preto, situada a meia encosta duma ribanceira suave.
Uma tapuia, ainda moça, vestida com uma simples. saia de chita pirarucu, acocorada nos calcanhares, atiçava fogo a uma panela de peixe, e duas crianças nuas, de duras melenas negras caídas sobre os olhos, rojavam-se pelo chão úmido da casa, brincando com três cachorros magros, que se quiseram lançar sobre os visitantes, apenas os avistaram.
— Tá quieto, Jaguar, sossega, Pretinho, tá quieto, Paqueiro, disse a mulher, ameaçando os cães com uma colher de pau.
As crianças cessaram de brincar, pasmando para os dois desconhecidos que tão de improviso as perturbavam. Padre Antônio com a mão direita arredondou no ar o sinal da cruz:
— A paz do Senhor seja convosco, irmã.
— Amen, dico vobis, acudiu Macário com gostosa reminiscência.
A tapuia rojou-se aos pés do padre, balbuciante e trêmula, e veio beijar-lhe a fímbria da batina. Os pequenos, acocorados no chão, olhavam, espantados. Os cães cercavam o sacristão, cheirando-o desconfiados.
Padre Antônio expôs então o motivo da visita. Mas a tapuia o desenganou logo, muito tímida, pedindo mil desculpas. Não era culpa dela! A não ser o marido, o seu Guilherme que estava ausente e só voltaria na outra semana, ninguém por aquela redondeza se atreveria a adiantar-se pelo Abacaxis acima, e menos pelo Canumã, que devia ser agora o caminho preferido, por ficar mais perto, desde que a igarité, em vez de navegar direito pelo Abacaxis, subira até o lago do Canumã. Seu Guilherme fora à salga no furo de Uraná, e ela, a Teresa, ali ficara com os dois filhinhos, sem medo nenhum, já acostumada, porque sabia que os tapuios bravos nunca chegariam à boca do lago, e quando chegassem não lhe fariam mal algum, porque o seu Guilherme era amigo deles, fornecia-lhes aguardente e tabaco a troco de castanhas e de guaraná. O marido conhecia muito bem o caminho do porto dos Mundurucus, e poderia levar o senhor padre até lá, se não estivesse agora na salga do pirarucu.
Padre Antônio agradeceu a boa vontade da Teresa, e voltou a entender-se com o João e o Pedro. Procurou convencê-los a continuar a viagem, dizendo-lhes que não lhes sucederia mal algum. Ele, padre Antônio, ia como missionário a chamar os índios para o grêmio do cristianismo. Ia pregar-lhes a verdadeira religião e o João e o Pedro, associando-se a esta nobre empresa, ligariam para sempre o seu nome à gloriosa catequese dos mundurucus, prestando um grande serviço a Deus Nosso Senhor, que morreu na cruz para nos salvar, a nós todos, brancos e tapuios, das garras do demônio.
Macário seguira os passos de S. Rev.ma e muito resignado, juntou as suas instâncias às exortações de padre Antônio de Morais. Provavelmente morreriam todos naquela santa empresa, disse ele, antes que a palavra de paz e amor que S. Rev.ma levava pudesse chegar aos ouvidos dos mundurucus, porque as flechas andavam mais depressa do que as vozes. Mas uma tal morte seria muito meritória, faria do João e do Pedro santos da Igreja, S. João Maué, S. Pedro do Urubus, tais como os da Matriz de Silves. Demais se morressem iriam para o céu em companhia de S. Rev.ma e dele, Macário de Miranda Vale, que tinha tanto amor à própria pele como qualquer outro.
— Muito bem, Macário, disse padre Antônio, satisfeito e admirado. Nunca esquecerei os teus bons serviços.
— Saberá V. Rev.ma que ainda não fiz nada.
E Macário continuou a apertar com os maués. E como se lhe ocorresse de súbito um argumento de peso, foi à tolda, muniu-se de uma boa ração de fumo e aguardente e ofereceu-a aos endurecidos rapazes.
O João e o Pedro, com lágrimas nos olhos, prometeram continuar a viagem na seguinte madrugada, com a condição, porém, de que se lhes daria licença de voltar logo que avistassem o aldeamento.
O Padre e o sacristão fariam o resto do caminho por terra.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.