Por Aluísio Azevedo (1895)
- Não, quanto a isso, respondeu o velho, não aceito os seus cumprimentos, porque não devem ser dirigidos a mim; pertencem de direito a uma senhora que acompanha minha filha há oito anos, Mme. de Nangis... Daqui a pouco lhe serão ambas apresentadas. Se não fosse Mme. de Nangis...
E, como Branca passasse nesse ato pela sala próxima de braço com uma amiga, o comendador interrompeu o que dizia e correu ao encontro dela.
Teobaldo apressou-se a segui-lo.
- É esta, disse o velho.
E, voltando-se para a menina:
- O Sr. Teobaldo Henrique de Albuquerque, filho de antigos conhecidos meus e amigo de teu primo Afonso, que teve a boa idéia de o trazer a esta casa.
Teobaldo vergou-se respeitosamente e declarou que estava encantado em ter feito conhecimento com pessoas tão distintas.
Em seguida o comendador deu-lhe o braço e levou-o até onde estava Mme. de Nangis.
Nova apresentação.
- Agora, disse o velho, está cumprido o meu dever e o senhor que trate de si; faça-se apresentar às amigas de minha filha. Com licença.
- Vai principiar o concerto, observou a professora aceitando o braço que lhe ofereceu Teobaldo - o senhor gosta de música?
- Apaixonadamente, minha senhora.
- Toca algum instrumento?
- Um pouco de piano.
- Quando tiver ocasião dar-nos-á muito prazer em se deixar ouvir.
- V. Exa. confunde-me...
E chegaram à sala próxima, onde duas rabecas, uma violeta e um violoncelo dispunhamse a executar uma serenata de Schubert.
Depois da serenata, Mme. de Nangis anunciou a Teobaldo que ia dançar uma quadrilha e perguntou se ele queria um par.
O rapaz respondeu que ficaria muito lisonjeado se ela própria o aceitasse para seu cavalheiro.
- Com muito gosto, mas fique sabendo que o senhor perde com a troca, replicou a professora.
Dentro de uma hora, Teobaldo era o objeto da curiosidade de todas as damas.
Seu tipo destacava-se naturalmente, sem o menor exagero de galanteria, sem frases pretensiosas, e sempre correto, elegantemente frio e de um distintíssimo comedimento nas palavras e nos gestos.
Branca foi o seu par nos Lanceiros; depois cedeu--lhe também uma valsa, terminada a qual puseram-se ambos a conversar.
- O senhor é que é o autor de uns versos, que saíram há poucos dias no jornal?
- Sim, minha senhora, mas como chegou V. Exa. a lembrar-se de semelhante coisa?- É que meu primo me havia dito que eram de um amigo dele, creio até que chegou a citar o seu nome e, agora, vendo-os juntos...
- V. Exa. gosta de versos?
- Qual é a moça de minha idade que não gosta de poesia?... Ainda ontem meu pai trouxeme um livro de Casimiro de Abreu. Conhece?
- Já li. Tem coisas admiráveis.
- Oh! É tão terno, tão apaixonado, que faz chorar. E, mudando de tom:
- Sabe? Meu primo também é poeta...
- Ah! fez Teobaldo.
- Ofereceu-me hoje uma poesia. Quer ver?
Teobaldo bem podia dispensar a leitura, mas não quis prejudicar o outro e disse quando a terminou:
- Magnífico! Não sabia que o Aguiar tem tanto talento!
- Eu também não...
- Até aqui o apreciava somente pelas suas qualidades morais.
Branca não respondeu, porque neste momento uma senhora principiava a cantar ao piano.
Daí a pouco, a um canto da janela, perguntava Afonso ao amigo:
- Então, que tal achaste minha prima?
- Encantadora.
- Não é?!
- Adorável! Uma flor!
- Falou-te nos versos que lhe dei?
- É verdade, e eu tive de elogiá-los, para fazer não desconfiar que eram meus. Imagina em que estado não ficaria minha modéstia; qualifiquei-os de admiráveis!
- E, com efeito, são muito bons.
- Qual! Escrevi-os de afogadilho! Ah! mas se eu já a conhecesse, juro-te que sairiam inspirados!
- Pois reserva a inspiração para outra vez.
Não continuaram a conversa, porque Mme. de Nangis veio ter com Afonso e arrebatou-o, dizendo ao outro:
- Tenha paciência, roubo seu amigo por um instante!
Teobaldo ia também deixar a janela, quando a cortina desta se agitou e apareceu Branca.
- Ah! fez ele, V. Exa. estava aí?
- Sim, o que foi muito bom, porque posso lhe agradecer os versos que o senhor me fez.
- Pois ouviu?
- Ouvi, mas foi sem querer... Que mal ha nisso...
- Seu primo é que não ficará satisfeito.
- Se souber, mas que necessidade tem ele de saber?..
- Quer que eu não lhe diga nada?
- Decerto, e nem só isso, corno desejo que meu primo não fique na primeira poesia e me ofereça muitas outras. Vou daqui direitinha dizer isso mesmo a ele próprio.
E, como para agradecer antecipadamente os versos de Teobaldo, estendeu-lhe a mão, que o moço apertou entre as suas, um tanto comovido.
Horas depois, os dois rapazes, já instalados nos seus sobretudos, metiam-se no carro e abandonavam a festa do comendador.
Pela viagem Teobaldo, a despeito do bom humor do companheiro, quase que não deu palavra; e, ao se pararem-se, Afonso notou que o achava triste.
- Não é nada, respondeu o outro. - Adeus. Até mais ver!
E deixou-se cair para o fundo do cupê, respirando com alívio e murmurando entredentes: – Adorável criança!
XVIII
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.