Por Domingos Olímpio (1903)
Cada vez mais espessa, a neblina da tarde, com uns restos de calor, entrava a redondeza. Casas, árvores mortas confundiam-se desconformes, no esboço da paisagem, esfumada em claro-escuro. As manchas das sombras alastravam, como um líquido negro, devorando os tons luminosos. No céu, puríssimo, piscavam, espertas, álacres, como uns pequeninos olhos, estrelas e constelações. Papa-ceia, o astro da melancolia, librava-se no poente ainda claro, como lúcida lágrima, mensageira da dor ignota, oculta nas profundezas misteriosas do espaço, tremeluzia prateada como pólo das esperanças e das mágoas dos tristes, e parecia vacilar atraída pelo sol, atufado em nuvens purpúreas.
Pela estrada, abeirada à casa, passavam mulheres e meninos conduzindo as rações. Vinham da cidade ou do morro do curral do Açougue; deviam de saber de Alexandre e Teresinha, mas Luzia não ousou interrogá-los. Apareceu, depois, Romana à frente do grupo de bandoleiras desenvoltas. A roliça cabocla, de dentes aculeados não ria dessa vez. Lamentava, com as outras, a sorte de Crapiúna, que se desgraçara, apanhado na arapuca armada ao outro. Metia-lhes intenso dó o Belota, tão bom para elas, uma vítima da amizade, ou das más companhias. Nada diziam em defesa de Crapiúna; consideravam, entretanto, injustiça prenderem o outro, homem incapaz de fazer mal e sempre, bem procedido no serviço. Só tinha o defeito de jogar, mas o Governo devia saber que ele não se podia manter com o reles soldo; era homem como os paisanos. Ninguém vive enchendo a barriga de vento como os camaleões.
— Olha a Luzia! – observou uma – Nem parece que o homem dela foi solto!
— Vote! – atalhou outra – A modos que estaria mais alegre se ele ficasse na cadeia toda a vida.
— Qual o quê! – ponderou Romana. – Aquilo é soberbia. Quer mostrar que não faz caso de nada neste mundo. Impáfia ali é mata. Deixa estar que há de ser castigada.
— Aquilo, mulher, é calibre do sangue. Nem o demônio tira. Por isso é que vive sempre apartada das outras, metida com ela cheia de coisas como se fora uma senhora dona.
— Conheço muitas mais melhores que não se desprezam de tratar bem e falar com a gente.
— Só a Teresinha lhe caiu em graça. As duas se entendem. Deus as fez...
Esses comentários eram feitos em voz alta, para que Luzia os ouvisse; esta, porém, minada embora de rancor surdo a Romana que não a poupava com insinuações perversas, duma ironia picante, e passava por ali de propósito para molestá-la, fingia não ouvir, resistindo ao impulso de assaltá-la, arrancar-lhe a língua danada, esmagá-la aos pés, como réptil nojento e venenoso.
O grupo desapareceu. Passaram depois desconhecidos que, confundidos ao lusco-fusco, a saudavam com boa noite.
A velha mãe reclamava os seus cuidados, para iluminar o quarto e dar-lhe o remédio, que, abaixo de Deus, a salvara.
— Tiveste notícias de Alexandre? – perguntou-lhe ela, interrompendo o terço, rezado a meia voz.
— Não – respondeu Luzia, com fingida indiferença – Depois de saber que estava solto, fiquei descansada... tirei dele o juízo...
— E Teresinha?
— Sei lá!...
— Estou tão acostumada com ela, que já lhe sinto a falta quando se demora...
— Ainda é cedo. Virá quando a lua sair...
— Sabes que mais, filha? Acho-te hoje tão mudada!
— É que estou imaginando no que devemos fazer, agora que não temos já obrigação de velar por ele. O coração me pede que vamos embora; mas não podemos. Não há remédio senão ficarmos. Será como Deus quiser. Eu terei sempre forças para trabalhar e viver... sem ser pesada a ninguém, apesar de me desprezarem e fazerem pouco de mim.
— Não fales assim, filha. Os fortes também enfraquecem quando Deus os desampara.
— Deus! Deus já não se lembra de nós, que somos cristãos, que o adoramos e amamos...
— Tem fé nele, que é pai de misericórdia.
— Para falar a verdade, mãezinha, eu, às vezes, não acredito em nada. A desgraça endurece o coração. Por causa dela, os pais abandonam os filhos; maridos desprezam as mulheres e as criaturas viram bichos, ou ficam piores que eles. Para o fim do mundo, só falta que as mulheres não tenham mais filhos, pois já ninguém ama.
— E eu que pensava...
— Em quê?
— Não te quero pôr de confissão, mas... sempre desejava saber se Alexandre nunca te falou em casamento.
— A mim?
— Pensei que se engraçara de ti. Fiquei com a mosca na orelha desde aquele mimo dos cravos.
— Os cravos! É verdade que, um dia, ele me disse: "se casássemos, iríamos viver juntos em uma casinha da ladeira da Mata-fresca." Não respondi sim, nem não. Depois apareceu o impute, e foi preso. Sofri mais com essa desgraça do que ele; até parecia que todos me olhavam como ladra, e só o abandonei quando suspeitei que era igual aos outros homens, queria bem a outra e me enganava cruelmente. A última vez que vi ele, deixei-lhe os cravos na grade da cadeia. Essas pobres flores, guardadas no meu seio, como um breve milagroso, não podiam mais ficar comigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.